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A Bíblia: nosso livro de fé e prática! Será mesmo?

Dia 31 de outubro se celebra 500 anos de Reforma Protestante e um dos lemas desta Reforma é Sola Scriptura (Somente as Escrituras). Este é um lema que expressa a compreensão protestante que a autoridade máxima em termos de vida e fé está nas Escrituras e não na tradição da igreja e nem em outra fonte. Os cristãos evangélicos pertencentes as igrejas históricas têm como doutrina que a Bíblia é o livro genuíno e legítimo que fundamenta a fé e a prática. Mas será que isso procede mesmo? Será que essa doutrina supera o mero discurso da boca dos cristãos e desemboca numa prática bíblica? Vamos pensar sobre isso?

Será que a autoridade máxima em nossa vida é a Palavra de Deus ou nosso coração enganoso? Quando nos sentimos magoados e feridos, nós interpretamos a vida pelas lentes da mágoa ou abrimos nossas Bíblias e procuramos saber o que ela fala sobre isso? Quando alguém pisa em nosso calo e faz algo que nos entristece, nós carregamos este ferimento ou praticamos o ato bíblico do perdão? Será que vivemos a vida e participamos das coisas esperando ser servidos e sempre beneficiados e agradados ou preferimos seguir o princípio bíblico que é “melhor dar do que receber” e é mais cristão servir do que ser servido?

Quando se trata de nossa relação com o dinheiro nós gastamos este suado dim-dim só a com a gente mesmo e nossa família ou obedecemos o mandamento bíblico da generosidade e da fidelidade na contribuição financeira com o Reino? Quando o sofrimento nos atinge nós ficamos maldizendo a Deus e a vida ou praticamos o princípio bíblico da resistência e da perseverança do “em tudo dai graças”?

Em relação as palavras que saem da nossa boca, nós gostamos de usar as palavras para falar, criticar e ridicularizar as pessoas ou trilhamos o caminho bíblico de restringir nossas palavras àquelas que são abençoadoras. Quando se trata do amor, nós amamos só aqueles que são amáveis como nossos filhos e amigos e parentes ou praticamos o mandamento bíblico de amar o nosso próximo mesmo que este próximo não faça parte de nosso clubinho?

Quando se trata da nossa rotina, nós vivemos a vida e gastamos o dia correndo de um lado pra outro, assoberbados com o trabalho e depois nos despejamos em momentos de lazer para nosso relaxamento como ficar se alimentando da TV todo santo dia ou compreendemos e vivemos a verdade bíblica de remir o tempo porque os dias são maus? Quando olhamos para a realidade complexa e triste de nosso país, nós permitimos que ideologias que propagam ódio e mentira e atos de desumanidade dominem nossa mente ou seguimos a cosmovisão cristã-bíblica que Deus deve ser glorificado em todas as coisas e que o humano tem dignidade intrínseca por ser criado segundo a imagem de Deus mesmo que este humano esteja vivendo uma vida errônea?

Jesus Cristo é o Senhor da nossa vida ou temos nos prostrado diante de ídolos? Valorizamos de forma superlativa a tão grande salvação manifestada em Jesus e consideramos suas implicações ? Permitimos que o Evangelho nos impulsione a vivermos o Soli Deo Gloria? A graça de Deus é amada e valorizada por nós no cotidiano em atos de amor, generosidade, misericórdia e santidade ou temos pisado nesta graça com uma vida distante dos padrões de Deus? Compreendemos a igreja como povo de Deus, amado, comprado  e redimido pelo sangue de Jesus o qual existe para vivermos o cristianismo na prática sendo treinados para uma vida de excelência ou tratamos a igreja como mero apêndice da nossa existência, sem muito valor e importância? Agimos com bondade diante do que nos machucam? Não cobramos juros exacerbados e desumanos quando emprestamos dinheiro? Lembramos misericordiosamente dos doentes, dos presos? Sabemos perdoar?  Fugimos das confusões? Somos exemplos? Somos gentis? Somos honestos em tudo? Lutamos pelo que é bom, justo, belo e digno? Investimos nossa vida no Reino de forma engajada? Somos pessoas de oração?

Veja: existe uma grande diferença entre dizer que a Bíblia é o livro que representa a regra de nossa fé e prática e viver isso na real de maneira genuína. Falar é sempre mais fácil do que fazer. Deus nos ajude a oferecermos nossos corpos como um sacrifício vivo a Ele e que nossa vida seja um culto verdadeiro ao Senhor Jesus Cristo. Que através de nossas atitudes as pessoas possam ver que cremos de verdade no Deus revelado nas Escrituras. Amém!

