MEDITAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO

Na tua Palavra quero minha vida inteira debruçar
Tendo a fé para saber que nela o Senhor vai falar
Mas não como uma conversa rápida e apressada
Quero nela meditar com a motivação necessária

Dedicando tempo e coração pelas frases correndo
Cada verso lido como um som da tua voz dizendo
Não simplesmente buscando o que eu quero ouvir
Mas com a alma saber de Ti do que preciso em mim

Não posso achar que estou apto e me acomodar
Preciso para dentro da minha existência me lançar
Para poder me enxergar e no que preciso mudar
E sei que a Tua palavra fiel pode nisto me ajudar

O Senhor é suficiente em mim para o meu respirar
E não só para esta vida, mas quando dela me retirar
São certezas que a Tua Palavra dá ao meu coração
Para que na meditação eu possa ter transformação

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Mateus Feliciano
Seguidor de Jesus Cristo desde 1991; marido da Carol Lourenço desde 2010 e pai da Clara desde 2016; nascido em Santo André-SP desde 1982 e morando em Campinas desde 2003. Formado em administração, teologia e pós graduado em exposição bíblica. Coordenador da Seara Urbana ONG de recuperação de moradores de rua desde 2006; Pastor na IBBG, da REDE (IBBG Jovem) e do HELP (Ação Social); Professor na Faculdade Teológica Betesda nas áreas de teologia, missiologia e eclesiologia; Professor de missões urbanas e discipulado na JOCUM; Membro da FTL-Fraternidade Teológica Latino Americana.

ORAÇÃO QUE BROTA DA DOR

O sofrimento tem sido neste terceiro milênio um assunto muito debatido e discutido. A sociedade urbana globalizada em geral tem um posicionamento de evitar o sofrimento. É claro que ninguém quer sofrer e que é quase como um extinto humano rejeitarmos e fugirmos do sofrimento.

Mas o sofrimento tem algumas faces que precisam ser identificadas para que possamos saber lidar com os tipos deles existentes.

Tem sofrimento que a própria vida nos reserva. São situações que acontecem com praticamente todo ser humano pelo menos uma vez na vida e em muitos acontecem muitas vezes na caminhada por este mundo. São questões que na maior parte das vezes não temos responsabilidades por entrarmos. Quando estamos dirigindo de maneira correta e batem no nosso carro, quando saímos de casa e apesar de ela estar segura é assaltada, quando contraímos uma doença mesmo nos cuidando bem e etc.

Outro tipo de sofrimento é aquele que nós mesmos geramos. São acontecimentos em quê a responsabilidade era totalmente nossa. Quando ofendemos alguém por estarmos bravos, quando cometemos algum crime e somos pegos, quando administramos mal nosso dinheiro e entramos em crise financeira e etc.

Independente de qual seja a fonte do nosso sofrimento, é fato que ela gera dor em nós e muitas vezes em outros também. E esta é uma grande questão em que deveríamos refletir mais na nossa vida: Como lidar com a dor?

Com dor não estamos querendo dizer apenas das dores físicas, mas principalmente das dores da alma. Nesta geração aonde a dor e o sofrimento têm sido tão combatida, fica difícil encarar a dor como algo inerente na vida e que nos ajuda a crescer. Mas esta é uma maneira sábia de lidar com a dor e sofrimento. Saber distinguir aquela dor que nós mesmos geramos e que não precisaríamos ter gerado, da dor que é normal na vida de qualquer ser humano.

Para quem tem uma espiritualidade que lhe faz ser lançado para a oração pode dizer na sua vida de oração como a dor e o sofrimento é em muitos casos o combustível para as orações mais sinceras e profundas que já se teve. Quem sofre, mas tem um Deus para compartilhar da dor, consegue encontrar em Deus um refúgio seguro para poder descansar das dores e dos sofrimentos que por vezes atormentam a alma angustiada do que sofre.

As orações mais marcantes na vida de um devoto não são aquelas de agradecimento por alguma alegria que viveu de reconhecimento de quem é este Deus e etc. A oração mais profunda de um ser humano é aquela oração que brota da dor.

