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RESSURREIÇÃO E VIDA

Quem pode explicar a ressurreição? Este talvez seja o um dos grandes erros de gente que acha que tudo na religião, ou mais precisamente no cristianismo, necessita de explicação. Já teve gente achando que a ressurreição é uma questão psicológica, interna de cada um, depende de quem crê, ou ainda que a ressurreição acontece todos os dias. Outra besteira é colocar a ressurreição apenas do ponto de vista físico: mostrar a impossibilidade de um corpo voltar a ter vida, o cérebro funcionar novamente, etc. A ressurreição não é um problema de estudo da psicologia, nem da medicina. A ressurreição é um problema religioso, teológico, e só a teologia é capaz de lidar com ela.

Isto porque a Bíblia não está preocupada com estas coisas. O milagre da ressurreição não foi o de Jesus voltar da morte física. Isto parece claro porque o próprio texto bíblico diz sobre outras pessoas que ressuscitaram, e não tiveram tanta importância como Jesus. Pode ser dito que os demais, em relação a Jesus, voltaram a morrer. Só que isso não é suficiente, porque seria o mesmo que colocar a ressurreição de Jesus ao lado das outras: igual, mas com um pouco a mais de qualidade. Isso é diminuir a ressurreição.

Ressurreição é outra coisa, e é mais do que um milagre. Seria necessário um esforço de sua parte na tentativa de compreender a expectativa gerada a partir do ministério de Jesus. Foi um ministério singular, resgatou o valor da vida, mostrou a precariedade do sistema religioso da época, a opressão e vida do pobre, a miséria social, econômica e moral. De repente, tudo acabou, Jesus morreu. Não poderia ter morrido, mas morreu. Poderia ter chamado anjos, mas não quis. Poderia ter dado um jeito para não sofrer tanto, ou morrer tanto, mas não fez, não quis, não mudou. Morreu e deixou-se morrer. Vivo poderia continuar a tratar da injustiça social, da fome, do pobre, e reformar a religião decadente. Poderia, mas não quis, morreu e morreu mesmo. Vivo seria um líder, poderia tomar o poder dos romanos, poderia promover uma “guerra santa”. Só que morreu, e morreu mesmo. Se a ressurreição fosse uma questão de dar vida a um corpo físico, Jesus voltaria para continuar a sua reforma social e política, e mostraria que o seu poder seria suficiente para vencer a própria morte.

Nada disso, Jesus ressuscitou e foi embora. Passou um tempo conversando com este ou aquele, grupo pequeno ou grande, e depois foi embora. Não fez mais nada de novo, não reassumiu o que havia deixado, não voltou só por voltar. Aliás, não voltou. Foi embora. Não tinha mais nada para fazer, tudo estava feito, completo. Não resolveu tudo, porque não viveu para resolver tudo. Também não ressuscitou para completar o que não tinha conseguido fazer antes da morte. Antes da morte, fizera tudo o que precisava ser feito, não tinha qualquer necessidade de voltar ao mundo “físico” para continuar nada. Só ressuscitou, e foi embora. Se tivesse continuado teria sido um testemunho e tanto, andando de novo em Jerusalém, depois que a cidade o vira caminhar com a cruz nas costas. Só que isso, por mais milagroso que pudesse ser, ainda seria reduzir o significado da ressurreição.

A ressurreição é mais do que isso. Mais que um milagre é a recriação de um novo princípio. Uma recriação que faz João reescrever o Gênesis: No princípio era o verbo… É a mesma coisa que: No princípio criou Deus os céus e a terra. É a vida de novo, mas uma vida diferente. Antes uma vida que vivia para a morte, agora uma vida que vive para vida. É como se fosse um superlativo de vida, algo sem fim, sem medo, sem destino trágico, sem a angústia do ter que morrer. É vida, simplesmente vida. Vida para além da vida, apenas vida e só vida. Depois da vida, vida que não tem morte. Por isso Jesus não teve o que fazer, apenas ir embora. Tudo estava completo, não porque havia um corpo, mas porque havia vida. A expressão registrada no Evangelho de João de que Jesus veio para termos vida, e vida abundante, deve ser compreendida neste sentido. João relata muitos sinais que Jesus fez, a começar por transformar a água em vinho. Nenhum outro Evangelho registrou tantos milagres, tantos sinais. A ressurreição não foi um sinal a mais, foi a instauração da vida, vida livre, afastando por completo a ameaça da morte.

A pergunta que se faz não é se a ressurreição seria possível ou não. A pergunta deveria ser: o que tanto de vida há na ressurreição? Esta tem como resposta a profundidade da vida. Não se sabe o que é vida, como não se sabe direito o que seja ressurreição. Só a impossibilidade da ressurreição leva ao mistério da vida sobre vida, ou graça sobre graça, como preferiu João. Não tem tamanho, nem ameaça, nem morte, apenas abundante. O que já era imenso, sem medita ou limite, chamado vida ficou ainda maior, ficou abundante. Só a ressurreição pode explicar isso.

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

PERDÃO: INGREDIENTES, DATA DE FABRICAÇÃO E PRAZO DE VALIDADE

Eu sei que você não gosta dessa conversa, mas perdão tem prazo de validade. Você prefere o setenta vezes sete, mas isso não se refere ao tempo, mas à quantidade. E se acontecer de novo, igualzinho, sem tirar nada, como fica? Não fica. Em termos de quantidade o perdão não tem limite. O negócio é munir-se de paciência, agüentar firme, burilar as emoções, cuidar dos sentimentos e perdoar – again, again, again.

O prazo de validade do perdão está no Sermão do Monte. Como sabemos, o Evangelho de Mateus foi escrito em época de perseguição, e quase tudo nele tem esse sentido, e tinha que começar com as bem-aventuranças: a felicidade acima da conta em tempo de morte. Ser bem-aventurado é a condição daquele que suporta todas as adversidades, é perseguido, enfrenta uma guerra, mas promove a paz, dedicando-se à defesa da fé com uma total pureza de coração, e o resultado é ver a Deus. Os bem-aventurados também são os mesmos que esperam a justiça perfeita e que não irá tardar; choram as suas dores, e já podem viver a plenitude da felicidade, porque serão pastoreados pessoalmente pelo Senhor. Ser humilde de espírito e manso de coração são os desafios em meio à tragédia da vida, mas o resultado é a bem-aventurança da conquista de um reino e a herança de uma nova terra. Observada por essa perspectiva, a perseguição é um privilégio de poucos e motivo de regozijo, especialmente se for absolutamente injusta, permeada de mentira: a injusta fica mais injusta, e a alegria fica mais alegre. O ser sal não seria outra coisa senão o viver a plena felicidade: beber e se lambuzar do tempo da bem-aventurança durante a travessia da plena turbulência e perseguição. Não adianta querer se esconder: todo discípulo verdadeiro é luz do mundo, vai ser visto e perseguido, as boas obras irão iluminar até quem os persegue, os quais ficarão se perguntando: qual o significado disso? Não é uma questão de fuga. Trata-se da natureza do próprio Evangelho que é assim e somente assim.

Quem não compreende a contradição entre a perseguição injusta, mais injusta que já poderia ter sido vista, em contraste com a dor mais doída de quem sofre sem precisar sofrer, e a alegria mais alegre de poder superar tudo isso, não entende as bem-aventuranças, talvez nem o Sermão do Monte.

