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E DEUS CRIOU A VIDA

A ação criadora de Deus não foi em nada estática, podemos mesmo falar de um movimento para a criação, onde a vontade divina resultou em vida por meio de sua palavra e da força que nela estava. De alguma forma, a palavra que o Deus trinitário falou em si mesmo, conforme mencionou Lutero, transbordou e transborda em vida para fora dele e é sempre vivificadora. Essa vida é de tal modo verdadeira e intensa que se recria, se refaz a todo instante, pela força contínua e operante da palavra criadora de Deus, mediante ação constante do Espírito Santo.

Deus criou a vida com capacidade de se reproduzir, multiplicar (Gn. 1:28) e expandir. Isso não aconteceu sem movimento, afinal, criar sempre envolve transformar coisas, ambientes e pensamentos. É como a ideia de caos que assumiu formas pela palavra divina e formas que se movimentam no mundo, conforme os relatos do Gênesis (1.1-3). São as águas que fogem diante da palavra divina e não se se acomodam no côncavo dos rios e mares, dos montes as águas jorram saciando a sede dos animais, o pasto cresce e alimenta o gado, o ser humano cultiva a terra e tem com o que se alimentar (Sl. 104: 7-8) e continuar gerando vida. A vida emerge da terra, corre entre as montanhas, cresce nos vales e agita-se no mundo. Essas são as imagens utilizadas para descrever a origem de todas as coisas na poesia bíblica. Na dança da criação a vida acontece com vigor e explode no mundo a cada momento.

Em função disso, lutamos contra a fome, contra a violência, contra a corrupção política, contra o tratamento vil e indigno de humanos e animais, contra a exploração desordenada da terra, enfim, contra tudo o que compromete a vida. Toda busca humana tem como finalidade última a manutenção e a valorização da vida no mundo em que Deus a colocou, e, tudo o mais é transformado em meios para isso. Mesmo os milagres de Jesus e seus ensinos podem ser lidos desse ponto de vista, pois foram geradores de saúde e de ânimo. A obra salvadora de Jesus Cristo envolve a morte daquele que estava vivo e a ressurreição daquele que estava morto. Nela, novamente a vida explode no mundo e na história por obra de Deus em Cristo e prevalece ante a morte, que não é a palavra derradeira ao mundo. A vontade divina se realiza outra vez em sua palavra encarnada, Jesus Cristo, e pela força do Espírito Santo. Mais um evento que se compreende no movimento da economia trinitária, com finalidade redentora.

A Igreja é uma comunidade viva e se constitui como uma entidade que reproduz em si as características dos humanos que a formam, ou seja, reproduzir, interagir com ambiente, metabolizar (tem a ver com suas transformações internas), organizar-se de modo complexo, etc. Falar de Igreja viva é, portanto, falar de sua complexidade, crescimento, interatividade com o contexto mais amplo do qual faz parte e de suas transformações orgânicas para fins do próprio crescimento. Todavia, ela não é somente comunidade biológica, mas também teológica, constituída em torno do nome de Jesus Cristo e por causa dele. É o povo de Deus que caminha na história e testemunha a obra salvadora de Jesus Cristo em sua própria vida. Por causa dele, ela apresenta também a natureza humana e natureza divina, que não dualizam em sua existência mundana, mas, tais como Jesus Cristo e as Escrituras, interagem e se revelam na missão. Isso significa que ao ser comunidade teológica ela não perde sua condição de comunidade biológica e vice e versa. Uma confere sentido à outra na ordem do mundo e da fé. Como comunidade biológica ela faz uma chamada à vida que parte da fé, e como comunidade teológica ela faz uma chamada à fé, que parte da vida.

Para ser uma Igreja viva requer que reúna características, que além de fazer parte de sua própria natureza como comunidade humana e teológica, exigem ser desenvolvidas por ela em sua capacidade criativa. Como comunidade viva, portanto, dinâmica a Igreja é também criativa e isso deve se revelar em todas as suas ações e realização da missão no mundo. Como comunidade missionária então ela está chamada a corresponder com a obra de Deus de criação e manutenção da vida.

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Regina Fernandes Sanches
Mestre em Teologia e Práxis, Mestre em Missiologia, Especialista em História e Cultura Afro-brasileira e Indígena, graduada em Teologia, Professora de Teologia Sistemática e Teologia Latino-americana da FNB – Faculdade Nazarena do Brasil, Secretária Executiva da FTL-B Fraternidade Teológica Latino-americana -Setor Brasil. Autora dos livros Êxodo, Série Leitura Bíblica, Teologia da Missão Integral, Teologia Viva e Como Fazer Teologia da Missão Integral.