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Mateus Feliciano
Seguidor de Jesus Cristo desde 1991; marido da Carol Lourenço desde 2010 e pai da Clara desde 2016; nascido em Santo André-SP desde 1982 e morando em Campinas desde 2003. Formado em administração, teologia e pós graduado em exposição bíblica. Coordenador da Seara Urbana ONG de recuperação de moradores de rua desde 2006; Pastor na IBBG, da REDE (IBBG Jovem) e do HELP (Ação Social); Professor na Faculdade Teológica Betesda nas áreas de teologia, missiologia e eclesiologia; Professor de missões urbanas e discipulado na JOCUM; Membro da FTL-Fraternidade Teológica Latino Americana.

VAMOS FAZER FILHOS!

Não adianta os jovens e adolescentes ficarem entusiasmados. A conversa não é com vocês, sinto muito. Nem com os solteiros e separados. Daí um morador do meu condomínio disse: tô perdido – minha mulher inventou de ficar grávida! Claro que é uma conversa machista, de quem pensa que mulher se engravida por conta própria. Apesar do mau humor – dele é claro, pois eu estava numa manhã de bem com a vida – dei os parabéns. Com um sorriso amarelo, ele disse que o outro filho já estava com onze anos. De fato, recomeçar tudo de novo, com direito a cólicas, fraldas, papinhas e perder a mulher por um tempo ocupada exclusivamente com a cria, desestimula qualquer um que vive no tempo da ditadura do conforto. Nada que dê trabalho. Você pensa quinze vezes antes de dispensar um funcionário, se preocupa com a família dele, e se surpreende com a felicidade daquele que vai ficar em casa sem fazer nada sem se sentir culpado. Justifica que o motivo é de força maior, e vamos ver a sessão da tarde em plena segunda-feira. A gente só aceita a quebra de ritmo, se for pra menos. Quebra de ritmo pra mais, não é quebra de ritmo, é o vislumbre de agonia.

Deixe o meu vizinho com o machismo dele, que eu vou aqui defendendo o meu cantinho, num estímulo contrário ao discurso de todo mundo: vamos fazer filhos, minha gente! Se você pensa que estou sendo bonzinho, pode tirar o cavalo da chuva. Estou sendo bastante egoísta, porque estou pensando que, sem filhos, não se comemora o dia dos pais (nem das mães). Antes o dia dos pais (e o das mães) era uma festa só. Teve uma vez em casa que resolvemos dar um caminhão de presentes para a minha mãe. Deixe-me explicar que caminhão aqui é apenas uma metáfora, um dizer de excesso, um montão. Pois é, todos pobres, pouca alimentação e pouquíssimo, ou como diria o Chaves, poucossissíssimo dinheiro. Enchemos a mesa com tudo aquilo que mais tarde abasteceria o mercado de um e noventa e nove. Naquele tempo tais lojas não existiam. Colocamos tudo em cima da mesa da cozinha para que ela se assustasse com o nosso carinho pela manhã. Não sei se ela chegou a se levantar de madrugada e antecipadamente soube da surpresa. Se foi assim, fez muito bem o papel de quem ganha alguma coisa e não desanima quem deu – ficou pasma! Ponto pra nós. Depois foi a vez da macarronada, Tubaína e guaraná Santana. Uma festa só: sete filhos em volta de uma mesa comemorando o dia de quem nos dera a vida.

Que pena! A mesma vida, impulsionada por toda a tragédia que tem rondado o mundo e seu crescimento demográfico, está ameaçada de extinção ou de diminuição. Ainda tem o avanço da medicina que tem sido extremamente importante para cuidar dos que têm dó de morrer, acrescentou mais dias aos que já têm vida. Estes não querem ceder espaço e tempo para os que sequer podem expressar os seus desejos. Não se deve dividir nada com um outro, especialmente se a gente tem a opção de não permitir que nasça. Vivíamos numa miséria em casa, dava até dó. Sou o quinto filho e nos tempos atuais não teria a menor chance. Passei fome, mas gostei de ter nascido.