Lindo, né? A matemática é simples:

o supra-sumo da perseguição sofrida,
o supra-sumo da dor vivida,
e o supra-sumo da alegria desfrutada.

A expressão não poderia ser outra: bem-aventurado tá de bom tamanho. Felicíssimo também seria, mas prefiro o bem-aventurado. Fica mais bonito, é uma palavra do meu imaginário sagrado, pura e santa. Símbolo religioso é símbolo religioso, não dá pra mudar, senão perde o brilho.

Pois é, perseguidos dessa maneira, a falta de convivência em amor sem dúvida fragmenta a comunidade e esta praticamente perde o sentido. Uma comunidade dividida volta-se “para dentro”, para resolver os seus problemas. Mateus está muito preocupado com esse assunto, e compara as divergências como caso de vida ou morte. Uns matam tirando a vida, outros mediante a falta de perdão. O perdão não é uma questão de opção, mas necessidade de sobrevivência. Mateus é bastante claro: tente resolver o problema, caminhe com o ofensor, mas resolva logo, enquanto está no trajeto, isto é, enquanto for possível mudar a situação. De que adianta resolver algum problema de relacionamento depois de 10, 15 ou 20 anos? A pessoa ofendida já não poderá ser restaurada, foi marginalizada pela comunidade, não teve a oportunidade de rever os seus conceitos, o tempo passou, o cenário mudou, a vida mudou, a história é outra, e o perdão vira apenas um problema de consciência. Não serve pra nada! Desculpe, estou sendo exagerado. Vamos dizer que serve pra pouca coisa. Pouquíssima! Quase nada, ou nada – pronto, voltei ao ponto de partida, não vale nada mesmo.

A falta de perdão sempre ameaça a comunidade, do mesmo modo como a violência à vida. A sobrevivência da igreja não está no culto ou na celebração, mas no perdão. O fator principal de testemunho não está no discurso de amor, mas no amor aplicado às pessoas. O trabalho mais importante na vida cristã é aprender a amar, e não tem jeito de ser diferente.

Depois das bem-aventuranças, do sal da terra e da luz do mundo, o Sermão do Monte traz a informação da verdadeira lei de Deus, algo parecido com isto: se você quer ser justo, justo, mas justo mesmo, mais justo que qualquer religioso justo, comece com o perdão, uma questão de vida e ou de morte. A vida vive da vida assim como a comunidade vive do perdão. É isso, ou isso mesmo.

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

CIMENTO COM CANETA

Vez por outra sinto saudades dos grandes corais. Não, não estou falando de biologia marinha, porque em tempo de cuidado do meio ambiente, só restou esse. O outro, aquele que havia nas igrejas, está cada vez mais raro. A ausência deles, porém, não é de todo ruim. Os corais faziam os participantes dos cultos se tornarem meros espectadores. A popularização da música empobreceu as letras (sou burguês, tenho que pensar assim!), mas facilitou o canto de rimas populares e músicas com arranjos, embora duvidosos, tornando o cantar uma coisa do povo. Discute-se se isso é bom ou ruim, e acho que isso funciona com tudo o que diz respeito à vida, lado bom, lado ruim, e tantos outros lados intermediários entre um e outro que não se podem contar, pois a vida não é quadrada, nem cúbica, sequer tem forma.

Dias desses, satisfiz a minha saudade. Lá estava um grupo de pessoas formado por donas de casa, pedreiros, funcionários públicos, gerentes, fotógrafos e não sei mais quem. São pessoas que durante a semana assentam tijolos, lidam com alunos, passam as longas tardes enfrentando a jornada de uma faxina, ou a burocracia de um sistema público emperrado e que esbarram na boa, ou má vontade, desse ou daquele, mas no fim de semana se tornam cantores. Arrumam tempo, não sei de onde, e passam horas tentando o afastamento da aridez da vida para sorver um pouco da sensibilidade musical. Tá certo que é uma sensibilidade misturada com cimento, sabão, hora do almoço, crianças correndo pelo pátio, sistema político e suas contradições. Não é uma sensibilidade pura, vem na esteira do serviço bruto, mãos grossas, vida grossa, de um mundo que a gente não compreende, cheio de filhos sem pais, adolescentes viciados, gente sofrida que enfrenta essa vida e no fim de semana vira cantor e faz poesia. Bebe a letra e flutua ao som de um piano que pouca gente tem em casa, instrumento fino, clássico, para privilegiados. Como se trata de gente que trabalha em fábrica e não tem tempo de ficar cultivando sensibilidade, o canto não vem puro. Não é tão afinado como se poderia esperar. São vozes comuns, de pessoas comuns, o agudo não é tão agudo, e o grave não é tão grave, mas são suficientes para dar o salto por sobre a realidade onde vivem, verdadeiras vozes de fim de semana. Isso é inclusão.

Você pode achar que estou fazendo um discurso típico de alienado, isto é, alguém que não conhece direito onde pisa. Isso porque a igreja sempre foi vista como sendo uma comunidade que, ao invés de incluir, exclui, é preconceituosa, estabelece limites muito definidos entre o que pode ser chamado de “mundo”, o que está lá fora, e o grupo de pessoas que a ela pertence, o lado de dentro. Igreja que luta pouco ou quase nada pela vida e está mais preocupada em se abastecer de pessoas como se fosse um grande depósito, que disputa com outras cada palmo de gente como quem pechincha banana na feira – comprar mais, por muito menos. É claro que essa é uma briga política, pode ser compreendida como o milenar conflito entre a teologia e a filosofia, e que nunca será resolvido: apesar da suspeita, a religião vai sobrevivendo no dia-a-dia das pessoas e sempre fica a indagação: o que é a vida? Será que o sistema educacional algum dia irá produzir pessoas humildes, simples, conscientes de seus limites, ou em alguns casos terá como resultado apenas a fabricação de semi-deuses do saber? Quando se caminha por determinados lugares, a sensação é a de passear na ilha de Páscoa: cheio de gigantes de pedra – ninguém sabe de onde vieram, nem pra que servem – aparentemente só assustam, e ficam lá como se o mundo os reverenciasse.

Eu não fiquei assustado, fiquei impressionado. Mais que isso, comovido. Vozes roucas, pouco treinadas, ora desafinadas, ora uns entrando antes de outros, ou sequer entrando, estavam ali me fazendo cheirar o perfume da solidariedade. Havia ali colheres de pedreiro, carrinhos carregados durante a semana, cheios de entulho, aventais, muitos aventais – de serviços gerais, domésticos, possivelmente de serralheiros, mecânicos e carpinteiros. Havia ali chaves de fenda, panelas, canetas e lápis, pessoas pensando na cinco horas da manhã da segunda, o dia seguinte, ônibus lotado, gente suada, agarrada e dependurada nos tetos, trânsito, conta corrente no vermelho, marido desempregado, crianças na creche, filas de consulta médica no sistema público, calçadas a serem varridas, tanques abarrotados de roupa da criançada que o fim de semana juntou, quando o momento da arte suspendeu a vida para dar passagem ao sonho de poder fazer parte de um grupo que canta, se encontra e se encanta. Amigos da vida, chefes, patrões, diretores, gerentes e seus subordinados, empregados, funcionários, condôminos e porteiros, todos juntos, iguais, desocupados das suas obrigações e da vida dura, igualmente desafinados, descompassados, tentando juntar cimento com caneta, avental com farda, tanque de roupa com livros, becas com macacões, ternos com bermudas, sapatos com chinelos, Audi com Fusca, cujo tempero é o doce sabor de saber pertencer e ser pertencido. Você chama isso de desigualdade social? Pois é, a gente pensa diferente mesmo. Pra mim isso é inclusão. Por conta dessas coisas sou perdidamente apaixonado pela igreja.

