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A ORAÇÃO INÚTIL (?)

Confesso que errei. Preciso me redimir.

Sempre compreendi a oração da Igreja por Pedro, quando este estivera preso, como um fiasco. Só pra lembrar: Herodes, embalado pela perseguição, tirara a vida de Tiago depois colocara Pedro na prisão, enquanto os judeus, politiqueiros e fundamentalistas, comemoravam o dia dos pães asmos. Pedro, assim, corria risco de morte. Num dado momento foi libertado de forma sobrenatural. Procurou os seus pares, apresentando-se àqueles que por ele oravam. Embora estivessem orando, ninguém acreditou que Pedro pudesse sair vivo da prisão. Se Pedro dependesse da fé deles estaria perdido. Aparentemente, um verdadeiro fiasco.

Já ensinei isso e conversei comicamente sobre o episódio. Ri de quem ora sem fé, de Pedro perdido, e mostrei que Deus conduz o seu plano apesar das nossas orações. O “apesar” deve ser lido em negrito. Só que errei, e foi por muito. Não há nada de engraçado quando se pensa na igreja escondida, amedrontada e ameaçada diante de um sujeito sem qualquer escrúpulo ou bom-senso, como Herodes. Não há nada de engraçado quando se passa uma noite na prisão, e muito menos no sofrimento pela morte injusta dos primeiros mártires. A morte de Tiago, após a de Estevão, abriria os anos de terror contra os cristãos de tal forma que matá-los seria uma espécie de diversão. Num primeiro momento a perseguição seria apenas religiosa. Imagine então quando o Império Romano desejou fazer parte da carnificina, declarando que a luta contra os cristãos era um problema de “segurança nacional”, tipo ditadura tupiniquim! Não houve guerra, mas caçada. Um safári por vilas, lugarejos, estradas e principalmente centros urbanos. A igreja orava nessas circunstâncias. Não era uma questão de acreditar na vida, mas na morte, porque esta parecia ser a mais provável. Alguém bateria à porta arrastando mulheres, crianças e pescadores. A morte viria buscá-los, e não havia meio de se evitar isso. Foi o que fez Pedro: bateu à porta. Foi o que pensou a igreja: era som, toque e chamada da morte. A morte não veio e Pedro se foi, colocou outro em seu lugar e se despediu. Não quis voltar para o terraço. A igreja não acreditou no que pediu, e Pedro, por sua vez, só se deu conta do que estava acontecendo depois de acontecido. Fé também significa insegurança, por mais contraditório que isso possa parecer. Um e outro estavam no mesmo barco.

A oração não se valida por conta da resposta, mas pela oração mesma. Essa é a parte difícil de explicar. É também aqui que está a minha interpretação equivocada. Sempre quando se fala de oração, pensa-se nos resultados. Faça isso, desse modo, e receba assim, desse jeito. Daí aparecem os manuais “aprenda a orar em 28 dias”, “como desenvolver orações poderosas”, “treze mil trocentas e quinze orações respondidas”, “como fazer Deus ouvir a sua oração”, “a oração que faz efeito”, “movendo o coração de Deus”, são verdadeiros tratados, colocados em ordem ritual de prioridade, o que fazer primeiro, o que esperar depois, o que dizer durante, como deve ser a postura enquanto se ora, você tem fé? Deus não responde a sua oração? Como não? E quem é que nunca teve uma oração não respondida? Queremos aprender a orar, obter a fórmula secreta e o caminho mais curto, eficiente e eficaz para que o coração de Deus seja alcançado.

Observada por essa perspectiva, a oração da igreja por Pedro foi um vexame. Se pensada como um momento em si mesma, era o que a igreja mais precisava. Aquelas poucas pessoas, de uma minúscula comunidade, mesmo que preocupados com Pedro, careciam uns dos outros. A oração que faziam já se constituía como abençoadora, só por ser oração. A validade não estava na resposta, mas na oração mesma. Enquanto oravam, se protegiam, buscavam socorro, colocavam seus medos, suas preocupações e a impotência diante de algo que nada poderiam fazer – um punhado de gente contra um reino. Só um milagre salvaria Pedro, coisa que não acreditavam. Só que amavam a Pedro, e isso por si só já fazia daquele momento algo singular.

