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Mergulhando em Deus para poder mergulhar em si mesmo

“Por que vês o cisco no olho de teu irmão e não reparas na trave que está no teu próprio olho? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o cisco do teu olho, quando tens uma trave no seu? Hipócrita! Tira primeiro a trave do seu olho; e então enxergarás bem para tirar o cisco do olho de teu irmão”. (Mateus 7.3 a 5)

 “Levai os fardos uns dos outros e assim estareis cumprindo a lei de Cristo” (Gálatas 6.2)

 Existem duas posturas que um ser humano pode assumir na jornada existencial: o auto-engano e autoconsciência. O auto-engano é aquela atitude teimosa e insistente tomada por alguns que se recusam a olhar para si mesmos com sinceridade, enxergar as falhas, os problemas, os vícios, as maldades que estão no fundo do próprio coração, as mazelas comportamentais da própria vida. Já a autoconsciência é aquela honestidade consigo mesmo e com os outros também, inclusive com Deus, de aceitar o que se é, com toda integridade e sinceridade, seja bom ou seja mau e assumir uma luta constante para ser melhor para Deus, para si e para os outros.

Em geral, aquele que se auto-engana tende a ser muito duro e rígido com os outros. Isso é bem visível nos religiosos que foram pedra de tropeço no caminho de Jesus Cristo quando ele passou por aqui. Justamente por serem religiosos e cumprirem uma lista gigantesca de tradições, rituais e formalidades tais homens se gabavam de si mesmos e desprezavam os que não eram da sua corja. Não só desprezavam, mas também julgavam e condenavam o tempo todo, tendo um prazer estranho de punir e ver o sofrimento alheio. Aquele que se auto-engana não tem espelho em casa, ou seja, não se enxerga e justamente por não se enxergar minoriza ou desconsidera suas próprias falhas e faltas e se concentra, doentiamente, nas falhas e faltas dos outros. Insiste em tirar o cisco do olho do outro, mas não percebe que há uma trave no seu. Jesus dá um nome para isso: hipocrisia, isto é, o ato de fingir ser algo que não se é, assumir uma atitude de ator, e viver a vida como se esta fosse um palco.

Já o que tem autoconsciência se vê, enxerga-se com sinceridade e por se ver, acaba olhando para os outros com mais tolerância. Creio que a autoconsciência não é fruto de um encontro consigo mesmo ou de sessões terapêuticas de psicologia profunda, mas é fruto de um encontro existencial com Deus. Só quem se encontra com Deus pode dizer: “miserável homem que sou, quem me livrará do corpo desta morte?” (Romanos 7.24). Ou dizer ainda: “ai de mim! Estou perdido; porque sou homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de impuros lábios” (Isaías 6.5). Perceba que o profeta primeiramente olha para si, só depois atenta para o povo. Só quem se encontra verdadeiramente com Jesus pode afirmar com toda a convicção do seu coração: “afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador” (Lucas 5.8). Só quem se abriu honestamente para Deus e disse: “pequei contra Ti ”, (Salmo 51.4) e “eu nasci em iniquidade” (Salmo 51.5) pode também orar na simplicidade de ser o que se é e no anelo por ser mais para Ele: “ó Deus, cria em mim um coração puro e renova em mim um espírito inabalável” (Salmo 51.10). Certamente, a autoconsciência é um dos melhores remédios contra a arrogância.

Infelizmente a religião, em geral, se tornou uma fonte de auto-engano, pois produz nas pessoas uma falsa sensação de virtude e segurança. Por isso que em muitos casos os religiosos adoram falar das suas proezas e do seu bom comportamento enquanto também falam mal do comportamento de outrem. Nada mais anticristão. A verdade é que por alguém ser religioso não significa necessariamente que tenha tido um encontro com Deus e Cristo. Pois um encontro com o divino deveria produzir humildade e não orgulho, um coração de carne e não de pedra, um olhar generoso sobre o outro e não um olhar cheio de rancor impiedoso e intolerante.

Jesus não nega que haja um cisco no olho alheio, ele só ensina que para poder ajudar em verdade os outros é preciso primeiramente olhar com sinceridade para si mesmo, reconhecer as próprias faltas e os próprios descaminhos, ou seja, “tirar a trave do próprio olho”, para assim estender a mão, ajudar e se dispor a ser útil “para tirar o cisco do olho do outro”.

Paulo escreve aos Gálatas: “se alguém for surpreendido em algum pecado, vós, que sois espirituais, deveis restaurar essa pessoa com espírito de humildade. E cuida de ti mesmo, para que não sejas tentado também” (Gálatas 6.1). O pecado é uma realidade em nossas vidas, em nossas igrejas e temos que aprender a lidar com ele. O julgamento não é o jeito bíblico de lutar contra esse problema. O jeito bíblico é: buscar ajuda em Deus que é gracioso e rico em perdão, olhar para si com integridade para não se achar bom demais, e assim, com espírito de humildade, restaurar aquele que caiu.

