A Palavra na minha mente

Quando o coração estiver entristecido e perturbado, lembre-se o que diz a Palavra: “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente no tempo da angústia”. Quando estiver sem forças diante de um problema gigantesco pense no que diz a Palavra: “A bondade do Senhor é a razão de não sermos consumidos, as suas misericórdias não tem fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade”.

Se alguém lhe ferir o coração considere o que a Palavra diz: “Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará”. Quando a atitude de alguém o desagradar ou escandalizar, e seu coração se encher de orgulho e julgamento contra tal pessoa reflita na provocante questão encontrada na Palavra: ”Por que vês o cisco no olho de teu irmão e não reparas na trave que está no teu próprio olho?” Quando alguém lhe roubar um bem reflita no aviso da Palavra: “Não ajunteis tesouros na terra, onde traça e ferrugem os consomem, e os ladrões roubam; mas ajuntai tesouros no céu onde nem a traça, nem ferrugem os consomem, e os ladrões não invadem nem roubam”.

Se acontecer de alguém em seu trabalho, ou vizinhança ou condomínio o perseguir, atente firmemente para a Palavra: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”. Quando assistir o noticiário ou ler na revista semanal sobre a guerra na Síria, sobre morte de refugiados e a miséria causada pela ganância dos seres humanos, ore baseado na Palavra: “Venha o teu Reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”.

Se porventura você colocar as suas esperanças por dias melhores em nosso país em um político que gosta de se autopromover, ou em um juiz, ou em uma corporação policial ou num novo partido político preste atenção na recomendação da Palavra: “Maldito o homem que confia no homem, e faz daquilo que é mortal a sua força e afasta do Senhor o coração”.

Quando na falta de dinheiro você pensar em apostar na Mega-sena e tentar uma improvável sorte, olhe para a Palavra: “Não podeis servir a Deus e às riquezas”. Se em tempos de crise, sua mente for levada a só pensar em si mesmo, ou mesmo no dia a dia da vida, pensar em gastar seu dinheiro só com você e com sua família, lembre-se da Palavra: “Deus é poderoso para fazer toda graça transbordar em vós, a fim de que, tendo sempre o suficiente em tudo, transbordeis em toda boa obra. […] Aquele que dá a semente ao que semeia, e pão para comer, também suprirá e multiplicará a vossa semeadura, e aumentará os frutos da vossa justiça, e em tudo sereis enriquecidos para serdes sempre generosos, o que, por nosso intermédio, produz ações de graças a Deus”.

Se seu coração for levado a desejar aquilo que não lhe pertence, seja algo ou alguém, pense na Palavra: “Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçaras a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo”. Se alguém ou um dito amigo o convidar para participar de uma roda de fofoca, considere a informação encontrada na Palavra: “A língua também é um fogo, sim, como um mundo de maldade, ela é colocada entre os membros do nosso corpo, contamina todo o corpo e põe em chamas o curso da nossa existência, sendo por sua vez posta em chamas pelo inferno”.      Se passar por tribulação ou problemas por servir a Jesus, se foque na Palavra: “Sabendo que a prova da vossa fé produz perseverança e a perseverança deve ter ação perfeita, para que sejais aperfeiçoados e completos, sem lhes faltar coisa alguma”.

Se perder a alegria de servir a Deus na companhia da comunidade de fé, que é a igreja, leve a sério a Palavra: “Não abandonemos a prática de nos reunir, como é costume de alguns, mas, pelo contrário, animemo-nos uns aos outros, quanto mais vedes que o Dia se aproxima”. Quando pensar que nada dá certo pra você, que nada que você investe vai pra frente, encante-se com a Palavra: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo”.

Se seu coração tolamente acreditar que você possa agradar a Deus e salvar-se com suas próprias forças e inteligência, surpreenda-se com a Palavra: “Pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós é dom de Deus”.

Quando sentir tanta saudade do passado que não consiga se alegrar com o presente, lembre-se da Palavra: “Não digas: Por que os dias passados foram melhores que os de hoje? Porque essa pergunta não vem da sabedoria”.

