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Chamados para fora

Alguns teólogos defendem a ideia de que o significado da palavra Εκκλησία (Ekklesia) que na bíblia significa Igreja é interpretada literalmente como chamados para fora. Outros interpretam como assembleia e/ou reunião e ainda tem interpretes que entendem que têm os dois sentidos. Independente da interpretação exegeticamente correta, a realidade é que a Igreja tem sim o sentido de ser chamada para fora, pelo menos este conceito é o que os ensinos da Bíblia nos mostram o que deveria ser na prática uma Igreja.

 “A igreja é a única sociedade cooperativa do mundo, que existe em benefício dos que não são membros.” – William Temple

Quando digo que a igreja é chamada para fora, entendo que isto tem vários sentidos. Um dos sentidos que isto pode ter é que aquelas pessoas que entendem que são Igreja, quando estão cuidando de si mesmas, da sua espiritualidade, do seu relacionamento com Deus, estão fazendo por serem Cristãos e não por serem Igreja. O Cristão vai ser Igreja quando quem ela é diante de Deus extravasa para o outro, para o seu próximo. A pessoa recebe o amor de Deus na sua vida e com isso está apta para amar as outras, recebe a misericórdia do Pai e pode então ser misericordiosa com outros, ou seja, vive a plenitude da Igreja na sua vida quando é para os outros e não para si mesma. Só se é Igreja quando se é fora de si mesmo.

Dentro deste sentido, podemos pensar nas igrejas locais que também só serão Igreja quando forem para que não é daquela instituição. Igrejas locais que vivem somente de programações voltadas para os seus membros, que investem muitos ou todos os recursos única e exclusivamente nas suas estruturas e instituição, correm o sério risco de se perderem no caminho de ser Igreja. Mesmo aquelas igrejas locais aonde os membros se respeitam, se amam, se cuidam, repartem o que tem entre si, também estão fadados ao fracasso na missão de ser Igreja. Isto pode ser chamado de um grupo de comunhão, de amor, de fraternidade, mas se estas comunidades vivem somente para dentro de si, não podem ser chamadas de Igreja.

Mas as igrejas locais que cuidam das suas estruturas, dos seus membros, investem na sua instituição visando àqueles que ainda não são Cristãos e/ou não são membros de suas comunidades locais, estarão no caminho certo de serem Igreja. Obviamente que uma igreja que não cuida dos seus membros, das suas estruturas e da sua instituição, também terá dificuldade de cuidar daqueles que não são participantes desta comunidade. A questão não é deixar de cuidar dos seus para cuidar dos outros, a questão é de fazer as duas coisas, entendendo que cuidar de si mesma é Cristão, mas cuidar dos outros – não deixa de ser Cristão – caracteriza uma Igreja legitimamente bíblica.

Uma igreja local que cuida de si precisa entender que este cuidado além de ser o amor entre os seus, também é um testemunho para os de fora. A Igreja deve ser o modelo do mestre que a comprou com seu sangue, Jesus. Uma igreja local que se preocupa com quem não é de igreja ou não é Cristão, é imitadora de Cristo que deu a sua vida por aqueles que não estavam com Deus.

Uma igreja local precisa ter pessoas que são Igreja verdadeira do salvador que proclama a salvação para os de fora, que cuida das pessoas de fora, que ama as pessoas de fora e faz isto de forma honesta e com o poder divino. Que não tem a motivação única de trazer pessoas para sua instituição, mas de amá-las confiando no poder do amor e crendo no Deus que ama a todos e que tem o desejo maior de constituir uma família para si que sempre vai se importar com outros, porque este é o chamado da igreja, chamados para fora.

“A igreja só é igreja quando o é para os de fora. ” – Dietrich Bonhoeffer

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Mateus Feliciano
Seguidor de Jesus Cristo desde 1991; marido da Carol Lourenço desde 2010 e pai da Clara desde 2016; nascido em Santo André-SP desde 1982 e morando em Campinas desde 2003. Formado em administração, teologia e pós graduado em exposição bíblica. Coordenador da Seara Urbana ONG de recuperação de moradores de rua desde 2006; Pastor na IBBG, da REDE (IBBG Jovem) e do HELP (Ação Social); Professor na Faculdade Teológica Betesda nas áreas de teologia, missiologia e eclesiologia; Professor de missões urbanas e discipulado na JOCUM; Membro da FTL-Fraternidade Teológica Latino Americana.