Você vai achar que estou exagerando. Sou pastor, tenho autorização para ser exagerado; faz parte da minha natureza. Talvez você seja um daqueles que acredita que a vida tem que rodar com menos sofrimento, com menos fome no mundo, com mais emprego já que o crescimento demográfico é uma tragédia para a economia. Tá certo: dou a mão à palmatória. Só que o dia dos pais, no plural e na multiplicação, está ficando mais curto, no singular e na subtração. Está ficando triste. A igreja está ficando triste. Sumiram as crianças barulhentas que traziam carrinhos à pilha ao culto, com direito à sirene de polícia e de ambulância. Onde estão as crianças andando pelos corredores da igreja? Aquela sala cheia de cabecinhas, trancinhas, chiquinhas e cabelos cortados no modo americano? Sala cheirando a suor pela correria que marcava o início da escola dominical. Berçários lotados que mais pareciam a produção da Ford: era um atrás do outro. Salas decoradas, brinquedos pelo chão, chupetas encontradas pelo caminho, e muito choro, aquele barulho que ainda cheira à vida, na liberação da angústia do existir, ecoando e penetrando como se fosse toque prolongado e agudo de uma corneta que fazia gemer as cartilagens dos adultos. Não tinha quem não se incomodasse. Hoje já não incomodam mais. Conseguimos impor o cheiro do nosso mofo ao perfume das fraldas, o nosso silêncio sepulcral aos gritos rápidos de alegria de quem corre sabendo que vai sendo perseguida pelo pai que, num dado momento, a fará voar para três, talvez quatro vezes mais a sua própria altura. É o vôo da liberdade, e da segurança. É impossível não mostrar a banguela e o dente solitário.

A vida está ficando chata, porque ser adulto é ser chato. A gente não voa, não caminha pelos corredores, nem sai correndo para o início das aulas. Não tem cheiro de suor – aaaggghhh, que coisa nojenta! Só que é a gente que decide que quem não nasceu, não vai nascer. E ficamos mais tempo do que deveríamos, ocupando um lugar que já não é mais nosso. Mas quem em sã consciência é capaz de concordar com isso? Viemos no bico da cegonha, mas não queremos chegar ao bico do corvo. Nem tudo o que tem bico, penas e voa, faz parte dos nossos sonhos. Esticar a vida e o conforto também é lutar pela sobrevivência. Ficamos espertos nisso.

Minha campanha é legítima: vamos fazer filhos! Distribuir vida, apesar de não ser nossa. Produzir esperança e recriar um paraíso, senão o bíblico, pelo menos um tipo para o qual não falte jardineiro. Quero que no futuro o dia dos pais não seja extinto por falta de candidato.

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

PAI NOSSO

“Pai nosso, que estás nos céus!
(Acima de tudo e de todos, mas que mesmo assim nos olha)

Santificado seja o teu nome.
(Tu és Santo não porque dizemos, mas porque tu És)

Venha o teu Reino;
(precisamos dos valores do teu Reino perfeito em nossas vidas)

seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.
(O que o Senhor deseja é sempre o melhor para nós)

Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia.
(sabemos da tua fidelidade em cuidar de nós, nos ajuda a confiar em ti)

Perdoa as nossas dívidas,
(nos ajuda a reconhecer nosso pecado para que recebamos o seu perdão)

assim como perdoamos aos nossos devedores.
(nos ensina a perdoar como o Senhor nos perdoa)

E não nos deixes cair em tentação,
(a tentação é uma tentativa de nos fazer pecar, nos ajuda a não cair nesta armadilha)

 mas livra-nos do mal,
(só o Senhor tem o poder para vencer o mal e que ele não nos domine)

 porque teu é o Reino, o poder e a glória para sempre.
(o Senhor é soberano sobre tudo e todos por toda a eternidade)

Amém.”
(que tudo isto seja verdade em nós)

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Mateus Feliciano
Seguidor de Jesus Cristo desde 1991; marido da Carol Lourenço desde 2010 e pai da Clara desde 2016; nascido em Santo André-SP desde 1982 e morando em Campinas desde 2003. Formado em administração, teologia e pós graduado em exposição bíblica. Coordenador da Seara Urbana ONG de recuperação de moradores de rua desde 2006; Pastor na IBBG, da REDE (IBBG Jovem) e do HELP (Ação Social); Professor na Faculdade Teológica Betesda nas áreas de teologia, missiologia e eclesiologia; Professor de missões urbanas e discipulado na JOCUM; Membro da FTL-Fraternidade Teológica Latino Americana.