Concluo dizendo que creio plenamente que a igreja do Senhor é uma comunidade de restauração. Ao longo da história da igreja cristã muitas pessoas não tiveram a oportunidade de serem restauradas pois foram desprezadas e excluídas. Pelo amor de Deus, chega disso! Vamos com amor e graça levar as cargas uns dos outros, sem julgamentos, sem condenações. Vamos deixar isso para quem entende do assunto: Deus que é o justo juiz. No caminho da graça a autoconsciência é uma necessidade básica. Busque isso em Deus. Em Cristo, tenho a liberdade e a coragem para dizer: cuide genuinamente de si, para poder cuidar verdadeira e desinteressadamente dos outros também. Kyrie Eleisson.

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Laurencie Salles
Sou uma simples pessoa que encontrou a vida por meio da graça de Deus, e esta magnífica graça tem um nome: Jesus Cristo. A partir de Jesus de Nazaré minha identidade é construída, meus papéis de marido, pai e filho, professor e cidadão são exercidos, e minha vocação pastoral é cumprida. Sou alguém amado graciosamente por Jesus e fora Dele não existe nada em mim que tenha valor ou sentido.
Minha formação é na área de Matemática, pela UFSCar (graduação e mestrado) e em Teologia, pela Faculdade Batista de Campinas, convalidado pelo Centro Universitário Clarentiano, com especialização pela FLAM/UNIFIL e especialização em Ética e cidadania pela USP/UNIVESP.

Eclesia Semper Reformanda

“Estou certo disso: aquele que começou a boa obra em vós irá aperfeiçoá-la até o dia de Cristo Jesus”. (Filipenses 1.6)

Igreja sempre em reforma era um dos lemas que surgiram da Reforma Protestante iniciada por Lutero, Calvino, Zwinglio e outros. Na mente dos reformadores a igreja deveria estar sempre se reformando a fim de cumprir a vontade de Deus e concomitantemente responder as inquietações e questões dos tempos, de tal modo a apresentar o Evangelho de uma maneira compreensível e acessível ao povo. Tanto que foi Lutero que lutou para que a Bíblia estivesse nas mãos do povo. Mas o que era pra ser um lema a ser seguido na prática, acabou ficando cristalizado na teoria. E as igrejas, grande parte delas, pelo menos, tornaram-se fechadas as novas questões apresentadas pela sociedade. Muitas igrejas, assim, querem responder perguntas que ninguém mais faz, apresentam o Evangelho de uma maneira tão caduca e descontextualizada que a rejeição por parte dos que ouvem é algo absolutamente certa. Será que as coisas devem ser assim?

Um fato: Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente como diz o autor da carta aos Hebreus. O Evangelho de Cristo também é o mesmo, ele continua a ser o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Rm 1.16). Contudo, existem coisas que precisam estar em constante mudança; por exemplo, os métodos, os recursos, a linguagem, a estrutura, a instituição. A ideia não é absorver valores mundanos, diametralmente opostos aos ensinamentos das Escrituras, não mesmo, a ideia é se tornar compreensível, acessível, transparente, contagiante, atraente sem torcer os valores do Evangelho.

O caminho de Jesus Cristo não é fácil, não é um mar de rosas, afinal, é um caminho de renúncia, de negação de si, e doação a Deus e ao próximo. É um caminho de cruz. Mas aí está a beleza escandalosa e divina do Evangelho. Pois a cruz é tanto sofrimento quanto glória. E ela é nossa vocação e nossa alegria. Só quem ama a Cristo pode entender isso.

Diante disso, a igreja, comunidade do Senhor, tem a responsabilidade de proclamar o Evangelho na beleza que ele tem, para isso, deve vencer a institucionalização, o moralismo, o tradicionalismo, o formalismo, o clericalismo e muitos outros “ismos”. A igreja tem que estar sempre se reformando, para não ser engolida pela irrelevância. Tem que mostrar na sua vivência que o Evangelho é uma mensagem para o nosso tempo. Para hoje. Para imediatamente agora. Deve transmitir na sua rotina a alegria de ser de Jesus Cristo, a paz e esperança de ser gente boa de Deus. Infelizmente, existem igrejas que tornam o Evangelho opaco e triste, sem luz, sem vida.

Será que nossa vida pessoal e nossa vivência eclesiástica demonstra a beleza e o poder do Evangelho? Se a resposta for não, busque uma transformação já. O Evangelho é um convite constante à reforma. Pense nisso!

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Laurencie Salles
Sou uma simples pessoa que encontrou a vida por meio da graça de Deus, e esta magnífica graça tem um nome: Jesus Cristo. A partir de Jesus de Nazaré minha identidade é construída, meus papéis de marido, pai e filho, professor e cidadão são exercidos, e minha vocação pastoral é cumprida. Sou alguém amado graciosamente por Jesus e fora Dele não existe nada em mim que tenha valor ou sentido.
Minha formação é na área de Matemática, pela UFSCar (graduação e mestrado) e em Teologia, pela Faculdade Batista de Campinas, convalidado pelo Centro Universitário Clarentiano, com especialização pela FLAM/UNIFIL e especialização em Ética e cidadania pela USP/UNIVESP.