Ser Igreja: um aprendizado constante

Mas fostes resgatados pelo precioso sangue, como de um cordeiro sem defeito e sem mancha, o sangue de Cristo, conhecido já antes da fundação do mundo, mas manifestado no fim dos tempos em nosso favor”.  (I Pedro 1.19 e 20)

 Através da Bíblia descobrimos que Deus amou a cada um de nós, em Cristo, muito antes da fundação do mundo e nosso coração se enche de alegria e paz por poder participar da graça desse amor. Descobrimos pela Palavra também que Deus quer que todos sejam salvos, isso significa que é do profundo interesse de Deus que cada pessoa deste mundo se renda ao senhorio do Senhor Jesus e usufrua a vida plena que vem do céu que começa no aqui e agora da vida e invadi a eternidade. Isso mostra que Deus não quer que somente saibamos do seu grande amor manifestado em Cristo, Ele quer
que vivenciemos e desfrutemos de tal amor na estrada da vida em todos os momentos da jornada existencial. Dentro desse contexto que surge o conceito bíblico de igreja.

Embora muitos nos dias de hoje queiram viver uma espiritualidade unilateral com Deus, ou seja, só na dimensão vertical, a Bíblia mostra claramente que o propósito de Deus é que vivamos em comunhão com Ele e uns com os outros, que amemos a Ele e amemos uns aos outros, que recebamos do seu gracioso perdão e aprendamos a perdoar uns aos outros graciosamente também (dimensão horizontal). E isso tem tudo a ver com a igreja. Pois aqueles que foram alcançados por tão grande amor querem se juntar fraternalmente a outros que também foram alcançados por essa dádiva. Dentro dessa lógica, a igreja fica, portanto, assim definida: “o encontro com Deus e uns com os outros em torno do Nome de Jesus e em
acordo de fé com o Evangelho – o que faz de todo encontro humano em fé, um encontro-igreja, onde Jesus promete estar presente mesmo que sejam apenas dois ou três reunidos em Seu Nome! E só se reúnem em Seu Nome por se saberem a Ele unidos”
(Caio Fabio).

Assim sendo, o grande amor de Deus, existente desde os tempos eternos, mas manifestado supremamente na encarnação-humanidade de Cristo, se traduz hoje em relacionamentos sadios e graciosos na comunidade chamada igreja e em gestos de comprometimento humano para além das fronteiras da fé, se é que fé tem fronteiras…

A igreja foi criada pelo Pai para ser uma testemunha viva do seu grande amor pelas pessoas (I Pedro 2.9). Ser exemplo claro da sua graça, misericórdia e perdão. Para dizer a quem quiser ouvir: Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo e nos deu gentilmente o ministério e a mensagem da reconciliação (II Coríntios 5.19).

Uma igreja que não tenha um compromisso absoluto de abençoar as pessoas, que não gaste seu tempo, dinheiro, atenção, dons na construção de relacionamentos saudáveis que refletem o amor da
graça de Jesus não pode ser chamada igreja, pelo menos, não de acordo com os princípios do NT. Pois compromisso com Deus implica necessariamente em amor incondicional pelas pessoas e relacionamentos de graça e paz.

Esse é grande mistério da graça: o amor pleno e eterno de Deus se transforma em atitudes cotidianas e rotineiras da comunidade chamada igreja. Atitudes essas que demonstram a vida de Deus
enraizada em nossa vida. Ser uma instituição religiosa é fácil, fazer parte de uma denominação é fácil, ser uma organização marcada pela administração/regras/burocracia/mercado é fácil. Difícil e desafiador é ser igreja segundo a graça de Jesus: Só um encontro fraterno de pessoas, que se juntam em torno do Nome de Cristo, que querem viver e respirar o Evangelho, que querem viver da graça e pela graça e anseiam demonstrar graça e desejam servir as pessoas para a glória de Deus. O que passa disso é invencionice humana.

