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AQUELE QUE PODE OFERECER DESCANSO

Confesso, antes mesmo de cometer o pecado, que este pequeno texto, em princípio introspectivo a quem o escreve, é uma reflexão tomada em palimpsesto de um amigo. Agora eu rabisco os rabiscos da leitura dele. Mas, por conta da amizade, sei que ele não vai se incomodar e nem vai me censurar por isso. Daí, começo. E o começo está no evangelho de Marcos, nos versos trinta, trinta e um e trinta e dois do capítulo seis, na narrativa da famosa primeira multiplicação dos pães. Contudo, estes versos, soltos, nos quais agora me detenho, nada tem a ver com o milagre. Mas, de uma outra forma, menos famosa, menos chamativa, eles lançam luz em outras preocupações que agora eu carrego em mim, preocupações que – para mim – dizem respeito à religiosidade, à espiritualidade e à própria vida.

Marcos, no verso trinta, diz que os discípulos de Jesus estão voltando, e vão contar a ele tudo o que aconteceu. Se voltarmos aos versos sete e seguintes, encontramos o início desta história, Jesus os envia de dois em dois para pregar, curar, exorcizar e cumprir com a missão que dizia respeito ao Reino de Deus. No meio do caminho, entre e o cumprimento desta missão e a volta, João Batista é morto, e, com isso, tem-se uma grande comoção e, certamente, também uma grande preocupação, já que Jesus, segundo a narrativa, já era mais conhecido e “temido” que João, seu primo. Então eles chegam, é o verso trinta. Contam tudo.

Creio que esse contar “tudo” veio junto de um bocado de entusiasmo, misturado com um tanto de tristeza, por João, e um mais de muita preocupação com os caminham que haveriam de ser trilhados por eles e por seu “rabi”. Daí vem verso trinta e um, e com ele uma inversão das coisas. Os discípulos não são enviados, não há multidão, nem discurso, nem cura, nem exorcismo, mas ainda há muito do Reino de Deus. Diz o verso trinta e um que, “visto serem muito numerosos os que iam e vinham”, a coisa, naquele momento, seria diferente. Pois o ir e vir de gente – talvez até da gente – é infindável. Eles e elas sempre irão. Eles e elas sempre virão. E nós (você ou eu), entre estes eles e elas, ou estaremos no caminho indo ou vindo, ou estaremos à beira dele, esperando os caminhantes, ora num, ora noutro, aqui ou lá, tudo dependendo do momento da vida. É como um fluxo. É um fluxo. Um fluxo ininterrupto de gente e de vida para lá e para cá, andando, se trombando, buscando espaços, se machucando ainda mais, carregando em si tudo o que você possa imaginar de humano ou desumano – tudo misturado. Coisa tão bagunçada de se ver que você, de repente, não sabe mais se está fora ou dentro de tudo isso. Se é parte ou está à parte. Mas ali, no verso trinta e um, os que iam e vinham e continuariam a ir e vir – discípulos ou multidão – teriam que parar: “e ele lhes disse: vinde repousar um pouco, à parte, num lugar deserto”.

O fluxo, sem fim e talvez sem lógica também, organizadamente caótico, dá espaço a um tempo e a um lugar solitário (verso trinta e dois), de encontro entre aqueles e aquelas que já estavam cansados com aquele que pôde e pode oferecer descanso.

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Clademilson Paulino
casado, apaixonado por fotografia, literatura e cinema, é Bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de Campinas (FTBC), curso convalidado pela Faculdade de Teologia da Igreja Metodista (FATEO). É também Mestre e Doutor em Ciências da Religião pelo curso de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Faculdade de Humanidades e Direito da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).

RASCUNHOS EM ROMANOS 8

Talvez apenas o tempo nos mostre a razão ou o vazio de cada uma das coisas que acontecem na vida de todos nós. Será apenas e um sempre depois. Ao momento, aquele que chamamos de presente, o hoje, talvez sobre apenas a necessidade de fazer as perguntas que buscam respostas que apenas querem produzir um certo sentido que justifique o que se está vivendo. E também, e em grande parte, algo que nos empurre para continuar. Mesmo e apesar de não ser este, às vezes, o desejo.

Se a vida está “de boa”, como diríamos, poucas são as perguntas. Do contrário, elas, somadas aos medos e às dúvidas, se multiplicam. Perguntas que são da própria vida, do futuro, do como as coisas vão se dar, como elas vão se resolver – se é que vão -, do como tudo será. Perguntas também de existência, de coisas que dizem respeito àquilo que se agita por dentro: dores, tristezas, arrependimentos, remorsos, culpas etc. Coisas que nada tem haver com o que acontece por fora, que são quase que independentes, aparecem, ficam por tempo indeterminado, incomodam e pronto. E o estranho é que às vezes tudo isso se dá apenas porque caminhos se tornam descaminhos por conta de simples descuidos – com culpa ou não -, ou, de forma mais simples ainda, porque eram assim que terminariam, não por destino, mas por simples contingência. A vida é assim mesmo, é estranha em si só, perigosa. E é só o tempo que dirá as razões, ou não.

Dito isso, e dito antes para entender o que se dirá depois, fico pensando que em quase nada somos diferentes dos primeiros leitores de Paulo, em Romanos 8. Talvez em nada também diferentes dele, o próprio escritor. Gente humana – pessoas humanas – desprotegida, assustada, confusa, caminhando pela vida – às vezes sozinhos – passando por todos os seus dilemas e vicissitudes. Daqui para lá e de lá para cá, só seguindo. Diferença ou a ausência dela que faz a gente entender melhor a frase que quer ter sentido, mas que às vezes nos escapa: “tudo coopera para o bem” (verso 28). Pois em tempos de uma teologia confusa, se é que em algum tempo ela não foi, se não cooperar e não houver um bem, é porque não amamos o suficiente. E se amamos e sabemos disso, e nada possui propósito – e parece sempre que tudo precisa ter, surge logo a desconfiança, a descrença. Primeiro em nós mesmo, depois na vida, por fim em Deus. E aí a coisa volta ao início, o futuro responderá a pergunta que agora é feita, no hoje. Mas talvez não. Talvez tomara que não. Talvez não seja a razão o que crie sentido para a vida. Talvez seja a vida que crie sentido para toda e qualquer razão. O que acontece ou vai acontecer ou o que aconteceu não importa. Pois, para quem sabe amar e sabe ser amado, tudo coopera. Daí “[…] o que nos resta dizer? [verso 31] Se Deus está conosco, quem estará contra nós?” […] “A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, os perigos, a espada?” (verso 35). E talvez seja isso que signifique, na vida, ser mais que vencedor.

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Clademilson Paulino
casado, apaixonado por fotografia, literatura e cinema, é Bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de Campinas (FTBC), curso convalidado pela Faculdade de Teologia da Igreja Metodista (FATEO). É também Mestre e Doutor em Ciências da Religião pelo curso de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Faculdade de Humanidades e Direito da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).