pegadas na areia

Pais espirituais

“Pois pelo Evangelho eu mesmo vos gerei em Cristo Jesus”. (I Coríntios 4.15b)

Hoje é um dia especial porque é um dia que o Senhor fez e nos deu gentilmente, mas além disso é um dia especial porque nos dá a oportunidade de pensarmos em nossos pais e agradecer a Deus por eles. No geral, os sentimentos que brotam neste dia são bonitos, saudosos, cheios de alegria e vivacidade.  Infelizmente há exceções, alguns não tiveram boas experiências com seus pais, não foram bem cuidados, foram até maltratados e inclusive abandonados. O Deus Triúno, tendo conhecimento de todo potencial dos pais e também de todas suas debilidades, propicia, através da sua igreja que é o seu povo, a oportunidade de todas as pessoas  serem cuidadas em amor e assim possam pela graça divina serem aperfeiçoadas e curadas, em caso de traumas familiares, pelo poder e vivência no Evangelho.

Sendo Deus o Deus que é uma Trindade de Pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo a via de realização que ele apresenta para nós é a do caminho comunitário, é a da vida de comunhão e altruísmo que reflete uma demasiada preocupação, atenção, serviço e cuidado com o outro. Uma forma de viver isso de fato é pensar no ministério dos pais espirituais, ou seja, homens que adotam pessoas espiritualmente e as trazem para uma convivência próxima e decidem caminhar com elas, através de discipulado e mentoreamento, e dessa forma, comer com elas, orar por elas, aconselhar, ajudar, apoiar, exortar, encorajar etc. Hoje, sendo dias dos pais, falo especialmente aos pais, mas tanto homens quanto mulheres podem abraçar esse tipo de ministério de adoção espiritual.

Hoje que vivemos tempos pós-modernos que são recheados de individualismo e narcisismo é difícil pensar que um ministério assim possa florescer. Estamos tão afogados com nossas próprias preocupações e tomados de tanto egocentrismo que é difícil abrir nossa vida para outrem. Com base na filosofia do consumismo, queremos apenas sossego e bem estar porque julgamos merecer. E queremos inclusive que Deus nos apoie em tal projeto. Mas é óbvio ululante que o Deus Triúno não apoia esse tipo de postura e atitude: a tudo que produz uma elevação do ego em detrimento do outro, Ele diz um bem grandão NÃO. Pois Ele é o Deus-comunidade e sabe que a realização plena do humano se dá pela via estreita dos relacionamentos.

Temos que ampliar nosso olhar sobre o que significa de fato ser igreja do Senhor Jesus. Temos que ampliar nossos horizontes hermenêuticos sobre o que significa ter comunhão com os irmãos e o que significa verdadeiramente servir uns aos outros. Porque muitos pensam que isso se dá ao frequentar os cultos dominicalmente e estudar a Bíblia numa escola que funciona cerca de uma hora semanal. Isso não significa ter comunhão e nem serviço, pelo menos não no seu sentido pleno e profundo. É preciso que aprendamos a nos aproximar uns dos outros e a nos interessar pelos outros de maneira cristã. É um tipo de encarnação: quando movidos pelo Evangelho tomamos a firme decisão de nascer no mundo do outro para ajudá-lo a crescer em Cristo, como disse Paulo: “Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós”. (Gálatas 4:19).

Ser um pai espiritual é atuar com responsabilidade cristã não só na esfera familiar que também é necessária e louvável, mas é convidar pessoas, que podem ser já do nosso oikós ou não, pra fazer parte da nossa vida de forma mais intensa e expressiva, ser incluída em nossa rotina de alguma forma, e colocar seus nomes e histórias em nossa agenda para que possamos desenvolver um relacionamento saudável de acompanhamento e prestação de contas, sem opressão e invasão de privacidade, para que neste relacionamento, regado de graça pela Trindade, possamos amadurecer em nosso cristianismo de forma conjunta, mesmo porque não há outro caminho de crescimento.

Deus criou a igreja para que ela pudesse expressar de maneira antecipada os valores e as belezas do Reino que serão vividos plenamente no céu, mas nós transformamos a igreja num culto que acontece aos domingos, nós transformamos a igreja num auditório, nós transformamos a igreja em eventos e programações que propiciem entretenimento e participamos de tudo isso e ao mesmo tempo trancamos com chave tetra a porta de nossa vida para os outros.

Se homens genuinamente espirituais se levantarem para serem pais espirituais esse tipo de quadro triste apresentado sobre a igreja começará a mudar, pois estaremos mais alinhados com o coração de Deus, o Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo. Permita que Deus use sua vida para edificar a vida de outros. Ah! É bom lembrar que o dia dos pais espirituais não é hoje, ou não é só hoje, é na verdade todos os dias, pois como disse Jesus: “Até agora meu Pai trabalha e eu trabalho também” (João 5.17). Cuidar de gente é coisa pra vida inteira. Que o Pai, o Filho e o Espírito Santo nos ajude! Que o Deus Triúno nos impulsione para uma vivência cristã verdadeiramente comunitária. Amém.

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Laurencie Salles
Sou uma simples pessoa que encontrou a vida por meio da graça de Deus, e esta magnífica graça tem um nome: Jesus Cristo. A partir de Jesus de Nazaré minha identidade é construída, meus papéis de marido, pai e filho, professor e cidadão são exercidos, e minha vocação pastoral é cumprida. Sou alguém amado graciosamente por Jesus e fora Dele não existe nada em mim que tenha valor ou sentido.
Minha formação é na área de Matemática, pela UFSCar (graduação e mestrado) e em Teologia, pela Faculdade Batista de Campinas, convalidado pelo Centro Universitário Clarentiano, com especialização pela FLAM/UNIFIL e especialização em Ética e cidadania pela USP/UNIVESP.

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