No seu caminhar pela vida, enfrentando os dilemas, as questões e os desafios do cotidiano, abra seu coração e mente para a Palavra: “Entrega tuas obras ao Senhor, e teus planos serão bem sucedidos”. Amém!

Atenção: as referências bíblicas não foram colocadas de propósito para que você tente encontrá-las em sua Bíblia e assim avaliar seu conhecimento das Escrituras.

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Laurencie Salles
Sou uma simples pessoa que encontrou a vida por meio da graça de Deus, e esta magnífica graça tem um nome: Jesus Cristo. A partir de Jesus de Nazaré minha identidade é construída, meus papéis de marido, pai e filho, professor e cidadão são exercidos, e minha vocação pastoral é cumprida. Sou alguém amado graciosamente por Jesus e fora Dele não existe nada em mim que tenha valor ou sentido.
Minha formação é na área de Matemática, pela UFSCar (graduação e mestrado) e em Teologia, pela Faculdade Batista de Campinas, convalidado pelo Centro Universitário Clarentiano, com especialização pela FLAM/UNIFIL e especialização em Ética e cidadania pela USP/UNIVESP.

A ORAÇÃO INÚTIL (?)

Confesso que errei. Preciso me redimir.

Sempre compreendi a oração da Igreja por Pedro, quando este estivera preso, como um fiasco. Só pra lembrar: Herodes, embalado pela perseguição, tirara a vida de Tiago depois colocara Pedro na prisão, enquanto os judeus, politiqueiros e fundamentalistas, comemoravam o dia dos pães asmos. Pedro, assim, corria risco de morte. Num dado momento foi libertado de forma sobrenatural. Procurou os seus pares, apresentando-se àqueles que por ele oravam. Embora estivessem orando, ninguém acreditou que Pedro pudesse sair vivo da prisão. Se Pedro dependesse da fé deles estaria perdido. Aparentemente, um verdadeiro fiasco.

Já ensinei isso e conversei comicamente sobre o episódio. Ri de quem ora sem fé, de Pedro perdido, e mostrei que Deus conduz o seu plano apesar das nossas orações. O “apesar” deve ser lido em negrito. Só que errei, e foi por muito. Não há nada de engraçado quando se pensa na igreja escondida, amedrontada e ameaçada diante de um sujeito sem qualquer escrúpulo ou bom-senso, como Herodes. Não há nada de engraçado quando se passa uma noite na prisão, e muito menos no sofrimento pela morte injusta dos primeiros mártires. A morte de Tiago, após a de Estevão, abriria os anos de terror contra os cristãos de tal forma que matá-los seria uma espécie de diversão. Num primeiro momento a perseguição seria apenas religiosa. Imagine então quando o Império Romano desejou fazer parte da carnificina, declarando que a luta contra os cristãos era um problema de “segurança nacional”, tipo ditadura tupiniquim! Não houve guerra, mas caçada. Um safári por vilas, lugarejos, estradas e principalmente centros urbanos. A igreja orava nessas circunstâncias. Não era uma questão de acreditar na vida, mas na morte, porque esta parecia ser a mais provável. Alguém bateria à porta arrastando mulheres, crianças e pescadores. A morte viria buscá-los, e não havia meio de se evitar isso. Foi o que fez Pedro: bateu à porta. Foi o que pensou a igreja: era som, toque e chamada da morte. A morte não veio e Pedro se foi, colocou outro em seu lugar e se despediu. Não quis voltar para o terraço. A igreja não acreditou no que pediu, e Pedro, por sua vez, só se deu conta do que estava acontecendo depois de acontecido. Fé também significa insegurança, por mais contraditório que isso possa parecer. Um e outro estavam no mesmo barco.