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

LÁ ESTAVA O PEIXE!

Não há dúvidas de que o livro de Jonas está sentenciado a ser o livro do peixe. São dois extremos, um exagero de peixe que ameaça a razão, e o mesmo exagero que é uma resposta de fé. Nisso Jonas se dá como o exagero de Deus, tanto de um lado, quanto de outro. A beleza tá nisso. Sempre quando se falar de Jonas deve-se falar do peixe. A discussão mais simples, e sem sentido, é se o peixe existiu ou não. Quem faz essa pergunta está fora de foco. Precisa de uma confirmação categórica: o peixe existiu, e se a Bíblia dissesse que Jonas é que teria engolido uma baleia, eu também acreditaria. Discussão inútil. Um diz que é impossível e outro diz que não importa a impossibilidade, pois acredita do mesmo jeito. E fica nisso.

É claro que o peixe é, de certo modo, secundário no texto. Se não tivesse havido o peixe, ainda assim teria havido a mensagem a ser proclamada à cidade de Nínive, com as suas carências, e Deus sendo levado a outras nações. O livro é do profeta Jonas, não do peixe. Peixe não escreve profecia. Depois, o peixe não pode ser mais importante que a mensagem de Jonas. Ou será que é? De fato, enquanto você fica se perguntando se o peixe existiu ou não, quero tentar responder sobre a necessidade de ter havido um peixe. Como você viu, vou sair por outra porta, e vou me dar bem, você vai ver.

Limitar os exageros do texto de Jonas ao peixe é ser cruel. Tudo no livro de Jonas é colossal. Começa com uma tempestade que ninguém dá jeito, e Jonas sendo jogado na água. Passa pelo peixe, que daqui a pouco a gente conversa sobre ele. Chega a pregação e Jonas percorre a cidade d’uma vez, e uma vez só. O resultado é melhor que em qualquer outra parte do profetismo em Israel. Elias, Isaías, Amós, Oséias, e qualquer outro profeta, juntos ou separados, perdem de goleada diante dos resultados de Jonas. Jeremias então, nem se fala. Se fôssemos atualizar o ministério de Jeremias, seria como se ele tivesse encerrado as atividades da igreja por falta de membros. Ninguém gostava de seus sermões, sequer acreditou neles. Jeremias falou muito e não deu em nada. Iria tirar tantos “zeros” na aula de homilética que o professor ficaria sem “zeros” pra dar a outra pessoa. Hoje seria um pastor desempregado. O seu planejamento estratégico era pregar, só isso, e não conseguiu convencer ninguém.

Jonas, ao contrário, pregou rápido e convenceu todo mundo. E depois? Ficou exageradamente inconformado, dormiu de raiva e, enquanto isso, uma planta cresceu para fazer-lhe sombra. Planta que cresce sem respeitar a biologia, só pode ser exagerada. Nisso tudo há exagero: num dado momento Jonas dorme no navio, noutro é jogado no mar e vai até o fundo, no limite entre a vida e a morte. Depois faz uma oração na barriga de um peixe, que nunca mais iria tomar conhecimento outra vez, e possivelmente sequer utilizou a tal experiência como conteúdo da pregação. Finalmente descansa sob o tal arbusto que nasceu de uma hora pra outra. Da viagem de Jonas ao arbusto, demorou quanto tempo? Cinco dias, dez? Observe só o ciclo: vocação, tempestade, fundo do mar, barriga do peixe, pregação, e o misterioso arbusto. Não é um exagero?

Deus, no livro de Jonas, exagera. Mostra-se como o Senhor da natureza e dos mares. Mostra-se Senhor de quem nunca ouviu falar dele. Mostra-se como perdoador extremado – ao invés de permitir que Jonas morresse, na imensidão profunda de ondas que o envolviam, na solidão sem fim de quem está definitivamente rompido com o que há de mais sagrado, com a cabeça roçando e enroscando em algas, no lugar que não é lugar de tão fundo, no mistério do mar que seria mais misterioso do qualquer outro mistério – o assustador mar da Antigüidade que desembocava num abismo sem fim – para salvá-lo, do que não tem salvação, Deus fez até o que não poderá ser jamais compreendido: um peixe.

Agora, o que é o mais importante no texto? O peixe? Se existiu ou não? A possibilidade de uma planta crescer do dia pra noite? A disposição dos Ninivitas na aceitação da mensagem? A capacidade de Jonas em se comunicar? (essa doeu!) Ou o exagerado Deus? Que busca o que não pode ser buscado, seja aquele que nunca ouviu falar dele, seja aquele que se encontra no fundo do que há de mais fundo, na solidão da solidão, no medo do medo, na angustia do angustiante, onde não se respira e não há possibilidade de vida. De repente, a solução que ninguém acreditaria se alguém contasse, e tinha que ser história de pescador pra ser mais real que o acontecido: um peixe exagerado que engole, mas não digere, monstruoso, mas que protege e é capaz de chegar à praia, apesar de tão grande, e devolver o profeta que nem precisou de cuidados médicos. O peixe é grande, mas não encalha e ainda volta por onde tinha vindo, o que nunca jamais se soube ou saberá – sumiu como se nunca tivesse sido.

Acreditar que Deus acalma a tempestade, não assustou Jonas. Crer no peixe, já é difícil, mas vamos ver no que dá. Uma planta que cresce de uma hora pra outra, desafiando a vida, não sei não. Agora, conceber Deus como perdoador? Ah! Isso é pedir muito, é muito pra minha cabeça. Melhor me é morrer do que viver! (4:8) – disse Jonas. O Senhor é exagerado. Faz algo monstruoso, mas que não assusta, um exagero que não pode ser compreendido só para buscar quem não merece, e devolver a vida, mesmo quando quem a recebeu de volta não sabe o que isso significa. Isso é que é sobra de misericórdia, pra Jonas nenhum botar defeito!

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

QUANDO EU TIVER SETENTA E CINCO ANOS

Ainda não cheguei lá. Também não sou garoto. Tive aulas com o pastor Soren. Não com o Francisco Fulgêncio, o pai, que seria um abuso, mas com o João Filson, o filho, que pastoreou uma única Igreja durante os mais de cinqüenta anos de ministério. Pastor Soren dava aulas de Teologia Sistemática. Aquela aula indispensável para os concílios. Os concílios são uma espécie de entrevista com um grupo de pastores que avaliam se a pessoa pode ou não ser um deles. Os quase cinqüenta alunos da classe queríamos ser um deles. Só que o pastor Soren já não dava aulas respondendo perguntas importantes de concílios. Contava as suas histórias, depositava parte da vida em quem pudesse não esquecer as suas memórias. Certa vez um dos colegas, inconformado, diante de um problema crucial, que deveria ser solucionado por quem conhecia e que provavelmente poderia mudar o rumo da nossa história e da teologia, perguntou: Afinal, o ser humano é corpo-alma-espírito, ou é só corpo-alma, sendo o espírito e a alma as mesmas coisas? Esta é a típica pergunta que só faz quem é aluno de teologia, e só vai pensar nela uma vez, quando passar pelo tal concílio. Pastor Soren respondeu: Já foi o tempo em que eu me preocupei com isso! Não é preciso dizer que saímos aborrecidos. Quem quer ser um deles, precisa saber como eles pensam, e dizer que pensa a mesma coisa, do mesmo modo. Matemática simples.