Esperar milagre é o que muitos fazem, continuar orando apenas com base no amor é para poucos. É a confiança que supera a confiança. É fácil orar quando se sabe que fatalmente irá receber, que tamanho terá, a que horas acontecerá, tempo de duração e ocasião, local e aparência. Tudo já terminado antes de se começar a pedir. Orar, quando as coisas são assim, é apenas um detalhe.

Agora, quando você ora meio no vazio, de quem faz isso por amor a quem sofre, e mesmo sem ver o futuro continua orando só pelo prazer de conversar com Deus sobre a vida, o medo, a dor do sofrimento do outro, mesmo sem entender muito, isso é diferente. É mais inseguro, porque ainda não foi dado, e não se sabe se será ou como será, mas em compensação não há um automatismo como um maquinário que engole e transforma gente em máquina feito “Tempos Modernos”. A oração não é uma produção em série, não tem seqüência numérica, nem registro de propriedade. Não tem carimbo ou manual. Tem no máximo um roteiro, uma espécie de mais ou menos, uma busca, um deslocamento da pessoa para Deus, um desejo, um sentimento profundo de amar, sofrer e se render. Quando se ora, a resposta já aconteceu, independente do resultado. Veio em forma de dependência, submissão e humildade. Já se fez presente como amor, embrulhado e pronto para ser degustado. Não tem botão para ser apertado, mas tem memória, recordação e esperança. Isso tem, e tem mesmo. Tem também um sentido de ausência, um sair do mundo, desligar-se, ocupar-se com Deus, somente com Ele e conversar sem pressa como quem tem muitas histórias e não suporta a ânsia de contá-las, mesmo quando já se sabe não serem novas para quem as escuta. São pretextos para uma conversa que se arrasta para a rua. Está no coração do motorista enquanto dirige, ou do pedreiro enquanto coloca a telha, do músico enquanto afina o instrumento ou da criança enquanto aprende. Está na paixão da dona de casa e mãe, enquanto trabalha e pensa nos filhos. Não há a necessidade de se aguardar uma resposta. A espera é mais saborosa que o acontecimento, e o problema mais interessante que a solução. Mostra que a gente não sabe nada. Depois fica fácil. Até parece que a gente já sabia, mas é necessário sentir-se perdido, para ser encontrado, e esperar a morte bater à porta para se saber o que é a vida.

Não acredito que a oração daquela comunidade tenha sido inútil, e não acho que uma pessoa deva deixar de orar só porque tem dúvidas sobre a sua própria fé. Oração é um modo de vida e se constitui, por si mesma, na própria resposta.

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

ORAÇÃO QUE BROTA DA DOR

O sofrimento tem sido neste terceiro milênio um assunto muito debatido e discutido. A sociedade urbana globalizada em geral tem um posicionamento de evitar o sofrimento. É claro que ninguém quer sofrer e que é quase como um extinto humano rejeitarmos e fugirmos do sofrimento.

Mas o sofrimento tem algumas faces que precisam ser identificadas para que possamos saber lidar com os tipos deles existentes.

Tem sofrimento que a própria vida nos reserva. São situações que acontecem com praticamente todo ser humano pelo menos uma vez na vida e em muitos acontecem muitas vezes na caminhada por este mundo. São questões que na maior parte das vezes não temos responsabilidades por entrarmos. Quando estamos dirigindo de maneira correta e batem no nosso carro, quando saímos de casa e apesar de ela estar segura é assaltada, quando contraímos uma doença mesmo nos cuidando bem e etc.

Outro tipo de sofrimento é aquele que nós mesmos geramos. São acontecimentos em quê a responsabilidade era totalmente nossa. Quando ofendemos alguém por estarmos bravos, quando cometemos algum crime e somos pegos, quando administramos mal nosso dinheiro e entramos em crise financeira e etc.