A oração não se valida por conta da resposta, mas pela oração mesma. Essa é a parte difícil de explicar. É também aqui que está a minha interpretação equivocada. Sempre quando se fala de oração, pensa-se nos resultados. Faça isso, desse modo, e receba assim, desse jeito. Daí aparecem os manuais “aprenda a orar em 28 dias”, “como desenvolver orações poderosas”, “treze mil trocentas e quinze orações respondidas”, “como fazer Deus ouvir a sua oração”, “a oração que faz efeito”, “movendo o coração de Deus”, são verdadeiros tratados, colocados em ordem ritual de prioridade, o que fazer primeiro, o que esperar depois, o que dizer durante, como deve ser a postura enquanto se ora, você tem fé? Deus não responde a sua oração? Como não? E quem é que nunca teve uma oração não respondida? Queremos aprender a orar, obter a fórmula secreta e o caminho mais curto, eficiente e eficaz para que o coração de Deus seja alcançado.

Observada por essa perspectiva, a oração da igreja por Pedro foi um vexame. Se pensada como um momento em si mesma, era o que a igreja mais precisava. Aquelas poucas pessoas, de uma minúscula comunidade, mesmo que preocupados com Pedro, careciam uns dos outros. A oração que faziam já se constituía como abençoadora, só por ser oração. A validade não estava na resposta, mas na oração mesma. Enquanto oravam, se protegiam, buscavam socorro, colocavam seus medos, suas preocupações e a impotência diante de algo que nada poderiam fazer – um punhado de gente contra um reino. Só um milagre salvaria Pedro, coisa que não acreditavam. Só que amavam a Pedro, e isso por si só já fazia daquele momento algo singular.

Esperar milagre é o que muitos fazem, continuar orando apenas com base no amor é para poucos. É a confiança que supera a confiança. É fácil orar quando se sabe que fatalmente irá receber, que tamanho terá, a que horas acontecerá, tempo de duração e ocasião, local e aparência. Tudo já terminado antes de se começar a pedir. Orar, quando as coisas são assim, é apenas um detalhe.

Agora, quando você ora meio no vazio, de quem faz isso por amor a quem sofre, e mesmo sem ver o futuro continua orando só pelo prazer de conversar com Deus sobre a vida, o medo, a dor do sofrimento do outro, mesmo sem entender muito, isso é diferente. É mais inseguro, porque ainda não foi dado, e não se sabe se será ou como será, mas em compensação não há um automatismo como um maquinário que engole e transforma gente em máquina feito “Tempos Modernos”. A oração não é uma produção em série, não tem seqüência numérica, nem registro de propriedade. Não tem carimbo ou manual. Tem no máximo um roteiro, uma espécie de mais ou menos, uma busca, um deslocamento da pessoa para Deus, um desejo, um sentimento profundo de amar, sofrer e se render. Quando se ora, a resposta já aconteceu, independente do resultado. Veio em forma de dependência, submissão e humildade. Já se fez presente como amor, embrulhado e pronto para ser degustado. Não tem botão para ser apertado, mas tem memória, recordação e esperança. Isso tem, e tem mesmo. Tem também um sentido de ausência, um sair do mundo, desligar-se, ocupar-se com Deus, somente com Ele e conversar sem pressa como quem tem muitas histórias e não suporta a ânsia de contá-las, mesmo quando já se sabe não serem novas para quem as escuta. São pretextos para uma conversa que se arrasta para a rua. Está no coração do motorista enquanto dirige, ou do pedreiro enquanto coloca a telha, do músico enquanto afina o instrumento ou da criança enquanto aprende. Está na paixão da dona de casa e mãe, enquanto trabalha e pensa nos filhos. Não há a necessidade de se aguardar uma resposta. A espera é mais saborosa que o acontecimento, e o problema mais interessante que a solução. Mostra que a gente não sabe nada. Depois fica fácil. Até parece que a gente já sabia, mas é necessário sentir-se perdido, para ser encontrado, e esperar a morte bater à porta para se saber o que é a vida.

Não acredito que a oração daquela comunidade tenha sido inútil, e não acho que uma pessoa deva deixar de orar só porque tem dúvidas sobre a sua própria fé. Oração é um modo de vida e se constitui, por si mesma, na própria resposta.