Tive que passar os meus últimos vinte e cinco anos tentando me despreocupar com algumas coisas e substituí-las por outras que realmente possam valer a pena. Hoje estou sendo motivado a pensar nos meus setenta e cinco anos. Tenho como exemplo uma pessoa, com quem tenho aprendido a fazer perguntas cujas respostas podem, de fato, fazer diferença.

Definitivamente, quando tiver setenta e cinco anos, vou querer me arrepender de muitas coisas que fiz de um modo, e que deveria ter feito de outro. Não terei medo de me reavaliar. Não gosto do discurso de quem diz: se pudesse viver outra vez, faria tudo do mesmo modo. Primeiro porque eu já vivi o bastante pra saber que isto é besteira. Depois porque só a idade nos ensina o que é a vida, e mesmo assim a gente nunca aprende. Aos setenta e cinco anos, quero me arrepender do tempo tão curto do casamento, da vida que passou rápida demais, do que ainda não deu tempo de conversar, dos inesquecíveis castelos e do depois de conto. Vou me arrepender do tempo que deixei de pescar. Do tempo que deixei de brincar com os meus filhos. Vou achar que o tempo que eles passaram comigo foi muito curto, logo se casaram, seguiram suas vidas e saíram para aprender a fazer as próprias perguntas importantes. Vou me lembrar das viagens, mas só por causa das pessoas queridas que estavam comigo. Não daquelas feitas às pressas, cheias de compromissos. Assembléias convencionais e debates que sempre voltaram para o mesmo lugar, discutiram as mesmas coisas, com os mesmos pressupostos, com as mesmas pessoas brigando, para se chegar às mesmas conclusões que não resolveram nada e nunca irão resolver qualquer coisa. Quanto tempo perdi ouvindo leituras de atas! Documentos, verdadeiros livros com gráficos, mapas de crescimento, números, extratos bancários, estatutos, muitos estatutos, perspectivas e projetos que nunca foram concluídos, nem o serão, porque o futuro sempre vem navegando e flutuando, meio à deriva, num negócio incerto chamado vida, e os relatórios passam a ser relatórios do que não foi, mas agora será. Será nada! Isto é conversa fiada.

Vou querer rir muito. Ah! Vou mesmo!Quero chegar ao culto sorrindo, desde a entrada, como aquela pessoa que conheço. Depois de uma longa viagem, ter a sensação de que estou voltando para casa. Vou dar muita risada. Não dos outros, mas de mim. Rir do tempo quando eu não sabia fazer perguntas. Da época quando desejava saber se o ser humano é corpo-alma-espírito, da época quando pensava no milênio e nos malabarismos bíblicos em busca da resposta. Vou me lembrar mais das festas, que das reuniões. Da conversa desprovida de defesa no serão depois do culto. Abraçar mais, muito mais. Vou querer ficar impaciente, contando uma história da vida para cada coisa que acontece, como se as experiências não tivessem fim. Quero tirar do armário, não os objetos que ganhei e que já não servem, seja por causa do tamanho, seja por causa da moda, seja por terem se tornado obsoletos – quero ver fotos, muitas fotos. Imagens da minha história. Gente rindo, família na praia, filhos pequenos, adolescentes, casados e já velhos. Quero ver fotos dos meus amigos, pessoas que conheci nas igrejas por onde passei; ovelhas quando eu pensava no milênio e que se tornaram amigos quando aprendi a fazer as perguntas importantes. Vou jogar fora os ternos. Jogar os velhos sermões quando as perguntas eram outras. Vou querer ser acompanhado pelos livros. Continuar lendo dois ou três ao mesmo tempo, sem terminar nenhum. Vou aprender a dizer “não sei”, e isto não fará qualquer diferença. Vou continuar gostando da chuva e pensarei na vida enquanto os pingos nas poças vão trazendo as histórias da infância, pelo vidro, pela janela disputada por muitas cabeças, narizes achatados no fascínio da imagem e as pequenas mãos tirando o embaço. Uma única janela na rua M 1, lá na vila Martins, que dava para uma estrada cheia de lama e pingos que pulavam. E a gente dizia: olha o pai pulando! Terá passado apenas, e tão somente, um período de setenta e cinco anos.

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

CONSUMISMO: OBESIDADE E ANEMIA

Sempre fui apaixonado por música. Num certo dia trabalhei toda uma manhã limpando quintal à enxada, pisando em olheiro de formiga e juntando tudo com rastelo, só para comprar um compact, que não era CD, mas o simples, com uma música de cada lado. Fui para a cidade a pé, com os meus cinco não sei o quê de dinheiro, sem direito a ônibus para não faltar nada dos cinco, seis ou sete quilômetros de ida e de volta, debaixo do sol de meio-dia, só pra trazer o compact debaixo do braço. Era um sábado, e passei aquela tarde inteira ouvindo música no rádio-vitrola, com três faixas de onda, envernizado e à válvula.Chegava rápido no final da música e lá vinha o plus, plus-plus, plus-plus, plus-plus e o disco ficaria eternamente rodando se não houvesse intervenção. Fiquei sonhando com aquela época: as ouvíamos também debaixo de uma árvore, lá na vila Martins, num grupo de adolescentes cuja metade já deve ter morrido, a árvore já virou palito ou lenha e a rua, asfaltada. Não sobrou nem a poeira. Por conta disso, arrumei um aparelho que toca o bolachão, mas não deu certo. A gente ficava ali, em roda do disco que também rodava, cantava, mudava de uma para a outra faixa com toda a cautela – e colocar a agulha entre faixas num LP sem riscar era como engatar a marcha de um carro em movimento no tempo certo sem precisar da embreagem. Coisa fina! Os discos e as faixas iam sendo escolhidos, colocados, cantados, dançados e repetidos, mas tinha que ter a gente por perto fazendo isso. A gente participava da música, ela não ficava lá tocando como se não tivesse ninguém para ouvir, só para fazer barulho. Pelo contrário, era curtida e todo o mundo tinha que ouvir, o que não impedia que vez por outra se colocasse uma porcaria.

Hoje sou um consumidor de música. Não um consumidor como aquele que se apaixona por ouvir e deslizar no ritmo da poesia. Sou um consumidor da pior espécie possível. Posso colocar quase mil e quinhentas músicas num único disquinho, que fica virando sem a minha intervenção e tocando por uma semana. Toca tanto que até esqueço que está lá. E fica lá, competindo com a gente que conversa, totalmente à disposição.