NINGUÉM É GENTE

Voltei à escola pública. Encontrei um ex-aluno e amigo numa unidade da periferia, olhou-me desconfiado, desejando saber o que eu fazia por lá num dia de semana à noite. Deu um sorriso meio de canto: Esse não é o seu lugar! Sua voz saiu numa afirmação decrescente, como se desejasse sussurrar a palavra “lugar”. Certamente dava à decepção um tom dramático. Não observei na fala qualquer reprovação. Tinha uma cadência mais para triste. Talvez pensasse que eu seria mais útil ministrando aulas de Teologia, quem sabe Novo Testamento, Filosofia da Religião, Teologia Contemporânea, História da Teologia, Teologias do Antigo e Novo Testamento, mais Antigo que Novo, uma das minhas paixões, crítica literária, crítica da forma, história das tradições, ou até mesmo Hermenêutica, na nova leitura pelos caminhos da metáfora e imaginário simbólico presentes na literatura do mundo antigo.

A conversa foi no início do início, antes da minha reestréia na escola pública. Quando da minha despedida, no começo dos anos 90 do século passado (para parecer mais distante), pensei que jamais voltaria. Ouvi atentamente a palavra amiga, como um elogio. Talvez não fosse. Também sorri. Não disse nada, e entrei pelo caminho de uma conversa sem importância. Não mencionei a minha paixão pela escola pública. Lugar da liberdade e do livre pensar, coisa rara, daí a razão pela qual os relacionamentos lá são tão complicados. Ainda não sabia qual seria a minha reação com o retorno depois de tantos anos. Também estava curioso, até um pouco inseguro. Iria encontrar um novo adolescente, muito diferente daquele no perdido início dos anos noventa, que a essa altura, possivelmente, muitos já seriam avós.

Voltei para casa depois da primeira re-experiência, como um ex-recruta. Fui recebido com um certo tom de humor: E daí, como foi? Havia sido muito bom. A minha disciplina, num projeto de inclusão, é ética e cidadania, que nada mais é do que conversar sobre os valores da vida. Naquele dia havia contado ao alunos a minha história. Falei-lhes do rito de passagem que havia em casa para os meninos, quando estes completassem doze anos: ganhar do pai uma caixa de engraxate, feita de madeira aproveitada de caixa de laranja, equipada com uma pasta Nugget preta, outra marrom e outra incolor, escovas para cada uma delas e trapos de roupas velhas. A caixa tinha uma “portinha” com dobradiça de couro, já que uma outra seria muito cara, e uma lingüeta como tranca. Falei-lhes dos dois ou três quilômetros de caminhada, descalço, até a praça central, pelo calçadão da Paulista, a batida da escova na lateral da caixa para o “cliente” colocar o outro pé, a escova desgastando o excesso para o brilho, com maestria, como se fosse uma batuta. Finalmente o toque do pano sobre o calçado, ora suave, ora agressivo, como uma sinfonia. Os alunos escutavam. Formavam um círculo ao meu redor, ninguém escrevia nada, os cadernos fechados, os livros também, os olhos abertos perguntando se tudo era mesmo verdade. O que significa ser doutor, professor?– e lá vieram mais histórias sobre a memória da vida, os cadernos feitos com papel de pão e o sorvete de garapa dos inimagináveis anos 60.

Senti-me como se tivesse redescoberto algo que jamais deveria ter esquecido. Adolescentes pobres, que olharam o meu velho computador, e bota velho nisso! – Da hora seu computador professor! Acessa a internet? Depois soube dos pais separados, das meninas que já têm filhos, dos que tiveram passagem pela polícia, dos que não conseguem parar de falar, do lugar onde moram, ruas sem nada e de mulheres que roubaram os maridos de outras e vivem quase no mesmo endereço, do mesmo lado da calçada. Padrastos, madrastas, namorados da mãe, namoradas do pai, os outros filhos do meu pai, os outros filhos da minha mãe, ou do pai do meu irmão, do meu segundo irmão porque o primeiro tem ainda um outro pai, do irmão preso, do tio traficante, a espera do primeiro período de aulas para comer um bolinho inglês seco (e tinha que ser tipo europeu). Come-se um e outros trinta vão escondidos em bolsa, bolso, debaixo da camiseta rasgada, mas não faltava o boné, nem a bolsa cor-de-rosa de um sintético barato. Havia ali médicos e médicas, fisioterapeutas, advogados e até estilistas, profissionais que dificilmente irão além do segundo grau, uns acabarão nas ruas, outros verão os sonhos declinando como um sol que se cansou do dia.