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

APENAS GRAÇA

Estava disposto a escrever sobre Sêneca, contemporâneo de Jesus: viver é tanto aprender a viver, quanto aprender a morrer. A vida é um aprendizado para a vida, mas é também um aprendizado para a morte. Daí voltei a Jó e encontrei uma contradição semelhante: viver em graça é aprender a sorrir e sofrer, viver e morrer.

Eu sei que há toda uma discussão sobre a datação do livro de Jó. Qualquer pessoa que tenha acesso a livros e críticas, ou mesmo uma conexão de internet, mesmo que discada, vai encontrar trocentos escritos sobre isso. A questão aqui não é a de você ficar desconfiado do texto, mas compreender que talvez o livro de Jó seja mais recente do que se pensava anteriormente e o debate sobre a graça, tema tardio e que já está presente nos profetas, seria o seu assunto principal. Enquanto a perspectiva da graça aparece como um dentre tantos temas na teologia profética, o livro de Jó parece ser todo voltado ao tema, mediante uma rara beleza poética. Tem mais: o profetismo é unilateral, do profeta para o povo. A graça em Jó tem um caráter interpessoal. Trata-se de uma conversa de gente comum sobre Deus e a miséria humana. Pessoas que se amam e se cuidam, na tentativa de encontrar uma resposta ao sofrimento humano. Seria possível um sofrimento sem causa?

Já passamos por Sêneca e chegamos a Jó. Antes que você pule de parágrafo e comece pelo avesso, preciso dar-lhe a pista de como é que se junta vida e morte, sofrimento e salvação, sob o domínio da graça. Isso parece um absurdo, eu sei. Quando você ouve falar sobre a graça, já sabe que virá algo nobre. Uma palavra próxima seria perdão. Pensou em graça, pensou em perdão, paz e descanso. Uma graça que aniquila a pessoa e que traz sofrimento, lágrimas, dor, perda de filhos, perda de tudo, definitivamente não pode ser graça. Eu sei que você pensa assim. Não se culpe, por favor. Também tenho dificuldade emocional de aceitar isso. Aprendi que tudo o que a gente faz, recebe de volta, seja bom, seja ruim. Daí a idéia de que nada acontece por acaso.

Não quero dizer que isso também não seja bíblico. Abro o texto e o que vou mais encontrar nele é a reflexão sobre os descaminhos de alguém, onde se perdeu, se fez bem, ou se fez mal, como morreu, onde e como foi sepultado, o que fazia e como vivia em época de crise, como enfrentou a morte, o que pensava sobre o viver o certo e se afastar do errado, as conseqüências dos erros – punição e cativeiro, escravidão como despojamento ou aprisionamento da vontade. Tudo isso eu leio e entendo, e por conta dessas coisas fico pensando que pouco sei sobre a graça. Recuso-me a entendê-la porque ela vai além de tudo isso e encontra sentido apenas no agir livre de Deus, coisa que não entendo. Sei o que é, mas não entendo.

Havia um motivo para o sofrimento de Jó? Pode ser que sim, só que nem mesmo Jó o encontrou. Seria pelo fato do ser humano ser limitado e pecador por natureza? Então Jó não seria culpado. Seria possível refletir um pouco mais e encontrar alguma coisa que pudesse justificar tal sofrimento? Isso sim, mas não o suficiente para explicar tudo o que Jó estava sofrendo. A punição fora descomunal e desproporcional. No pensamento de Jó, injusta. Jó só não perdera a vida, mas perdera o prazer de viver e viu o dia do seu nascimento como uma tragédia da natureza. Preferiria não ter nascido, mas nem isso o ser humano pode controlar. Preferiria morrer, mas não se morre por meio do desejo. Jó sabia de quatro coisas: sofria, nada poderia justificar tamanho sofrimento, Deus não castiga quem não merece e castigo de Deus não tem solução. Quando há uma causa, você a identifica, corrige e se libera do sofrimento. O castigo de Deus, em Jó, é como a dor que não está no corpo. É a dor que não tem explicação.