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Laurencie Salles
Sou uma simples pessoa que encontrou a vida por meio da graça de Deus, e esta magnífica graça tem um nome: Jesus Cristo. A partir de Jesus de Nazaré minha identidade é construída, meus papéis de marido, pai e filho, professor e cidadão são exercidos, e minha vocação pastoral é cumprida. Sou alguém amado graciosamente por Jesus e fora Dele não existe nada em mim que tenha valor ou sentido.
Minha formação é na área de Matemática, pela UFSCar (graduação e mestrado) e em Teologia, pela Faculdade Batista de Campinas, convalidado pelo Centro Universitário Clarentiano, com especialização pela FLAM/UNIFIL e especialização em Ética e cidadania pela USP/UNIVESP.

Consciência x Carência

“Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente […] Pois pela graça que me foi dada digo a todos vocês: ninguém tenha de si mesmo um conceito mais elevado do que deve ter; mas, pelo contrário, tenha um conceito equilibrado, de acordo com a medida da fé que Deus lhe concedeu”. (Romanos 12:2a – 3)

Não precisamos ser estudiosos de Sigmund Freud e nem aceitarmos todos seus ensinamentos para perceber que os seres humanos são cheios de carências, cheios de necessidades afetivas. A carência se dá devido a história e  construção de vida de cada um. Uns são carentes porque não receberam na sua infância o carinho devido, foram de certa forma cuidados e protegidos mas não de forma adequada a propiciar um crescimento sadio, com maturidade e inteligência emocional; outros são carentes porque receberam carinho em demasia, exageradamente, nunca ouviram um ‘não’ na vida, nunca foram confrontados em seus erros, daí criaram uma depência emocional, sempre na expectativa que as pessoas façam algo para lhe agradar e lhe suprir os desejos. Existem certamente outros fatores também mas que não serão analisados aqui.

Quando uma pessoa cheia de carência entrega sua vida ao Senhor Jesus e se junta a uma igreja para caminhar com o povo de Deus pela vida é natural que ela traga consigo seu universo de carências e dependências emocionais. Se essas necessidades emocionais não são devidamente tratadas, tal pessoa projeta sua dependência emocional no próprio Deus e também nas pessoas da comunidade e de sua família. Assim sendo, essa pessoinha vai vivendo a sua vida, sempre na expectativa de que Deus exista para lhe suprir suas necessidades e as pessoas idem. Ela sempre faz as coisas, “serve”, desde que seja do seu jeito, e desde que seja feito de forma a lhe trazer algum proveito ou mesmo para que ela  se sinta importante e valorizada.

Sua fé, portanto, é utilizada no intuito egocêntrico de lhe proporcionar felicidade o tempo todo. Deus, o Senhor Deus, Criador dos céus e da terra, deve se curvar a fim de atender suas exigências  e encher de mimos aquele “servo” e aquela “serva” que são movidos pelo crônica expectativa de serem agradados. Sua vivência de fé se traduz sempre num sentimento de ‘Deus para mim’ e nunca um ‘Deus através de mim’. De um ‘Deus que me abençoa’, e não um ‘Deus que me torna abençoador’, de um ‘Deus que me dá e me atende’, mas não de um ‘Deus que me exige dar e atender solidária e fraternalmente aos outros’. É um Deus que não reina soberano em mim, pois no caos do meus sentimentos e emoções e expectativas, Ele foi engolido por um ego, um ego que como um buraco negro, suga tudo para si. É óbvio ululante que isso só de dá na mente carente da pessoa e não na realidade da existência.

Esse tipo de atitude e postura é absolutamente degradante para a vida da igreja, visto que as pessoas fazem parte de uma comunidade pelos motivos errados e geralmente geram muitos problemas. Certamente a Bíblia não nos dá autoridade para olhar para tal comportamento e concluir que tal pessoa de fato não é salva e não pertence ao Senhor Jesus, definitivamente não podemos fazer isso, seria um ato arrogante, uma vez que é Deus, através de seus anjos, que separa o joio do trigo e só Ele. Além disso, seria um ato de juízo olhar para outro e suas atitudes e concluir que tal pessoa busca e serve a Deus com consciência ou por carência emocional. Tal análise deve ser feita por cada um no seu contato com a Palavra de Deus mediada pelo Espírito de Deus. Agora, o que podemos concluir é que uma pessoa tão cheia de carências, que é constantemente motivada por suas dependências emocionais não cresceu, não amadureceu, não se tornou adulta, pelo menos não na fé e no lidar com suas emoções.