A VIDA NA ÓTICA DO ECLESIASTES

O Nome “Eclesiastes” é utilizado por nossas bíblias e vem da Septuaginta. Em hebraico o título é Coelet e significa “pregador”, “conferencista”, referindo-se ao ensino ou ação pedagógica de alguém. O livro expressa uma teologia crítica e realista da vida. Não há na obra intensão de romancear os dias sob o sol, mas sim de questionar supostos valores da atualidade do redator e que não são tão diferentes nos dias de hoje. Sua instrução baseava-se na observação metódica das situações da vida, entre elas:

A vida é repetitiva!

Ao afirmar que “tudo é vaidade” (1.2) o pregador adverte sobre as preocupações costumeiras das pessoas, que nem sempre fazem verdadeiro sentido, alegando que tudo é efêmero: o trabalho, a vida humana, a natureza, o conhecimento. Até mesmo a sabedoria é repetitiva. De acordo com ele, as coisas nas quais gastamos tempo e energia, que causam ansiedade, angústia, enfado são todas passageiras, estão em movimento e não possuem originalidade, pois todos fazem ano após ano e geração após geração as mesmas coisas. Há uma rotina na vida humana da qual não podemos nos livrar, mas não devemos nos iludir com elas como se fossem a razão de vivermos. O trabalho é necessário, mas não pode ser o fim para a vida (1.3), pois ele não é o que de mais importante possuímos.

O pregador também adverte que não somos os únicos no mundo e na história, devemos lembrar disso quando acharmos que a construção do mundo depende unicamente de nós (1.4). Ele argumenta que até mesmo a natureza é repetitiva em seus atos (1.6-7), está sempre em movimento, mas sempre em si mesma, todavia, é belamente indescritível. O conhecimento é repetitivo, o que vemos, ouvimos e conhecemos é sempre a mesma coisa (1.8-10). As lembranças são passageiras e não perpetuam ninguém de fato (1.10- 11). Ele vê essa repetição como um “fardo humano” (1.13-14, 16-18), mas, ao mesmo tempo, necessária para a vida. A saída é compreender o funcionamento da vida, para vivê-la bem. Não podemos simplesmente seguir como autômatos, acompanhar a multidão de viventes e deixar os dias e as horas passarem diante de nós sem nos perguntamos por que fazemos o que fazemos. As respostas talvez nos surpreendam com a falta de sentido de muita coisa que ocupa parte importante de nossa rotina e nos deixa exaustos. A vida não é tão reta quanto imaginamos, com nossos ideais de progresso e desenvolvimento, pois os problemas retornam e até mesmo as soluções nas novas gerações e em outros momentos da história. O que fazer então se até o conhecimento em excesso parece ter sua medida de enfado e pode gerar sofrimento? É preciso atentar para a vida e como a conduzimos, essa é a chamada que ele nos faz.

O que de fato tem valor na vida?

O pensador alega ter buscado sentido para a vida nos prazeres e na própria bebida. Depois ele adquiriu e acumulou para si bens e riquezas, o máximo que pode e mais do que a maioria das pessoas de sua época. Montou um harém, teve muitas mulheres e servos à sua volta e tudo que desejava. Teve momentos de alegria, mas quando buscou o sentido real de tudo o que possuía, era como nuvem que se dissipava no ar. Ele queria algo novo, inédito, buscou na própria sabedoria e achou-a valorosa, mas depois pensou bem e percebeu que tanto o sábio quanto o tolo possuem o mesmo destino. Em sua busca o homem sábio então se deprimiu, pois percebeu que não adiantava construir tanta coisa para deixar para outros que não saberiam utilizar (2.18, 20). Ao final, ele conclui que o único proveito do trabalho é o prazer e alegria que se tem, quando se tem, ao fazê-lo (2.24). Ele ainda esclarece que esse prazer de se alegrar com o trabalho e mesmo de alimentar-se vem de Deus, é dom dele.

Aprendemos com o sábio que o trabalho para acumular riquezas e fama, seja para nós ou para outros, é sempre escravizante e sem sentido. Ocupamos nosso tempo, pensamentos e energia tentando acumular bens, conhecimento, títulos e promoções pessoais. Muitos gastam a vida em busca de coisas que serão usufruídas por outros. Deixamos para trás filhos, pais, cônjuges e amigos em busca de tais riquezas. Passam a infância e a juventude e não os vemos por estar correndo atrás de coisas efêmeras, enfim, deixamos a verdadeira riqueza da vida passar por nós para nos dedicarmos a uma riqueza ilusória (2.24). Isso o sábio do Eclesiastes chama de Vaidade!