Independente de qual seja a fonte do nosso sofrimento, é fato que ela gera dor em nós e muitas vezes em outros também. E esta é uma grande questão em que deveríamos refletir mais na nossa vida: Como lidar com a dor?

Com dor não estamos querendo dizer apenas das dores físicas, mas principalmente das dores da alma. Nesta geração aonde a dor e o sofrimento têm sido tão combatida, fica difícil encarar a dor como algo inerente na vida e que nos ajuda a crescer. Mas esta é uma maneira sábia de lidar com a dor e sofrimento. Saber distinguir aquela dor que nós mesmos geramos e que não precisaríamos ter gerado, da dor que é normal na vida de qualquer ser humano.

Para quem tem uma espiritualidade que lhe faz ser lançado para a oração pode dizer na sua vida de oração como a dor e o sofrimento é em muitos casos o combustível para as orações mais sinceras e profundas que já se teve. Quem sofre, mas tem um Deus para compartilhar da dor, consegue encontrar em Deus um refúgio seguro para poder descansar das dores e dos sofrimentos que por vezes atormentam a alma angustiada do que sofre.

As orações mais marcantes na vida de um devoto não são aquelas de agradecimento por alguma alegria que viveu de reconhecimento de quem é este Deus e etc. A oração mais profunda de um ser humano é aquela oração que brota da dor.

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Mateus Feliciano
Seguidor de Jesus Cristo desde 1991; marido da Carol Lourenço desde 2010 e pai da Clara desde 2016; nascido em Santo André-SP desde 1982 e morando em Campinas desde 2003. Formado em administração, teologia e pós graduado em exposição bíblica. Coordenador da Seara Urbana ONG de recuperação de moradores de rua desde 2006; Pastor na IBBG, da REDE (IBBG Jovem) e do HELP (Ação Social); Professor na Faculdade Teológica Betesda nas áreas de teologia, missiologia e eclesiologia; Professor de missões urbanas e discipulado na JOCUM; Membro da FTL-Fraternidade Teológica Latino Americana.

PAI NOSSO

“Pai nosso, que estás nos céus!
(Acima de tudo e de todos, mas que mesmo assim nos olha)

Santificado seja o teu nome.
(Tu és Santo não porque dizemos, mas porque tu És)

Venha o teu Reino;
(precisamos dos valores do teu Reino perfeito em nossas vidas)

seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.
(O que o Senhor deseja é sempre o melhor para nós)

Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia.
(sabemos da tua fidelidade em cuidar de nós, nos ajuda a confiar em ti)

Perdoa as nossas dívidas,
(nos ajuda a reconhecer nosso pecado para que recebamos o seu perdão)

assim como perdoamos aos nossos devedores.
(nos ensina a perdoar como o Senhor nos perdoa)

E não nos deixes cair em tentação,
(a tentação é uma tentativa de nos fazer pecar, nos ajuda a não cair nesta armadilha)

 mas livra-nos do mal,
(só o Senhor tem o poder para vencer o mal e que ele não nos domine)

 porque teu é o Reino, o poder e a glória para sempre.
(o Senhor é soberano sobre tudo e todos por toda a eternidade)

Amém.”
(que tudo isto seja verdade em nós)

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Seguidor de Jesus Cristo desde 1991; marido da Carol Lourenço desde 2010 e pai da Clara desde 2016; nascido em Santo André-SP desde 1982 e morando em Campinas desde 2003. Formado em administração, teologia e pós graduado em exposição bíblica. Coordenador da Seara Urbana ONG de recuperação de moradores de rua desde 2006; Pastor na IBBG, da REDE (IBBG Jovem) e do HELP (Ação Social); Professor na Faculdade Teológica Betesda nas áreas de teologia, missiologia e eclesiologia; Professor de missões urbanas e discipulado na JOCUM; Membro da FTL-Fraternidade Teológica Latino Americana.