O que a Bíblia nos ensina é que Deus quer que o sirvamos conscientes do que estamos fazendo e não porquê fomos engolidos pelas nossas carências afetivas. Ele quer que saibamos exatamente o porquê estamos fazendo o que estamos fazendo e porquê fazemos parte de uma comunidade, que é simplesmente, à luz de Jesus, na força do Evangelho, para servir de coração e não sermos servidos. Por isso que o Evangelho opera sua transformação na mente das pessoas para que elas possam ver a vida, ver Deus, ver a si mesmas e os outros, aqui e alhures, com outro olhar, com expectativas transformadas e tomadas pelo Espírito Santo de Deus.

Por isso que Paulo ensina a igreja de Roma que pela fé, por uma fé genuína e madura, os cristãos podem se compreender de maneira equilibrada, sem se superestimar ou subestimar. Eles podem ver a si mesmos exatamente como são e inclusive ver suas próprias feiuras e esqueletos escondidos no profundo do coração que vão desde mágoas, rancores, ódios, decepções, a expectativas frustradas e carências profundas.

Olhar para si mesmo com sinceridade, sendo auxiliado por todo potencial que vem da fé em Cristo, é passo fundamental para o desenvolvimento de uma inteligência emocional para que superemos, no âmbito das emoções e expectativas, tudo aquilo que possa nos impedir de “adultecer”.  É bonito demais ver pessoas firmemente servindo ao Reino de Deus com consciência e com convicção e não por carência sempre balançando e desanimando cada vez que se depara com um problema ou quando suas expectativas não são atentidas. Fazer parte de uma igreja não é em primeiro lugar para nos tornar felizes, mas para nos tornar maduros, firmes e fortes. Crescer dói, mas é o Caminho do discipulado, o Caminho de ser como o Mestre Jesus. Confiemos  que Deus vai graciosamente nos dar tudo o que precisarmos para servi-LO, adorá-LO e honrá-LO, mas que jamais Ele nos dará tudo o que desejarmos.

Que os corações carentes aprendam a confiar na suficiência da graça e que se tornem convictos e conscientes de todo amor que vem de Deus sobre nós e que nos chama para participarmos da sua obra no mundo com alegria superlativa e desinteressada. Amém.

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Laurencie Salles
Sou uma simples pessoa que encontrou a vida por meio da graça de Deus, e esta magnífica graça tem um nome: Jesus Cristo. A partir de Jesus de Nazaré minha identidade é construída, meus papéis de marido, pai e filho, professor e cidadão são exercidos, e minha vocação pastoral é cumprida. Sou alguém amado graciosamente por Jesus e fora Dele não existe nada em mim que tenha valor ou sentido.
Minha formação é na área de Matemática, pela UFSCar (graduação e mestrado) e em Teologia, pela Faculdade Batista de Campinas, convalidado pelo Centro Universitário Clarentiano, com especialização pela FLAM/UNIFIL e especialização em Ética e cidadania pela USP/UNIVESP.

A começar em mim! Hipóteses sobre a ‘não-vinda’ do avivamento em nossas vidas

Ouvi, Senhor, a tua palavra, e temi; aviva, ó Senhor, a tua obra no meio dos anos, no meio dos anos faze-a conhecida! (Habacuque 3:2)

[…] e por onde quer que este rio passe, tudo viverá. […] Junto do rio, em ambas as margens, nascerá todo tipo de árvore que dá fruto comestível. A sua folha não murchará, nem o seu fruto faltará. Dará novos frutos nos seus meses, porque as suas águas saem do santuário. O seu fruto servirá de alimento, e a sua folha, de remédio. (Ezequiel 47.9b e 12)

Falar de avivamento é falar de um tempo em que o poder e a glória de Deus se manifestam tão fortemente na vida do Seu povo que ele é tomado por um desejo irresistível de buscar e conhecer ao Senhor com mais profundidade: servindo-O com toda intensidade, orando com paixão, pregando com ousadia, ajudando aos sofredores e esquecidos com amor generoso, vivendo uma vida de santidade!

O avivamento não é só a manifestação de um desejo de buscar a Deus com mais empenho, mas é a realização desse desejo, ele verdadeiramente se concretiza pela atuação de Deus no meio de seu povo. Na história cristã, tanto como na história de Israel os grandes avivamentos são marcantes, trazem transformações profundas, não só na vida do povo que busca a Deus, mas na vida de gente que rodeia este povo, é, enfim, um experiência espiritual indescritível.

