Feminicídio : o que o cristianismo tem a dizer sobre este terrível e triste mal social

Tenham em vocês os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus” (Filipenses 2.5)

 Embora muita violência tenha sido feita na história em nome do cristianismo, em sua essência, numa leitura profunda das Escrituras Sagradas, à luz de Jesus de Nazaré, não há nenhum fundamento que justifique a violência. Portanto, qualquer ato violento é uma aberração pecaminosa que obviamente desagrada a Deus e desumaniza o ser humano. Ressaltamos que estamos falando aqui no nível pessoa-pessoa e não pessoa-Estado, esta é outra discussão.

Algo que nos preocupa bastante em relação ao nosso país é o crescimento da violência contra a mulher, mesmo com a lei Maria da Penha. Segundo reportagem da revista Exame de 08 de Março de 2017, 22% das mulheres (12 milhões) sofreram agressão verbal, 10% (5 milhões) sofreram ameaça de violência física, 8% (3,9 milhões) sofreram ofensa sexual, 4% (1,9 milhões) sofreram ameaça com faca ou arma de fogo, 3% (1,4 milhões) sofreram espancamento ou tentativa de estrangulamento e 1% (257 mil) levaram um tiro. Em 61% dos casos o agressor era um conhecido. Na região de Campinas, segundo reportagem do portal G1 de 09 de outubro de 2017, a maioria das vítimas do feminicídio foi morta dentro de casa.

Por que esse mal social é tão insistente? Certamente há várias variáveis a se considerar, uma delas é a mentalidade de muitos homens. Em vários casos de violência contra a mulher, inclusive chegando ao assassinato, a violência se deu porque o homem envolvido não sabe receber um não, não sabe ser contrariado, é um tipo de egolatria (fala de Ana Lara Camargo de Castro que é promotora de Justiça do Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul – Fonte: (Jornal El país)). A mentalidade machista propagada e legitimada por filmes, em geral de cunho pornográfico, músicas, e pelas próprias conversas entre os homens e etc acaba impulsionando muitos a agirem com violência contra suas companheiras e inclusive considerando, imbecilmente, estarem agindo de forma correta. Ainda há que se considerar o problema do alcoolismo: esta é mais uma praga social: desestrutura as famílias, rouba a consciência das pessoas e também leva, em muitíssimos casos, a violência. Triste a contradição de que a mesma mídia que tenta, a seu modo, combater a violência contra a mulher, incentiva o consumo de álcool. Existe também o problema das drogas ilícitas que também é geradora de violência, especialmente contra as mulheres, filhos contra suas mães, maridos contra suas esposas e outros casos. Fora tudo isso existe ainda a impunidade em nosso país, a lentidão da justiça em julgar os crimes e inclusive a incapacidade da justiça de dar proteção mesmo àquelas mulheres que buscam ajuda, como muitos exemplos demonstram. Poderíamos falar da própria história do Brasil, marcada pela escravidão dos negros até o século XIX (lembrando que maioria das mulheres a sofrer violência são negras) e patriarcalismo, das injustiças sociais, dos trabalhos degradantes, das humilhações sociais impostas a tantos. Citamos isso, obviamente, não como justificativa, mas como elementos que minam o sentido de viver, criam obstáculos nas relações humanas e constroem formas de pensar que acabam desembocando em agressividade. Todavia, é importante ressaltar que a violência contra mulher, inclusive o feminicídio, não acontece só nos bairros pobres, mas é fruto de uma ideologia machista espalhada por todos os cantos.

Em minha opinião particular o maior problema da violência contra a mulher reside na mentalidade dos homens, sua forma equivocada de verem a si mesmos, o mundo, os outros e suas relações. Neste ponto o cristianismo autêntico pode contribuir bastante visto que a primeira obra de Jesus Cristo na vida de uma pessoa se dá justamente na mente, pois em Cristo a forma de pensar certamente há de mudar. Estou falando de cristianismo e não de mera religião. A partir do poder do Evangelho, o ser humano é levado a se arrepender de um estilo de vida que exclui Deus e abraçar, em fé, uma nova forma de ser, que se traduz numa nova forma de pensar, uma nova forma de entender a si mesmo e os outros e uma nova forma de agir, que é marcada pela consciência real do que é valioso nesta vida, e em atitudes de amor, graça, generosidade, perdão, misericórdia, compaixão, tolerância, amizade, companheirismo, respeito, paciência que pode ser sintetizado na expressão fruto do Espírito segundo Galátas 5.22 que expressa o próprio caráter do Senhor Jesus Cristo.

As cartas do apóstolo Paulo ensinam os maridos a amarem suas esposas como Cristo amou a igreja, em plena doação, cuidado e entrega. Jesus Cristo foi revolucionário no seu tempo em relação ao tratamento em relação a mulher, sempre gracioso, generoso, paciente, tolerante. O autor de Gênesis afirma que a mulher é criada do homem como uma igual, igual no seu valor, na sua importância e ambos carregam em si a Imago-Dei, a imagem de Deus.

O feminicídio acontece exacerbadamente hoje em dia em uma sociedade que jogou Deus para o escanteio da vida, de uma sociedade que valoriza mais as coisas e os animais do que as pessoas, de uma sociedade que dá preferência aos “relacionamentos” virtuais do que aos reais, de uma sociedade que valoriza mais o ter do que o ser, de uma sociedade que vomita via redes sociais o ódio e despreza a tolerância, de uma sociedade em que os relacionamentos familiares são tratados como um nada, em uma sociedade em que o discurso religioso é regido pelos interesses do mercado e do poder e não da ética e da bondade.

Os cristão devem orar com disciplina por esta situação tão triste em nosso país, em que diversas mulheres vivem amedrontadas e humilhadas. Devem orar para que as autoridades do país encontrem formas sábias de enfrentar esse triste e gravíssimo problema, naquilo que lhes cabe. Devem orar para que os pais sejam mais sábios, atentos e mais participativos na vida de seus filhos, ensinando bons valores e princípios. Devem levantar a sua voz contra essa e tantas outras injustiças, devem ensinar em suas comunidades e famílias que abraçar o amor de Deus implica numa vida de bondade, graça e ética, e devem ensinar o respeito profundo ao ser humano, que é criação do Deus de amor, devem denunciar a violência quando a encontrarem, devem escrever livros, artigos, devem pregar contra esse mal, devem oferecer ajuda às vítimas da violência, inclusive às famílias que sofreram o feminicídio. Devem também oferecer ajuda aos homens agressores, pois carecem da misericórdia divina e da transformação do Cristo, embora devam assumir as consequências de seu ato. Os cristãos devem sobretudo lutar, dentro de seu contexto, com toda sua força, para que os pensamentos possam ser levados cativos a Cristo. O mal é insistente, mas Deus é bom e Todo poderoso. Deus tenha piedade!

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Laurencie Salles
Sou uma simples pessoa que encontrou a vida por meio da graça de Deus, e esta magnífica graça tem um nome: Jesus Cristo. A partir de Jesus de Nazaré minha identidade é construída, meus papéis de marido, pai e filho, professor e cidadão são exercidos, e minha vocação pastoral é cumprida. Sou alguém amado graciosamente por Jesus e fora Dele não existe nada em mim que tenha valor ou sentido.
Minha formação é na área de Matemática, pela UFSCar (graduação e mestrado) e em Teologia, pela Faculdade Batista de Campinas, convalidado pelo Centro Universitário Clarentiano, com especialização pela FLAM/UNIFIL e especialização em Ética e cidadania pela USP/UNIVESP.