Estou deixando você meio zonzo, rodando como um disco sobre o próprio eixo, mas o bolachão é apenas o ponto de partida para uma conversa sobre a multiplicação geométrica do consumo sem gosto. Tudo fica à disposição, infinitamente logo ali. Quer uma informação sobre alguma coisa? Está disponível na internet, não precisa baixar e é só acessar quando se quer, não há a necessidade de se ter qualquer coisa na cabeça, basta saber o endereço. A gente não experimenta, e já muda. Muda de novo sem saber porque mudou, até porque mudar é fácil, não depende de perícia, nem cuidado. A gente não participa das coisas, as consome, sem ver, ouvir ou sentir o gosto. Não cuida, dispensa. Manda embora ou simplesmente se muda. Não vê cor, engole de uma vez só. Não importa se é coisa, música, pessoa, igreja, comunidade, trabalho, ou até mesmo sonhos. Sonhamos uma coisa pela manhã, outra ao meio-dia, outra à tarde, sonhar também cansa, jogamos tudo fora, achamos que vamos encontrar isso ou aquilo de volta no mesmo lugar onde estava antes, e a vida fica dando voltas sem a nossa própria participação. Consumimos informática, viagens, livros, e principalmente pessoas, relacionamentos ou grupos. Que mundo terrível! Cheio de apelo na mídia pra você consumir mais. Compre logo, compre rápido, vai acabar, o momento é agora, ligue, fale, gaste, mude a sua vida comprando uma panela pra arroz que faz tudo sozinha – escolhe, lava, salga, tempera com cebola, alho e óleo e ainda deixa tudo pronto e quentinho e, no momento exato quando você abrir a porta e entrar em casa, lá estará o cheiro de coisa pronta. Depois, ela se lava sozinha.

Não participamos, nem do que produzimos, nem do que consumimos. Será que isso tem a ver com a religião? Será que não estamos transformando a fé em mercado de bens e serviços como meros expectadores, como consumidores de símbolos religiosos? Será que a idéia de comunidade, participação, coletividade, fraternidade, companheirismo, os “dois ou três reunidos em meu nome”, céu como cidade, vivência em comum, e qualquer coisa que se refira à participação e envolvimento, consegue sobreviver a esse consumismo sem gosto? Acho que a vida cristã está virando produto de consumo e a religião objeto de mercado. Tem muita gente consumindo isso, mas não sabe o que é. Não está buscando um lugar onde possa participar, se dar e fazer diferença. Apenas consumir fé. Há uma espécie de obesidade, mas com muita anemia. Não é à toa que isso não mata a fome. Ao invés de saúde, doença. Não é uma boa engolir a igreja e o cristianismo como produtos de consumo: pode-se engasgar.

Mire e veja: tem gente que ainda vai me perguntar onde se compra a panela.

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

TEMPO DE AMAR

Qualquer tempo é tempo de amar. Já dizia o poeta que amar é verbo intransitivo. Não precisa de um complemento. Isso tem um lado bonito, porque é como se dissesse que o amor é uma impulsão. Uma pessoa, quem quer que seja, de uma ou de outra forma, tem que amar de qualquer jeito. Não pode escolher não amar, simplesmente porque o amor é inevitável. É como respirar, falar, pensar, soltar a gargalhada inesperada que dá até eco. O eco responde, sem ser gente, sem pensar, como se fosse um nada, dizendo-nos que não estamos sozinhos, mesmo quando não há ninguém. O amor, pensado como verbo intransitivo, é esta fala sem destino, que responde sem causa, e que responde pra gente o que a gente diz pro mundo.

Ora, isto parece ser bom, e é. Imagine então quando o amor não é respondido por um eco, mas por uma outra pessoa. Aí sim, não é uma resposta do mesmo modo, mas é a resposta reprocessada, refletida, respondida, retrabalhada, sentida, tornada gente. É um eco, só que muito diferente. Isto porque o amor (agora substantivo) que a gente movimenta, entra no outro que o absorve como se fosse esponja. A superfície de gente, o corpo revestido de pele, e o coração agasalhado por sentimento também dão eco. Só que não é um repeteco no mesmo tom. É um eco-resposta, passa por emoções, ora desconfia, ora se entrega, ora não diz nada como quem se esqueceu de responder. Fica a expectativa de um eco, que pode voltar mais redondo, ou repentinamente quadrado, pode ainda não voltar, como se o outro não tivesse entendido, ou não se desse conta de que tivesse havido um amor em movimento.

E o amor saiu, porque não podia ser evitado. De qualquer modo irá voltar, pois mesmo quando não volta é uma forma de retorno. Diz muito quando não diz nada. Diz tudo sem precisar dizer coisa alguma. Diz mais que tudo quando volta redondinho, burilado, lapidado, cheio de brilho, com cheiro, cor e sem prazo de validade. Êta coisa boa quando o amor volta para casa! Volta diferente, porque já vem filtrado, temperado, adoçado, encorpado, denso, pesado, cheio de outros caminhos que se mostram válidos pra gente amar mais. O outro se tornou pronto para ser amado! Forneceu o nome do bairro, rua e número. É o endereço do amor escondido no coração. Este será um segredo só revelado pra você. O outro deu pistas dos atalhos, só que não contou dos mistérios. Não falou dos caminhos onde há flores. Não disse que há um outro caminho que passa por picos de montanhas onde há neve. Nem de um outro cortado pelo rio, que desemboca no mar, com quebrada de ondas nas pedras. Naquele canto, há uma choupana, que você jamais conhecerá. É o abrigo das memórias do outro. Se por acaso passar por lá, e acabar entrando nela, e tentar vasculhar o que não lhe foi permitido, não vai encontrar nada. As memórias são histórias mudas.

Há outros caminhos, esqueça a choupana e permita o segredo da individualidade de quem não deseja ser totalmente descoberto. Tente o caminho das árvores, que o outro omitiu. Também não disse nada das noites escuras e das pedras, troncos caídos, e subidas que não acabam mais. Há um abismo no coração, que fica logo ali depois daquela pedra, que você achava que subiria nela para ver tudo o que pode ser visto no reino do coração, até onde a vista alcança – parece tão perto, e tão longe. Tudo isto fica por conta do mistério de quem vai ter que entrar sozinho no coração do outro. Num dado momento vai ter que colocar o pé, e escolher um rumo cheio de mistério. E precisa colocar o pé, não tem outro modo, não dá pra ficar do lado de fora, e não dá pra esperar muito. O amor é apressado. Correria irresistível, doida e doída.

E daí? Daí você passa a vida caminhando no coração do outro. Nem este nunca saberá, e nunca poderá saber, e se souber também não vai entender, as tantas coisas que você irá encontrar perambulando naqueles segredos. O amor, irresistível e imprevisível, se movimentou. O tempo arrasta a gente para dentro do coração do outro, e não existe nada que possa impedir isso.