Por que hoje, nós e muitas outras igrejas locais, não estão vivendo um tempo de avivamento? Diante de tantas demandas na sociedade, muitas delas espirituais, por que o avivamento não vem? Por que não se realiza? Minha primeira hipótese para responder isso é que nós não queremos. O avivamento quando vem provoca profundas mudanças no coração daqueles que dizem servir a Deus, ou seja, o avivamento nos impulsionaria para uma busca de santidade profunda em todas as dimensões de nossa vida e isso é extremamente desafiador e provocativo para nós. Nós temos preferido ficar num estado de conformismo e conforto.

Outra hipótese é que aquilo que está no coração de Deus não nos toca tão fortemente mais. Jesus em seus ensinamento deixou evidente que aquilo que alegra o coração de Deus é ver pessoas se achegando e se voltando para Ele com o coração quebrantado e contrito, como bem exemplificado nas parábolas do filho pródigo, da ovelha perdida e da dracma perdida. Além disso, segundo os profetas, Deus quer que a justiça corra como um rio e que sua glória alcance toda a Terra. Por conta de perdemos muito tempo conosco mesmos, buscando somente nos entreter e fazermos coisas, em todo tempo, que nos fazem sentir bem, nós nos esquecemos daquilo que está no coração de Deus. Até buscamos a Deus de vez em quando, mas a sua vontade não tem o poder de nos mover mais. Não choramos por aqueles que estão se perdendo, não nos importamos com intensidade nem com nossos filhos e parentes que não andam com Jesus, criamos até justificativas para que eles vivam assim; o sofrimento e as injustiças do mundo não nos incomodam, estamos passivamente indiferentes.

Outra hipótese é que a fé foi pervertida de alguma forma entre nós. Não falo de doutrinas especificamente. Mas me refiro ao fato de que nós criamos um conceito de fé que nos permite ficar, mesmo com tanto conhecimento doutrinário, estagnados num estado servil ao status quo. Nós criamos um conceito de fé cristã que nos permite participar de uma igreja ativamente, sem colocar Deus no centro da vida e sem buscar o seu Reino em primeiro lugar. Nós criamos um conceito de fé que nos permite ter a segurança da salvação, mesmo que nada que diga respeito ao Senhor nos mova pelos caminhos da existência. Qualquer leitura rápida da Bíblia revelará que esse tipo de “fé” não tem fundamento que é somente fruto de um coração egocêntrico e distante de Deus. Pois a fé verdadeira em Cristo é suficiente para salvar o pecador, mas esta fé que salva nunca vem sozinha, ela vem carregada de boas obras e frutos como aquela árvore plantada junto as fontes conforme o Salmo 1.3.

É por isso que nossas igrejas sofrem e sangram, e em muitos casos, caminham muito aquém de suas possibilidades. Isso é triste de ver. Um avivamento entre nós e outras igrejas traria cura para esses males. Mas é necessário que ele comece dentro de cada um de nós, é necessário que nós nos ajoelhemos diante de Deus, peçamos perdão pelos nossos pecados e indiferença e clamemos para que Ele derrame seu avivamento transformador em nós. Como na visão do profeta Ezequiel que viu águas que trazem cura e mudanças profundas. Essas águas são águas de avivamento. Clamemos para que o Senhor nos capacite a amar as pessoas, a perdoar os que nos magoaram, a lutar pelo Evangelho a começar pela nossa casa, para que desejemos ver mais pessoas se convertendo a Cristo Jesus e que atuemos solidariamente entre aqueles que precisam de ajuda.

Eu tenho orado por isso! Gostaria de lhe desafiar a se juntar a mim para que unidos busquemos ao Senhor dizendo: aviva, meu Deus, a tua obra entre nós, a fim de que o trabalho de nossas mãos prospere (Salmo 90.17) e que frutos que permaneçam (João 15.17) sejam produzidos e que Teu coração Senhor se alegre por ver a tua vontade se realizando entre nós. A começar em mim quebra corações…

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Laurencie Salles
Sou uma simples pessoa que encontrou a vida por meio da graça de Deus, e esta magnífica graça tem um nome: Jesus Cristo. A partir de Jesus de Nazaré minha identidade é construída, meus papéis de marido, pai e filho, professor e cidadão são exercidos, e minha vocação pastoral é cumprida. Sou alguém amado graciosamente por Jesus e fora Dele não existe nada em mim que tenha valor ou sentido.
Minha formação é na área de Matemática, pela UFSCar (graduação e mestrado) e em Teologia, pela Faculdade Batista de Campinas, convalidado pelo Centro Universitário Clarentiano, com especialização pela FLAM/UNIFIL e especialização em Ética e cidadania pela USP/UNIVESP.