FAMÍLIAS LÍQUIDAS – O Lar na pós modernidade

Esta segunda década do século 21 tem sido marcada pela polarização em várias áreas no nosso Brasil. Visões extremistas e radicais sobre religião, política, direitos humanos e outros assuntos tem sido vastamente alastradas na sociedade tupiniquim. Um dos temas que têm sofrido com este extremismo é a família.

Numa ponta da linha estão os radicais que se dizem “defensores da família” que dizem ter um padrão correto para a família, que tudo que foge deste padrão estabelecido por alguns não pode ser considerado uma família original e se não for do jeito deles então a família está sendo “atacada e subvertida”.

Esta visão extrema ainda ressalta que existe um padrão bíblico-religioso para a família que precisa ser seguido. A dificuldade, portanto, nesta visão é que existe uma má interpretação da família na Bíblia. Se pegarmos do começo das escrituras iremos perceber que a primeira família relatada trouxe maldição para o planeta, para os seres humanos por toda a existência terrena, foram expulsos da presença de Deus, um irmão assassinou o outro e viveu boa parte da vida como um errante.

Se avançarmos nos relatos bíblicos iremos nos deparar com famílias hebréias, israelitas, judias e cristãs chamadas por Deus mas que tiveram incestos, traições, divórcios, segundos casamentos, assassinatos, estupros, paganismo, corrupções, roubos, mentiras e tantos outros pecados e crimes.

É claro que não era o que Deus queria destas famílias mas é a realidade de todas as famílias até hoje. O problema não é querer ter uma família do jeito que Deus quer, pois entendo que isso é bom ser buscado. O problema é não respeitar configurações de famílias diferentes da sua e não enxergar que na sua família tem problemas às vezes piores que em outras famílias que tantos religiosos condenam. O problema é confundir valores de família com configurações religiosas de famílias, sem entender que Deus se preocupa menos com a forma da família e se interessa mais pelos princípios que a família vive. O problema é acreditar que a forma da sua família é melhor que outras formas de família enquanto os vários problemas (que toda família enfrenta) que se têm são ocultos para as outras famílias.

O problema é não escutar Jesus Cristo dizendo: “ — Não julguem os outros para vocês não serem julgados por Deus. Porque Deus julgará vocês do mesmo modo que vocês julgarem os outros e usará com vocês a mesma medida que vocês usarem para medir os outros. Por que é que você vê o cisco que está no olho do seu irmão e não repara na trave de madeira que está no seu próprio olho? Como é que você pode dizer ao seu irmão: “Me deixe tirar esse cisco do seu olho”, quando você está com uma trave no seu próprio olho? Hipócrita! Tire primeiro a trave que está no seu olho e então poderá ver bem para tirar o cisco que está no olho do seu irmão.” (Mateus 7.1-5)

Na outra ponta, entretanto, temos outros radicais que acham que não ter padrão de família é mais importante que buscar ter um padrão de acordo com o que se acredita, que cada um pode seguir os valores e princípios que quiser (até mesmo não ter valores), que tudo é relativo e uma escolha do coração humano de se viver do jeito que achar melhor sem se importar com que os outros irão pensar. Acreditam que ir contra todo e qualquer princípio religioso (principalmente Cristão) vai ser melhor para a sociedade (mesmo sem distinguir estes princípios dos seus próprios valores pessoais).

A impressão que dá é que muitas destas pessoas vivem apenas de acordo com seus próprios entendimentos sobre todo e qualquer assunto sem considerar outras visões onde seus valores e princípios são alterados por cada nova resolução social mais aceita pela cultura atual (o politicamente correto). É uma visão que rejeita valores sólidos mas que preferem transitar por conceitos líquidos que podem ser mudados pelo menor grau de variação. Muitas vezes se torna inclusive uma cultura contraditória quase esquizofrênica que entende, por exemplo, a família de uma forma hoje mas que amanhã pode mudar completamente por causa de um novo entendimento às vezes compartilhado por alguém sem a menor condição intelectual de reflexão do assunto.

Esta mudança na concepção do que é família – até mesmo se deve se ter um conceito estabelecido – também pode ser alterada por um crime que aconteceu, por uma nova série que fez sucesso e outros acontecimentos provisórios que logo já se tornam padrão de pensamento (pelo menos para aquela semana).

Quando se trata de família e/ou de conceitos sobre família, é sempre necessária uma visão equilibrada que evita os extremos para que não se tenha conceitos duros e imutáveis tanto quanto definições transitórias e volúveis.

O lar tem sido sim atacado pela sociedade, tanto de um lado do pólo quanto do outro. Espero que este fenômeno sócio-cultural possa “empurrar” as pessoas para o “centro” na busca de uma visão equilibrada e que menos pessoas decidam escolher um lado dos extremos radicais degladiando-se umas com as outras fazendo com que a família seja destruída mas na prática do que em teorias.

As famílias podem até ser líquidas, mas que elas “escorram” para o diálogo, respeito e amor.

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Mateus Feliciano
Seguidor de Jesus Cristo desde 1991; marido da Carol Lourenço desde 2010 e pai da Clara desde 2016; nascido em Santo André-SP desde 1982 e morando em Campinas desde 2003. Formado em administração, teologia e pós graduado em exposição bíblica. Coordenador da Seara Urbana ONG de recuperação de moradores de rua desde 2006; Pastor na IBBG, da REDE (IBBG Jovem) e do HELP (Ação Social); Professor na Faculdade Teológica Betesda nas áreas de teologia, missiologia e eclesiologia; Professor de missões urbanas e discipulado na JOCUM; Membro da FTL-Fraternidade Teológica Latino Americana.