A vida é isso, bruta, real e doída. Ela se desenrolava enquanto eu havia estado em reclusão tentando compreender a cultura do mundo antigo e a filosofia existencial. Numa das noites, olhei pela janela e perguntei: Que estrada é aquela que passa lá embaixo? Um aluno respondeu sem olhar: É a Band, professor. Voltei a perguntar: E os bairros? Aí todos responderam como se fosse um coro: é o DIC, o Ouro Verde, aqui mais pra direita. Pensei: Como será o DIC? A minha missão é de ser uma voz às nações, e eu não sei nem o que significa “DIC”; não me lembro de ter passado por lá. A sombra da noite, e o pó do vidro sobrepunham o meu rosto às luzes, de tal forma que eu não sabia se estava olhando para fora ou para dentro.

Belchior diz que ninguém é gente. Não quer dizer que não haja pessoas no mundo, mas exatamente o contrário: os esquecidos, aqueles que para nós não passam de ninguém, são na verdade gente anônima considerada nada. Éramos povo, e agora somos massa, disse Camus. A massa esconde os ninguéns que deixam de ser pessoas e passam a ser estatística de desempregados, analfabetos e excluídos dos processos sociais. Os discípulos de Jesus, que formaram a primeira igreja cristã que se tem notícia, achavam no início que só eles eram gente (Senhor, restaurarás tu neste tempo o reino a Israel?). Depois Pedro achou que Cornélio era ninguém. João Batista descobriu-se apenas como uma voz, e Paulo entendeu que o ninguém era ele mesmo. É preciso ser ninguém para se tornar gente. Não sei o que é ser pastor, para quem não foi engraxate, nem andou descalço. Foi bom ter voltado. Não sei dizer se eu era professor ou aluno.

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

UM SONHO PERDIDO CHAMADO CÉU

Uma aluna me perguntou: se o que a gente vê não é o céu, o que significa aquele azul? Não era uma criança, mas tratava-se de uma pessoa adulta, moradora de um bairro pobre de Campinas. Tentei falar-lhe sobre a imensidão e o vazio onde a vida está plantada, que o “céu” no sentido religioso tem um outro sentido. Ela olhou-me com a cabeça torta, enxergando a própria sobrancelha, perguntando com os olhos e respondendo pela incompreensão, curiosa sobre a possível diferença entre uma coisa e outra. Fazia já muito tempo que uma pessoa não me perguntava sobre o céu. Mais que isso, alguém que entendia o céu como um algo acima, como os antigos, e tinha que estar acima para ser melhor. Acho que o céu é uma espécie de sonho perdido.

Se você me perguntar o que está acontecendo, talvez não saiba responder, embora tenha a obrigação de fazê-lo. Houve um tempo quando o céu era uma ameaça à conscientização das reais condições da tragédia humana. Ninguém se esquece da religião como ópio do povo. Quem vivia o céu, vivia fora da realidade. As virtudes cristãs, como o amor, o respeito à vida e a dependência da justiça divina, por exemplo, enfraqueciam a luta humana em favor da justiça social, esta só seria alcançada mediante a declaração de um conflito de guerra: trabalhadores do mundo, uni-vos! Pensar o céu era esquecer a vida.

Havia uma razão para isso. O céu não vinha sozinho. Não se tratava apenas de uma esperança solta, deslocada, solitária, como que desvinculado de outras coisas. Nada disso. O céu era o horizonte do final feliz. No seu encalço estava todo o discurso cristão, com o seu fundamento estóico de desapego à vida, temperado, curtido e assado lentamente pelo perdão, humildade, esperança e fé, tudo junto. Essas coisas não prejudicavam o sabor do céu, mas o enriquecia. Faziam dele algo mais do que um estar apenas depois da vida. Era antecipado e degustado enquanto preparado. Nunca vi um prato ficar pronto antes de estar pronto. Com o céu era diferente. Já estava pronto quando inacabado, e depois de pronto ficaria igual ao que era antes. E a gente vivia a vida cristã comendo um pouco de céu por dia, e ele não diminuía, mas aumentava. Aumentava também a curiosidade sobre o pronto do pronto, e a gente sonhava e gostava de dormir só para continuar sonhando.

