A era do “Senhor, faça cair fogo do céu sobre eles”

Em geral, os cristãos concordam que os tempos atuais são bastante confusos, complexos e extremamente desafiadores para a vida de fé. A pós-modernidade traz questões para a igreja que em 2000 anos de história do cristianismo ainda não haviam sido enfrentadas, como por exemplo, a exacerbação da individualidade em detrimento da coletividade, o abandono da compreensão de uma verdade absoluta, substituída pela percepção de cada um, ao gosto do freguês, criando, assim, versões sobre Deus e crenças e práticas tão variáveis que as visões teológicas disponíveis parecem fazer parte de um grande hiper-mercado da existência, é só ir na prateleira e escolher a opção que lhe faça mais feliz. O consumismo também se tornou uma pedra de tropeço na vida da igreja, porque na sociedade não é só produtos e serviços que são consumidos, mas pessoas, relacionamentos e até a fé, e muitas igrejas, seguindo este ritmo, pularam de cabeça nesta onda: “Consumir para consumar”. Ou seja, os fiéis são instigados a manipular a divindade através do seu dinheiro etc. E decadência moral, nem se fala, a ganância pelo dinheiro é de chorar, e a busca frenética por poder e influência é de escandalizar os mais fortes. Enfim, se tivéssemos acesso aos bastidores de algumas igrejas, iríamos ficar tão enojados que haveria uma grande probabilidade de pedirmos a Deus que parasse o mundo, para nós desembarcarmos. Como se diz: a coisa tá feia.

Em um parágrafo é difícil, praticamente impossível,  contextualizar de maneira profunda a pós-modernidade e seus efeitos na vida dos cristãos, porém o que é absolutamente evidente é que as pessoas estão confusas, quando não perdidas, e estão correndo de igreja a igreja em busca de uma direção e paz, mas o que muitas têm encontrado é só desilusão e angústia. Diante de um mundo tão confuso, tão cheio de informações, tão carregado de opções e tão impulsionador para o erro alguns cristãos tem endurecido, de forma bastante radical, o seu discurso, chegando a beira do ódio. É claro que os cristãos devem se posicionar diante dos males que acontecem no mundo, devem se indignar contra as injustiças ou mesmo contra a imoralidade generalizada, todavia, devem fazer isso à luz de Jesus Cristo, sua vida, ensinamentos, morte e ressurreição.

A partir do exemplo do Cristo, não temos permissão para combater o mal com o mal, não podemos combater o pecado, as ideias (ideologias) que ferem as Sagradas Escrituras, as posturas equivocadas carregados de rancor, raiva e agressividade contra as pessoas, não podemos, como Tiago e João, diante daqueles que se recusam a receber o Evangelho pedir que Deus derrame fogo dos céus. Não podemos mesmo. É preciso apaziguar os corações para que a mente ganhe lucidez. Temos que resgatar a pergunta de Jesus a estes mesmos discípulos: “Vocês não sabem de que espírito são?” Jesus está dizendo pra eles que não faz sentido ser seu seguidor e carregar essa mentalidade violenta no coração. Imagine se Deus punisse com fogo cada um que lhe desagradasse? Não sobraria ninguém pra contar história.

Este texto de Lucas 9.53 a 55 serve como paradigma para muita gente que se diz cristã. Tais pessoas estão por aí, nas redes sociais, nas igrejas, nos locais de trabalho, nas reuniões, nas casas destilando seu ódio em nome de Deus. Eles querem que os bandidos sejam mortos, que adolescentes sejam presos junto com criminosos de carreira, praticamente impossibilitando algum tipo de recuperação; aqueles que têm uma visão teológica discordante em alguns pontos da sua, são chamados de hereges com muito rancor; e as discussões que ferem os valores do Evangelho continuam na internet ad infinitum, tudo para honrar a Deus; pastores que atingiram poder e dinheiro, alguns até de moral duvidosa,  ficam o tempo todo esbravejando, lançando campanhas questionáveis de boicote contra isso e contra aquilo, como se o mundo pudesse ser mudado só porque rejeitamos por uma semana algum produto; xingam pela internet os ateus, homossexuais e simpatizantes, os adeptos de alguma ideologia política específica, geralmente as que ficam mais a esquerda e tantas outras coisas. Por favor, não quero validar atitudes e mentalidades que confrontem o Evangelho, apenas estou dizendo que para atuar como igreja de Cristo no mundo é preciso que isso seja feito à luz de Cristo, ignorar tal verdade é como desejar criar um cristianismo sem o Cristo, sem a essência dos seus ensinamentos.

Se compreendemos que a sociedade vai de mal a pior, devemos orar mais, jejuar mais, clamarmos mais pelas misericórdia de Deus, se compreendemos que muitos têm optado por caminhos que segundo a Palavra de Deus são caminhos de morte, então devemos evangelizar mais e praticar mais a Missão Integral e investirmos mais em projetos missionários diversos, se entendemos que o mundo é fragmentado e confuso então devemos reforçar nossas comunidades com mais Evangelho, amor, cuidado, compaixão, ensino profundo das Escrituras para que ela prevaleça nos dias maus. Devemos reconhecer que não podemos mudar o mundo na sua totalidade, mas podemos mudar a nós mesmos para que o mundo naquilo que confronta Deus não nos alcance, não tenha voz dentro de nós, nem em nossa família, nem em nossa comunidade.

Ter Jesus nos lábios com coração cheio de ódio não faz jus a beleza transformadora e graciosa do Evangelho. Sugiro que ao invés de pedirmos a Deus que mande fogo dos céus sobre as pessoas das quais discordamos por alguma razão, seja da sua trajetória, vontade, opções e escolhas, poderíamos clamar com mais disciplina, com mais engajamento, com mais humildade, com mais amor e misericórdia para que o Reino de Deus venha com poder sobre a terra e especialmente sobre a vida dessas pessoas. Este é um bom anseio para um cristão que vive o cristianismo à luz de Jesus. Que Deus por sua graça nos ensine a apreciarmos mais o evento cruz do que o evento Sodoma e Gomorra. Jesus disse que enviaria seus discípulos como ovelhas em meio aos lobos, não podemos desejar nos tornar lobos. Que Deus tenha misericórdia de nós. Amém!

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Laurencie Salles
Sou uma simples pessoa que encontrou a vida por meio da graça de Deus, e esta magnífica graça tem um nome: Jesus Cristo. A partir de Jesus de Nazaré minha identidade é construída, meus papéis de marido, pai e filho, professor e cidadão são exercidos, e minha vocação pastoral é cumprida. Sou alguém amado graciosamente por Jesus e fora Dele não existe nada em mim que tenha valor ou sentido.
Minha formação é na área de Matemática, pela UFSCar (graduação e mestrado) e em Teologia, pela Faculdade Batista de Campinas, convalidado pelo Centro Universitário Clarentiano, com especialização pela FLAM/UNIFIL e especialização em Ética e cidadania pela USP/UNIVESP.