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

OLHARES…

UM OLHAR de amor –
alguém se perdera nas câmaras de si mesmo…

“E Jesus, olhando para ele, o amou e disse:
Falta-te uma coisa: Vai, e vende tudo quanto tens, e dá-os aos pobres, e terás um tesouro no céu” (Marcos 10:21)

UM OLHAR de angústia
diante da incapacidade de abraçar novos valores…

“Mas ele contrariado com essa palavra, retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades” (Marcos 10:22)

UM OLHAR de saudade
ao que poderia ter sido, mas não foi,
numa promessa que não fez parte da vida – tão perto, e tão longe…

“E disse-lhe o Senhor: Esta é a terra de que jurei a Abraão, Isaque e Jacó, dizendo: À tua semente a darei; mostro-ta para a veres com os teus olhos, porém para lá não passarás” (Deut. 34:5)

UM OLHAR ao insondável…

“E o que estava assentado era, na aparência, semelhante à pedra de jaspe e de sardônica; e o arco celeste estava ao redor do trono e era semelhante à esmeralda” (Apoc. 4:3)

UM OLHAR à grandeza de Deus,
limitação de si mesmo, e o desafio do ministério profético…

“Então disse eu: ai de mim, que vou perecendo! Porque eu sou um homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o rei, o Senhor dos Exércitos!” (Isaías 6:5)

UM OLHAR de esperança –
o retorno de alguém que não necessitaria ter partido…

“E, levantando-se, foi para seu pai; e quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão…” (Lucas 16:20)

UM OLHAR de culpa na ânsia do perdão imerecido…

“E levantou Jacó os olhos e olhou, e eis que vinha Esaú (…). Então, Esaú correu-lhe ao encontro e o abraçou; e lançou-se sobre o seu pescoço e o beijou; e choraram” (Gênesis 33:1-4)

UM OLHAR em busca de um socorro…

“Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro ? (Salmo 121:1)

UM OLHAR penetrante,
– o mundo interior sem segredos…

“E, virando-se o Senhor, olhou para Pedro, e Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, como tinha dito: Antes que o galo cante hoje, me negarás três vezes. E saindo Pedro, par fora, chorou amargamente”
(Lucas 22:61-62)

UM OLHAR ao passado,
e o presente eternizado…

“E a mulher de Ló olhou para trás e ficou convertida numa estátua de sal” (Gênesis 19:26)

UM OLHAR de desespero,
na contínua espera do que jamais será…

“E, no Hades, ergueu os olhos, estando em tormentos e viu ao longe Abraão e Lázaro, no seu seio” (Lucas 16:23)

UM OLHAR de compaixão,
diante do amor rejeitado…

“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste! (Mateus 23:37-39)

UM OLHAR de celebração diante da simplicidade da vida…

“Olhai para os lírios do campo, como eles crescem (…) E eu vos digo que nem mesmo Salomão em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles” (Mateus 6:28)

UM OLHAR e uma lágrima…

“E afirmou a sua vista e fitou os olhos nele, até se envergonhar; e chorou o homem de Deus” (II Reis 8:11)

UM OLHAR às pedras do passado,
testemunhas de um povo que se perdera…

“…e contemplei os muros de Jerusalém, que estavam fendidos, e as suas portas, que tinham sido consumidas pelo fogo” (Neemias 2:13-14)

UM OLHAR de perfeição,
consciência de si mesmo no ato completo da criação…

“E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã: o dia sexto” (Gênesis 1:31)

UM OLHAR de gratidão,
diante do milagre ainda no futuro…

“Tiraram, pois, a pedra. E Jesus, levantando os olhos para o céu, disse: Pai, graças te dou, por me haveres ouvido” (João 11:41)

UM OLHAR e as estrelas –
nelas, o futuro de um povo…

“Então, o levou fora e disse: Olha, agora, para os céus e conta as estrelas, se as pode contar. E disse-lhe: Assim será a sua semente” (Gênesis 15:5)

UM OLHAR num momento único –
o centro da memória cristã…

“E junto à cruz de Jesus estava sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena “ (João 19:25-26)

UM OLHAR em busca do ser humano que se perdera…

“…e escondeu-se Adão e sua mulher da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim. E chamou o Senhor Deus a Adão e disse-lhe: Onde estás ?” (Gênesis 3:9)

UM OLHAR e um mistério…

“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos; E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno”
(Salmo 139: 23,24)

UM OLHAR de perdão…
e foi assim que o ser humano aprendeu a se perdoar…

“E endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais”

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

TEOLOGIA E BÍBLIA: O FIM DA TEOLOGIA LIBERAL (?)

Vez por outra ainda encontro alguém fazendo observações quanto ao liberalismo teológico. Esse foi um movimento europeu, mais precisamente alemão, e que fazia severas críticas aos textos bíblicos, autoria, data, acréscimos e por aí se ia. Pois é, já quase não se fala nisto na academia. Quando se aborda o assunto, já se diz no passado, como algo que não se discute mais. É claro que o tema – teologia liberal – é algo muito abrangente e há até os que colocam entre os liberais, teólogos como Paul Tillich, por exemplo. Isto se dá porque ele, e tantos outros, são incluídos naquele grupo que observava o texto bíblico sob o domínio da suspeita. Isto é, o texto bíblico era, de certo modo, questionado no que diz respeito não necessariamente à sua veracidade, o que de certo modo estava presente, mas principalmente nos seus limites para alcançar a interpretação do sagrado – um sagrado visto pela exclusividade teológica. Em parte essa questão foi o resultado natural da Reforma. Ao declarar que a autoridade estava nas Escrituras, os reformadores focaram toda a problemática religiosa no texto. A pergunta que se levantou, e talvez não pudesse ser outra, foi: que texto?

À época da teologia liberal se discutia a racionalidade, e como esta se aplicaria na leitura do sagrado. Numa linha mais positivista, a preocupação era com a comprovação da verdade. Só seria válido o que pudesse ser comprovado. A ênfase repousava sobre um ser humano que poderia conhecer, desvendar e controlar todas as coisas. Definitivamente passou-se a pensar que o ser humano tinha o mundo em suas mãos. Tudo poderia ser desvendado, do cósmico ao micro, do que o próprio humano é, em termos biológicos, até as suas emoções mais profundas, incluindo a sua espiritualidade e existência. O ser humano seria capaz de controlar a natureza, e o seu futuro. Desse emaranhado de coisas que posteriormente chamaríamos de modernidade, saiu de tudo. Saber de onde viemos passou a ser o assunto científico do momento. Se pudéssemos fazer o traçado de como a humanidade se formou, poderíamos prever os nossos passos rumo ao futuro. Se fosse possível encontrar onde foi que humanidade se perdeu, seria possível corrigir os desvios e racionalmente caminhar para a sociedade perfeita. O que seria mais puro, deveria ser o que estaria mais próximo da verdade. É claro que a esta altura já estou mencionando Darwin (busca do passado), planos qüinqüenais da antiga União Soviética (busca do futuro) e até os totalitarismos de Estado que aconteceram todos juntos em meados do século XX: Hitler, Stalin, Mussolini, Franco, Perón, Getúlio Vargas e Salazar, só para pensar nos mais importantes. O Estado tinha que ser organizado e purificado (nacionalismo econômico-racial), portanto forte. O ser humano seria capaz disso: o mundo estava em suas mãos.