É claro que não era só isso. As ameaças da vida eram reais. Vivíamos aquele discurso de que as coisas estariam de fato no final. Aquele imaginário cruel do mil passará, o dois mil não chegará, guerra-fria, Vietnã, ditaduras militares na América Latina, as notícias solenes dadas em tom gutural por atores-repórteres sobre os conflitos no Oriente Médio, Egito contra Israel, Israel contra Palestinos, Kadafi contra o resto do mundo, e o que mais se falava era do Armagedom. Isso arrepiava qualquer um. Estávamos apenas esperando o quando.

O fim não veio, o milênio passou, Woodstook virou história. Id Amin também. Os militares estão de pijama e vão bem, obrigado. Kadafi caiu no esquecimento e a Líbia só é lembrada quando alguém, por acaso, observa o mapa em busca da Europa e tropeça com os olhos no caminho.

O fim não veio, mas o céu se foi. O perdão perdeu o seu caráter de esperança e se transformou em convivência. A fé mudou o seu objeto, e já que o céu não veio como a gente sonhava, um tinha que morrer: ou o sonho, ou o céu. Te dou um doce se adivinhar o que aconteceu. Matamos o céu. Foi simples: mudamos o seu “conteúdo”. Criamos um céu sem céu, virou seu, e o discurso assumiu o caráter de céu de vida boa, carro novo, casa nova, emprego novo, céu que virou sucesso e se escondeu no armário vestido de terno ou de Victor Hugo. A esperança ficou tímida. Quase não se fala mais dela. A humildade, sinônimo de pobreza, desavergonhou-se por completo. Ela precisava morrer também, tinha que virar outra coisa, nada de coisa pobre, afinal pobre gosta de dinheiro, quem gosta de miséria é intelectual. Daí a humildade foi transformada em sentimento. Faz algum sentido a humildade ser sentimento? Humildade pra mim é o desapego a tudo o que pode dar ao ser humano a condição de ser o dono do mundo, como se dele, e somente dele, viesse a felicidade e o desassossego. Vender tudo o que tem e dar aos pobres, ficar sem nada, nu, apenas pessoa, nada mais que pessoa, como veio e como irá, sem mais, nem menos, o retorno ao pó se desejar ser bíblico, pensar um pouco e responder a questão que até hoje pouca gente sabe o que fazer com ela: louco, esta noite te pedirão a tua alma, e o que tens preparado para quem será? Pergunta boa essa! Se você ainda não sabe, é uma pergunta pelo céu, pelo depois, a esperança que virá, o futuro que não é e que não faz parte de nenhum planejamento de vida, não tem concurso. Ruptura completa com tudo o que é de mais sagrado: liberdade, valores, pensamentos, conhecimento, amigos, parentes, trabalho, bens, estilo de vida, e a lista não tem fim, recebendo como marca e coroa um tremendo ponto final, bem redondinho, indefinível, como um esquecido no final da linha, ou no início de uma reta, quase não dá pra enxergar, parece mais um escorregão da caneta, e a gente só o vê por causa da letra maiúscula no começo de uma nova oração. Tanto faz ser uma oração depois do ponto, ou uma oração depois da vida: tudo é sonho de um novo começo.

Eu não gosto disso, nem um pouco. Não gosto do céu que criamos, nem da humildade burguesa que virou sentimento (coisa ridícula!). O céu tem que ficar lá, onde sempre esteve. Tem que ser a esperança, tem que ser a nova oração iniciada com letra maiúscula, depois do ponto, travessão noutra linha e parágrafo: uma outra conversa. Aquele céu que está lá, ainda precisa continuar regendo a nossa vida de cá. Lá tem que estar o desejado e perfeito belo, a desejada e perfeita virtude, a desejada e perfeita vida, a desejada e perfeita alegria, a plenitude perfeita do que é mais puro e sublime. O céu que criamos, feito de botox e silicone, pra mim não serve. É pálido. Era só o que me faltava, um céu com cara de Michael Jackson.

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.