Creio piamente que o Deus de toda graça quer iluminar a mente e o coração dos cristãos a fim de que a igreja seja verdadeiramente uma comunidade de discípulos, uma comunidade de cuidado, uma
comunidade de cura, uma comunidade de serviço, uma comunidade fraterna, ou seja, formada de pessoas que amam a Jesus e não se cansam de imitá-lo. Por causa dele, o caminho da vida que é inegavelmente um caminho de graça, também é um caminho de aprendizado constante. Que possamos aprender a viver como Jesus. Amém

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Laurencie Salles
Sou uma simples pessoa que encontrou a vida por meio da graça de Deus, e esta magnífica graça tem um nome: Jesus Cristo. A partir de Jesus de Nazaré minha identidade é construída, meus papéis de marido, pai e filho, professor e cidadão são exercidos, e minha vocação pastoral é cumprida. Sou alguém amado graciosamente por Jesus e fora Dele não existe nada em mim que tenha valor ou sentido.
Minha formação é na área de Matemática, pela UFSCar (graduação e mestrado) e em Teologia, pela Faculdade Batista de Campinas, convalidado pelo Centro Universitário Clarentiano, com especialização pela FLAM/UNIFIL e especialização em Ética e cidadania pela USP/UNIVESP.

Igreja, corpo de amor

Muitos conceitos e ideias se tem sobre o que é Igreja. Até mesmo se escrevemos Igreja com I maiúsculo ou com i minúsculo como vai afirmar Isaltino Gomes Coelho Filho em sua apostila de Teologia Sistemática. Entendo que Igreja com I é a Igreja que Jesus “enxerga”, ou seja, aquelas pessoas que são realmente convertidas ao aceitarem o sacrifício dele na cruz. Mas igreja com i são as igrejas locais, aquelas que erguem templos (ou não) e que os membros podem ser convertidos ou não. Mas, independente de que Igreja ou igreja que estamos falando ambas precisam assumir uma característica pelo menos, o amor.

As pessoas que entendem que são Igreja precisam assumir no seu cotidiano que o amor que Deus têm pelas pessoas é o exemplo maior para que seus filhos vivam este amor para com as pessoas também. Não este amor sentimental e ingênuo que se vê em algumas séries, livros e filmes, mas um amor de ação que age em favor daquele que se ama com todas as forças possíveis.

E aqueles que estão em uma igreja local também precisam aprender a construir uma comunidade que seja um local de amor. Amor em todas as direções possíveis: à Deus, ao próximo, à cidade e etc.

Quando Paulo afirma que em Romanos 12.5 e 1 Coríntios 12.27 que a Igreja é o corpo de Cristo, só é corpo se isto é feito em amor. Amor uns pelos outros e amor pelos os que ainda não são. A Igreja, que são pessoas, precisam viver em amor nos relacionamentos com a família, amigos, sociedade, igreja local e etc. E a igreja local, que têm pessoas
que são Igreja e pessoas que não são, precisa conviver com os seus membros e com aqueles que não são membros em uma vida de amor. No final das contas, neste sentido, não importa se é “I”greja ou “i”greja, todos precisam ser um corpo de amor.

Uma Igreja (ou igreja) que acredita em Deus precisa acreditar no amor, porque Deus é amor (1 João 4.8). E crer em Deus é mais do
que uma fé única e exclusivamente racional cognitiva, mas passa por uma experiência transcendental que transforma profundamente internamente qualquer ser humano. A Igreja que é o corpo de amor e que passou por esta experiência de fé e agora vive por esta, têm que passar por esta experiência de amor. Uma transformação transcendental que impele à pessoa a amar de forma profunda um
outro ser humano e lutar pela dignidade de vida do outro.

O amor ou a falta dele precisa ser um termômetro e parâmetro para a Igreja e igreja local para verificar se ela está nos caminhos certos que Deus têm para ela. Se a falta de amor impera, a Igreja precisa rever que trilha tem seguido, pois provavelmente não está seguindo este Deus que é amor.

Mas o que vemos mais nas igrejas locais é que o termômetro que mede esta jornada Cristã não é o amor. Em algumas, por exemplo, é mais a teologia do que o amor. Se a pessoa segue a doutrina da igreja e/ou da denominação, ela está no caminho certo e o amor não
é considerado uma característica válida. Para outras igrejas locais o parâmetro são as experiências espirituais. Se a pessoa fala em línguas, rodopia, cai e sente arrepio, então ela está no caminho certo e o amor não é considerado. E ainda outras igrejas medem pelos bens adquiridos e a esperança de dias melhores. Se conseguiram muitos carros, bens e até mesmo dinheiro, então estão no caminho
certo e não o amor.

A fé e esperança são importantes na caminhada Cristã de corpo de Cristo mas o apóstolo vai afirmar em 1 Coríntios 13.13 que destes três (fé, esperança e amor) o maior é o amor. Igreja é um corpo de fé e esperança, mas acima de tudo é e precisa ser um corpo de amor.

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