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Regina Fernandes Sanches
Mestre em Teologia e Práxis, Mestre em Missiologia, Especialista em História e Cultura Afro-brasileira e Indígena, graduada em Teologia, Professora de Teologia Sistemática e Teologia Latino-americana da FNB – Faculdade Nazarena do Brasil, Secretária Executiva da FTL-B Fraternidade Teológica Latino-americana -Setor Brasil. Autora dos livros Êxodo, Série Leitura Bíblica, Teologia da Missão Integral, Teologia Viva e Como Fazer Teologia da Missão Integral.

A SANTIDADE E O CULTO

O tema da santidade e do culto em Israel estão relacionados à presença divina. No deserto, o tabernáculo e a arca se tornaram lugares simbólicos da presença de Yahweh e lugares móveis do culto. Deus se fazia presente no meio do povo, que respondia à essa presença em celebração e testemunho. A certeza da presença divina por meio da arca da aliança e lugares de culto era fator de ativação da memória de um Deus constante em Israel desde os pais. Mesmo a atuação profética era sinal da preocupação de Deus para com o povo, portanto, de sua presença, seja para o anúncio do juízo ou da esperança. Essa presença divina constante, real e santa requeria adoração: “Exaltai ao Senhor nosso Deus e adorai-o no seu monte santo, pois o Senhor nosso Deus é santo” (Salmos 99.9).

Embora o livro do Levítico é o que mais trata da matéria da santidade, relacionando-a ao culto e à pureza legal e moral do povo e da liderança cultual, há uma preocupação com a correspondência à santidade de Deus em todo o Antigo Testamento. As exigências da aliança são exigências de santidade: “vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa…” (Êxodo 19.6). A condição de sacerdócio, conforme o Levítico (21.1-24) requeria uma vida santa, tanto no sentido legal, como no sentido moral conforme prescrição das leis de Israel que remontam aos dez mandamentos. Todos os aspectos da vida do povo deveriam expressar a santidade requerida por Deus, a fim de que se caracterizassem como povo de Iahweh, o Deus santo.

Isto posto, fica claro que a santidade de Deus, embora perfeita, não o tornava uma divindade separada e inacessível. Diferente dos deuses de outras nações, Iahweh, cada vez mais passou a ser compreendido como o Senhor da história, não somente de Israel, mas de todo o mundo. O Senhor presente que interferia nas situações mínimas da vida do povo, bem como em sua organização nacional e relação com as demais nações. Por outro lado, os humanos podem ser santos naquilo que possuem de Deus em si e na medida que correspondem à Ele.

Na modernidade, o teólogo suíço Barth entendeu Deus como “o totalmente outro”, o infinito que difere radicalmente do humano finito, o Santo que difere do humano pecador. Ele também é o incriado e o que não cabe na existência como explica Paul Tillich. Todavia, é também aquele que por intermédido de Jesus Cristo chegou à nós e nós chegamos a ele, com o qual os humanos se identificavam, cognoscível naquilo que ele próprio revelou e comunicou de Si nas linguagens humanas. É ele quem se identifica conosco, e, em sua graça e misericórdia se humanizou em Jesus Cristo. Estamos nele como seus dependentes e na medida que o somos, nisso, experimentamos sua presença e conhecemos sua santidade. Ela se põe diante de nós como algo que nos constrange, apontando nossa fraqueza e distanciamento de quem ele é, mas também nos eleva à condição de alvos da sua graça, do seu amor infinito e daqueles que nele, se tornam santos. O culto, neste caso, não é um mero ritual figurativo, mas a celebração viva a um Deus Vivo e radicalmente Santo.

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Regina Fernandes Sanches
Mestre em Teologia e Práxis, Mestre em Missiologia, Especialista em História e Cultura Afro-brasileira e Indígena, graduada em Teologia, Professora de Teologia Sistemática e Teologia Latino-americana da FNB – Faculdade Nazarena do Brasil, Secretária Executiva da FTL-B Fraternidade Teológica Latino-americana -Setor Brasil. Autora dos livros Êxodo, Série Leitura Bíblica, Teologia da Missão Integral, Teologia Viva e Como Fazer Teologia da Missão Integral.