É aí que entra o conceito de graça no texto de Jó: é uma ação livre de Deus e não pode ser pensada a partir do que é justo ou injusto. Deus faz o que quer, do jeito que quer, para quem quer que seja, e não precisa de motivo para isso. Nem mesmo a vivência trágica do ser humano obriga Deus a tomar qualquer atitude. Deus é livre até mesmo da própria liberdade, e se aparentemente não for justo, não significa que tenha sido injusto. Justiça não é o contrário de injustiça, pois Deus está além destas coisas. Sofrimento não quer dizer punição, assim como a alegria não significa prêmio. Sofrimento e alegria não significam nada. Jó era justo e abastado, continuou justo na miséria. Seu pecado foi não compreender a graça. Graça é ação livre de Deus, e ponto final. A paz de Deus, que excede qualquer compreensão, porque é em graça, é a paz que não tem e nem precisa ser explicada.Não depende de alguma coisa, porque é imotivada. É apenas paz, portanto graça. O que vem de Deus não se explica, é graça. O que vem de Deus não se conserta, é graça. Deus não precisa explicar o que faz e como faz, e isso é graça. Não tem defeito de fabricação, já é perfeito antes de ser qualquer coisa. Já nasce certo, porque é graça.

Daí quando Jó diz que nu havia saído do ventre da mãe, se alegrado e sofrido, vivido e agora morria, tudo era uma questão apenas da graça. Deus dá e tira, sem explicação ou motivo. O que nos resta é bendizer o nome do Senhor. É uma expressão de reconhecimento da graça: vive-se e morre-se nela e por ela. Tanto a morte, como o sofrimento, não a diminuem. A vida não a aumenta. Para que seja abundante, será necessária uma nova ação em graça. Graça é apenas graça, inexplicável graça. O ser humano diante dela é nu, não tem e nunca terá nada. Vida e morte se encontram no mesmo ponto de partida: graça e apenas graça. Não há nada de errado em sofrer enquanto se vive, e viver enquanto se morre, pois tudo é graça.

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

O Livro esquecido

“Este é o vosso erro: não conheceis a Escritura, nem o poder de Deus” (Mateus 22.29)

Rick Warren, pastor-fundador da igreja Saddleback Valley Community Church, que fica na Califórnia, afirma em seu livro 12 Maneiras de estudar a Bíblia Sozinho, baseado em pesquisas, que em média um cristão norte-americano assiste 3h de TV por dia e lê a Bíblia cerca de 3 minutos.  A desproporção é muito grande, fica na relação 60 pra 1, ou seja, cada 60 minutos de TV, 1 min é dedicado a Bíblia. Se pensarmos no Brasil, provavelmente os números indiquem algo mais desagradável de saber.

Nosso papel aqui não é ter um tom moralista em nosso discurso de modo que as pessoas que lerem este texto se sintam ofendidas ou desmotivadas, estamos, apenas e meramente, constatando um fato: inúmeras pessoas que frequentam e são membros ativos nas igrejas não leem nem meditam mais na Bíblia. Por que será? Será que, como no passado, os cristãos evangélicos, podem ser chamados hoje de “os Bíblia”?!

Temos algumas hipóteses: o excesso de informações que recebemos sobre a Bíblia causa a falsa impressão que estamos tendo um contato sério, dedicado e disciplinado com ela. É comum que os cristãos evangélicos recebam em suas redes sociais diversos versículos e mensagem “baseadas” na Bíblia, e mesmo pregações todos os dias etc etc etc, então, este bombardeio de informações sobre a Bíblia causam esta sensação de que  o conhecimento bíblico que temos é muito grande e muito mais do que suficiente. Outra hipótese é que ao terem acesso a livros devocionais, com meditações diárias, os cristãos substituem a Bíblia por estes livros, que em geral, são de fácil e rápida leitura. Nada contra os devocionais, são muito úteis e inspiradores, mas um coisa é um livro comum, outra coisa é a Palavra de Deus que é espelho para o ser humano e tem o poder de quebrar os corações e transformá-los.