Mais que lembrá-lo da história, quero lhe dizer que a teologia bíblica também sofreu desse mal. Pensava-se mais ou menos assim: se o que é mais antigo está mais próximo da verdade, então devemos procurar o mais antigo nos textos bíblicos. Isto levava ao seguinte problema: o texto bíblico nunca poderia ser considerado como unidade, mas teria sido a elaboração de muitos anos, muitas gerações, em meio a tantos espaços históricos. Se fosse possível chegar ao texto que está atrás do texto, chegaríamos à pureza da verdade religiosa. Não é preciso mencionar aqui que Durkheim foi até aos aborígines, Austrália, considerada a raça mais pura do planeta, e a partir deles, estudar religião. Por tabela, a da contaminação das raças e culturas, o estudiosos da Bíblia passaram a considerar que o texto que temos é resultado de muitos acréscimos; que a Igreja, em sua caminhada, teria acrescentado coisas e tirado outras. Harnack, por exemplo, afirma claramente que o Novo Testamento fora influenciado pelo helenismo, o que o tornava praticamente impossível de ser recuperado. Seria necessário fazer com a Bíblia, o que Darwin havia feito com o ser humano. Havia um texto, por detrás do texto, que não conhecíamos. O protestantismo biblicista foi tomado pela insegurança.

De lá para cá o texto ficou no centro do debate. Isto não foi de todo ruim, pois o estudo da teologia cristã necessitava passar pela Bíblia. É claro que você pode pensar diferente e dizer que a teologia européia, onde se desencadeou tudo isto, trouxe um prejuízo enorme para a fé. Hoje, ao que parece, o espaço geográfico europeu é o centro mundial de ausência de crença na teologia. Só que dizer isto, é jogar fora de uma só vez, as duas guerras mundiais, as diferenças étnicas desde a queda do Império Romano, o domínio norte-americano no pós-guerra, a derrocada dos sistemas políticos – tanto de burgueses como de proletários, sem contar a inquisição da Idade Média, e temos que parar por aqui por causa do nosso espaço. É muita coisa para se jogar fora e dizer que a teologia é a única responsável pela ausência de fé no velho mundo.

O texto bíblico em debate gerou muita discussão. Primeiro procurou-se os tais documentos antigos e quando possivelmente teriam sido escritos (Wellhausen, por exemplo). Depois descobriu-se que a oralidade e a poesia, que mantém uma métrica que não poderia ser mudada na passagem da oralidade para a escrita, seriam textos mais antigos ainda (Günkel). Outros acharam que a religião era mais importante que o texto (Alt), e que o Antigo Testamento, por exemplo, mantinha pelo menos duas tradições diferentes, como se o povo de Israel tivesse sido culturalmente duas tribos (Not). Já G. von Rad compreendeu que o que estava por detrás do texto eram as tradições religiosas, manifestadas nas festas e que num dado momento foram transformadas em texto. Isto é, os autores dos textos, que começaram a escrevê-lo no século IX a. C., seriam narradores da fé comunitária praticada nos ritos. Num destes grandes últimos sistemas, vislumbra-se a construção social das tribos de Israel, com base na luta entre oprimidos e opressores e a busca da liberdade (Gottwald). Surgiu até a teoria do documento “Q” (Bultmann), como uma fonte perdida e que representaria, na sua pureza, as verdadeiras palavras de Jesus, antes da Igreja corromper o texto com a fé. Depois surgiu o “Q1”, “Q2” e “Q3”. Bem, não é possível prosseguir na lista, em razão do espaço, até porque não faria diferença.

Contra tudo isto a teologia conservadora também se posicionava. Talvez o nome mais importante na leitura do Antigo Testamento tenha sido o de Bright, que associou a arqueologia à história das narrativas bíblicas. Por essa escola, a validade das Escrituras passava a depender de determinadas evidências físicas, o que ajudava a tentar comprovar os fatos, mas transferia a autoridade para algo fora do texto. Isto é, quando o leitor depende de uma comprovação arqueológica para demonstrar que o Mar Vermelho se abriu, em última instância está transferindo a autoridade do texto para uma possível comprovação científica, como se essa fosse melhor. Caso faça isso, no fundo a sua fonte de autoridade não são as Escrituras, por mais que afirme isso, mas tal fonte passa a ser a capacidade da pesquisa humana. Se a arqueologia não confirmar o evento, o texto bíblico também não o poderia. A âncora foi boa, mas frágil. Também não é preciso trazer aqui as dificuldades e credibilidade das chamadas das “provas” arqueológicas, praticamente abandonadas hoje pela historiografia, religiosa ou não.

A forma encontrada pelo pragmatismo norte-americano foi de tornar a teologia científica pelo viés da sistematização. Do mesmo mo que a dogmática havia se tornado na possibilidade do controle eclesiástico sobre o sistema teológico católico, o mesmo se daria com a teologia protestante na América do Norte. A teologia sistematizada define a forma de funcionamento de uma determinada instituição, seu credo e forma de expressão. Por conta disso, seja a dogmática católica, ou a sistemática protestante na América do Norte, os resultados se tornam os mesmos: são expressões de fé que dão sustentação para um sistema. A dogmática teria a sua origem na hierarquia, suspeita de autoritária. A sistemática teria a sua origem na comunidade e no texto, suspeita de secularização, como toda a teologia protestante. Por conta disso, a chave hermenêutica de uma teologia fundamentalista é o partir da sistemática, pois esta se constitui na dimensão científica da teologia. Para isso, a ferramenta que se tornou a possibilidade legitimadora foi a exegese, pois apenas essa seria capaz de se alcançar o que realmente o escritor estaria pensando. Tal recurso, dispensando pela historiografia na atualidade, e que também coloca sob suspeita a arqueologia como ciência, tem permanecido quase que exclusivamente no âmbito da teologia fundamentalista. É também uma fonte de autoritarismo, já que é dado ao especialista em grego ou em hebraico, a exclusividade interpretativa do texto, e a estrutura funcional se confirma como modo de opressão. Trata-se de um profundo humanismo, pois concebe à razão a possibilidade de conter e explicar o sagrado, exclusivamente.

O fato é que, uma coisa e outra, fizeram com que a teologia liberal praticamente se despedisse do cenário teológico. Teólogos existenciais, como Paul Tillich, a rejeitaram por conta da crise histórica da teologia liberal diante da cristologia: a suspeita liberal sobre a pessoa de Cristo criava problemas com o logos do cristianismo, que é Cristo – não é possível um cristianismo sem Cristo. Por incrível que pareça, tanto a teologia conservadora quanto a liberal acabaram sendo uma discussão apenas de um “antes” ou um “depois”. A teologia conservadora tentou mostrar que a verdade poderia ser alcançada mediante a razão no bem “antes”. Isto é, os textos no fim das contas são antigos e não há quase nada que possa provar o contrário. Já a teologia liberal tentou mostrar que este “antes”, embora fosse “antes”, deveria ser considerado como sendo bem “depois”, e a verdade deveria ser procurada e encontrada num outro momento, ou quase seria impossível de ser recuperada, até mesmo a possibilidade ou não de Jesus, de fato, ter existido. Foi quase uma discussão sobre o tempo.