Outra hipótese é o esfriamento espiritual mesmo. Quando estamos demasiadamente famintos é natural que o mais rápido possível procuremos saciar esta fome. Se as pessoas estivessem com fome de Deus, iriam desejar saciar sua fome dEle, orando, lendo e meditando em Sua Palavra e servindo ao próximo. Mas muitos não estão fazendo isso. Estão adormecidos. Estão com os corações congelados.

A Bíblia não é só esquecida quando não é lida, mas também quando é lida de uma  maneira que ignore os ensinamentos do Senhor Jesus, desrespeitando-O. É fácil, infelizmente, encontrar pregadores que para manipular as pessoas leem e pregam a Bíblia com segundas e terceiras intenções.  Intenções de manipulação, barganha, controle, opressão e tantas outras motivações desprezíveis. Sendo Jesus, o Filho de Deus, o ápice da Revelação do Aba-Pai, Ele mesmo que é a chave de interpretação das Escrituras. Toda interpretação que confronte o caráter do Cristo deve ser abandonada.

Com certeza a maior desconsideração pela Palavra de Deus acontece quando conhecemos muito bem o texto bíblico, mas o rejeitamos na prática. Como aquele homem que Tiago relata em sua carta que se contempla no espelho e  logo se esquece da sua face. Não é incomum ter pessoas que são Bíblias ambulantes, conhecem de tudo: das histórias, dos personagens, das leis, das doutrinas, mas não sabem lidar com gente. Sentam-se para ler a Bíblia e levantam-se para ofender o seu próximo. Sentam-se para ler a Bíblia e levantam-se para ser violentos e agressivos com quem pensa e vive diferente. Sentam-se para ler a Bíblia e levantam-se para atacar, para julgar, para ironizar, para desejar o mal e para expressar opiniões tão distantes do cristianismo, que chegam a dar náusea.

Quais as implicações disso?

Quando o povo que se compreende ser de Deus, não conhece e não procura conhecer e crescer na Palavra de Deus os riscos são muito grandes. Jesus foi duro com os saduceus quando afirmou que por não conhecerem as Escrituras, fazem uma leitura errada da vida e tem dúvidas infantis e levianas. Não é a toa que atualmente tantas pessoas abandonam o Caminho de Jesus por futilidades. Falta maturidade bíblica, afinal, na Bíblia, existem recursos demasiadamente importantes para que o cristão tenha sabedoria para lidar com as questões mais complexas da vida e não só isso, ensina-o a se relacionar com Deus de maneira correta, e a não confiar em falsas promessas e premissas equivocadas sobre a existência e o impulsiona para crescer sempre no conhecimento desta Palavra e principalmente na sua prática.

Desprezar esta fonte de riqueza espiritual é agir como tolo, é como ter um banquete guardado em casa e mesmo assim morrer de fome. É bom lembrar que só conhecer a Bíblia não basta, é preciso tornar conhecimento em prática de vida. Vale lembrar ainda que o mais importante da Bíblia é que ela, do começo ao fim, aponta para Jesus Cristo, é meditando nela que podemos conhecer mais dEle, sua obra, salvação, sua missão, seu discipulado, seu povo, seu Reino e assim nos inserirmos humildemente neste preciso projeto celestial.

Portanto, não trate com menosprezo este Livro que cristãos do passado guardaram com a própria vida e que cristãos de lugares onde a igreja é perseguida só o têm em pequenos pedaços ou talvez só na memória. Não haja com indiferença em relação a este tesouro tão precioso. Não morra de inanição perto da Casa do Pão. Não leia a Bíblia de uma forma que o leve a ranger os dentes contra o seu próximo. Medite na Palavra com constância e disciplina e permita que o Deus desta Palavra o transforme a cada dia. Pela misericórdia de Deus, leia a Bíblia no Espírito de Jesus. Amém!