Já faz algum tempo quando alguém me questionou se por acaso seria um teólogo liberal. Não sei se a pessoa estaria querendo dizer que não acredito na Bíblia, o que não é verdade, ou se sou retrógrado, o que é quase uma ofensa. Estudamos o texto, como nos é dado, porque é o texto que temos. A teologia não está apenas em determinados textos que possam ser entrecortados para uma melhor compreensão. Nisto, tanto a teologia liberal, como a conservadora, também padecem do mesmo mal. Talvez você não tenha tido acesso a teólogos liberais, mas com certeza já teve contato com algum comentário bíblico. Praticamente, qualquer comentário, faz a análise dos textos de forma tão recortada que um estudo em Romanos, por exemplo, poderia estar em I Coríntios, que não faria qualquer diferença. Hoje estamos tentando descobrir uma nova linguagem na interpretação bíblica. A hermenêutica que desponta na atualidade se preocupa em estudar o texto bíblico como exagero de significado, compreensão do imaginário religioso, e a construção desta memória religiosa. Não é necessário ser especialista em línguas originais para se tentar compreender o imaginário que está presente no texto, até porque a exegese não é suficiente para dar conta disso. Diz apenas o que é a palavra, mas será preciso entender de religião para uma observação mais adequada sobre o que tal palavra alcança no universo do sagrado. Só que, para isto, teremos que iniciar uma nova conversa, numa outra ocasião.

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

ANO NOVO, VIDA NOVA? – Mais pra Belchior, que pra Cazuza

Tenho aprendido que a vida nova não vem com o tempo, não tem data marcada e não pode ser prevista em calendário, apesar do nosso desejo. O tempo são os trilhos, não os vagões. Desliza-se por eles, mas estes não têm a capacidade de mudar qualquer coisa. É a gente que se muda com o tempo, e não o tempo que muda a gente, ou como diria Einstein, não é o tempo que passa pela gente, mas nós é que passamos pelo tempo. Pode parecer meio confuso, mas a força da vida não está no tempo, mas nas pessoas. O movimento está nas pessoas e não no tempo. Quando então se diz que o tempo dará jeito nisso ou naquilo, é apenas uma metáfora. O tempo não resolve nada, mas é como se a gente quisesse dizer: hoje a minha imaturidade, frente a isso, me impede de tentar resolver tal problema, preciso aprender outras coisas, ter uma consciência mais adequada do significado da vida, para que a minha visão sobre tal coisa seja diferente, e possa vislumbrar novas possibilidades. O ano novo não traz vida nova. Seria mais fácil se fosse assim.

Creio que isso também faz parte da nossa condição passiva em querer entender que as coisas sempre serão mudadas por um artifício. Quero explicar melhor isso. Condição passiva é a nossa espera para que alguém faça alguma coisa que mude toda e qualquer situação desfavorável. Trata-se da loteria, do emprego que “cai do céu”, ou qualquer coisa que possa mudar o rumo de tudo sem qualquer esforço. Já soube de alguém que desejou a morte da esposa (o contrário, também é verdadeiro), pela conveniência e facilidade diante de um processo de separação, sem esforço, mudança ou qualquer aborrecimento. Sem divisão de bens, e o que é melhor, com toda a liberdade e ausência de culpa que se poderia imaginar.

A ausência de esforço passa também pelo discurso neopentecostal, quando se diz que o mal que uma pessoa tem pode imediatamente, mas imediatamente mesmo, ser resolvido e exorcizado de uma pessoa. Nesse discurso, todos são irremediavelmente bons e que qualquer maldade que alguém faça se refere sempre a uma força exterior incontrolável, e que está presente nele, contra a vontade e recebe o nome genérico de demônio. É o poder irresistível, princípio básico do Direito, como algo que alguém faz, mas que era inevitável, demonstrando que o réu não deve ser punido, porque evitar estaria completamente fora das suas possibilidades. É uma forma de fuga, uma maneira de se esperar e aguardar que alguma coisa mude, sem que se faça qualquer esforço para a mudança.

Cazuza estava certo disso quando disse que o tempo não pára. Fez uma música com muita raiva da vida, ameaçando você, e eu, com o mesmo destino e torcendo para que isso acontecesse. Torcia pelo mal inevitável, pois se o tempo não pára, e você não tem como parar o tempo, então é só aguardar que vai chegar a sua vez de sofrer, e sofrer muito! Cazuza sofria do cúmulo da passividade, da impotência e do medo de provocar a mudança necessária. Sentia pena de si mesmo, como uma vítima da vida, mas não desejava mudar nada. Mudar dói, mas aguardar o tempo é pior, porque há a possibilidade de se morrer à espera de um trem, numa estação onde não existem trilhos. Só que esse tipo de morte não dá pra perceber, pois a esperança faz o foco se dispersar, e a pessoa fica esperando enquanto morre, e morre enquanto espera. Está na estação errada, mas a esperança não o permite ver isso. O tempo anestesiou, apenas isso, e não mais que isso. Na frase, John, o tempo andou mexendo com a gente, num comentário a respeito da morte de John Lennon, numa das músicas de Belchior, há uma metáfora de retorno ao velho oeste. Lennon, para Belchior, é o símbolo de tudo o que poderia ser de mais positivo na luta pela vida, em favor da paz em tempo de guerra e acabou, ironicamente, vitimado por uma morte como no tempo das diligências. Depois de tudo o que se pregou e se buscou na temática da paz, voltamos ao tempo das mortes primitivas nos duelos em Laredo ou Kansas City. Belchior diz que a felicidade é uma arma quente, diz e canta em ritmo lembrando o velho oeste, como se estivesse num saloon. É como se, para ele, o tempo tivesse parado: ainda somos tão primitivos quanto os colonizadores da América do Norte e fazemos as mesmas barbáries como no tempo das tribos. O tempo parou, porque o ser humano é o mesmo, e com todo o nosso esforço ainda somos primitivamente iguais: resolvemos as coisas com a lei do menor esforço, à bala.

Desculpe, Cazuza, mas o tempo pára. As decisões são fotografias da vida. Congelam o momento, quando nunca mais poderá ser mudado. Torna-se monolítico, enrijecido e inalterável. A existência não é a condução automática para o futuro, como se pudesse embarcar no rabo de um cometa e ficar sonhando com a vida nas estrelas, ou tentando encontrar o planeta onde, por acaso, se possa viver a vida perfeita, como se tudo fosse um movimento do tempo. Não somos pequenos príncipes viajando pelo rumo que o destino nos leva. Ao contrário disso, também não quer dizer que haja um fatalismo tipo programado da vida como se fosse possível calcular exatamente como isso se dará. Na vida a gente programa uma coisa, e muitas vezes, ou quase sempre, chega-se num ponto bem abaixo da margem, por conta da correnteza. Eu sei que você precisa crer no ano novo, porque é uma oportunidade de se voltar à estaca zero. É uma espécie de ciclo do sagrado, você retorna para o lugar onde tudo começou e tem a oportunidade de escrever tudo de forma bastante diferente. Você e eu precisamos disso. Uma nova oportunidade, sempre é bem vinda. Todavia, há uma necessidade de participação mínima, em que você de forma consciente de deliberada, provoca aquelas mudanças que são essenciais para que a história seja outra. Caso contrário, viveremos um eterno velho oeste, ou numa tribo para ser mais brasileiro: mudam-se as roupas, a fala e o conforto, mas no demais tudo continua como dantes, na terra de Abrantes. Não adianta ficar torcendo para que o tempo também atropele o outro, para que ele seja tão infeliz quanto você. Não se trata de uma condição egoísta, mas apenas movimento. Interfira positivamente na sua vida, e tome as decisões que você já sabe que devem ser tomadas. Como não poderia ser diferente, feliz ano novo!

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.