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Laurencie Salles
Sou uma simples pessoa que encontrou a vida por meio da graça de Deus, e esta magnífica graça tem um nome: Jesus Cristo. A partir de Jesus de Nazaré minha identidade é construída, meus papéis de marido, pai e filho, professor e cidadão são exercidos, e minha vocação pastoral é cumprida. Sou alguém amado graciosamente por Jesus e fora Dele não existe nada em mim que tenha valor ou sentido.
Minha formação é na área de Matemática, pela UFSCar (graduação e mestrado) e em Teologia, pela Faculdade Batista de Campinas, convalidado pelo Centro Universitário Clarentiano, com especialização pela FLAM/UNIFIL e especialização em Ética e cidadania pela USP/UNIVESP.

MATURIDADE PARA AS CRISES

As crises são inevitáveis na vida de qualquer ser humano. Algumas podem ser evitadas e devemos estar atentos para não nos “metermos” em crise por nossa própria conta. Mas existem outras crises que independente do que façamos elas irão nos alcançar. Como uma crise econômica, um desemprego, uma morte, doenças e etc.

Mas seja qual for a fonte da crise – nossa culpa ou infortúnio da vida – devemos estar preparados para lhe dar com elas. Até mesmo para saber identificar se é uma crise que nós geramos e que podemos aprender para não mais provocar um problema deste para a nossa vida, bem como identificar se é algo em que não temos muito controle, mas que de qualquer forma vai nos atingir e precisamos saber como agir.

Outra perspectiva sobre a crise é que possuem muitas questões que só conseguimos aprender se passarmos por elas. Entendo que a maior parte delas podemos aprender com os erros e acertos de outros, mas tem algumas que precisamos inevitavelmente passar por elas para aprender como lidar de fato com tais.

Para podermos lidar melhor com as crises a maturidade é algo de muito valor para a superação e aprendizado. Ser um homem maduro e uma mulher madura requer algumas coisas, mas quero pontuar duas delas que entendo serem muito importantes: tempo e sabedoria.

O que quero dizer com tempo e sabedoria para a maturidade é que ambas estão relacionadas e para podermos aprender com as crises elas precisam estar ligadas. Conheço algumas pessoas (e você também deve conhecer) que são muito experientes na vida em relação ao tempo, com muitos anos vividos, muitas experiências na caminhada, mas que têm pouca sabedoria. E também conheço pessoas que são novas de idade, mas já passaram por algumas poucas experiências, mas que têm uma sabedoria de vida melhor que muitos idosos.

Geralmente quem é mais velho adquire, quase que naturalmente, uma sabedoria de vida. E com sabedoria, quero dizer: saber viver. Mas existem algumas exceções que nos mostram que o tempo e a sabedoria podem construir um nível de maturidade suficiente para experimentar as crises sem querer fugir delas. A maturidade nos ajuda a aprender com a crise para que em uma próxima estejamos mais preparados para agir e/ou reagir.

A importância dos mais novos darem atenção aos mais velhos faz parte da maturidade para que os mais novos possam aprender com a jornada de vida dos mais experientes. Assim como os mais velhos estarem atentos aos mais jovens também os ajudam na maturidade já que nesta idade a lembrança do que viveram mantém também a mente sã.

Portanto, tem situações que precisamos dar tempo ao tempo. Que não podemos fazer muitas coisas a não ser aguardar o tempo ir ajeitando as coisas e em outras temos que agir, mas com uma sabedoria de vida para alcançarmos um nível satisfatório de maturidade, pois “é preciso saber viver” (Roberto e Erasmo Carlos).

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Mateus Feliciano
Seguidor de Jesus Cristo desde 1991; marido da Carol Lourenço desde 2010 e pai da Clara desde 2016; nascido em Santo André-SP desde 1982 e morando em Campinas desde 2003. Formado em administração, teologia e pós graduado em exposição bíblica. Coordenador da Seara Urbana ONG de recuperação de moradores de rua desde 2006; Pastor na IBBG, da REDE (IBBG Jovem) e do HELP (Ação Social); Professor na Faculdade Teológica Betesda nas áreas de teologia, missiologia e eclesiologia; Professor de missões urbanas e discipulado na JOCUM; Membro da FTL-Fraternidade Teológica Latino Americana.