RESSURREIÇÃO E VIDA

Quem pode explicar a ressurreição? Este talvez seja o um dos grandes erros de gente que acha que tudo na religião, ou mais precisamente no cristianismo, necessita de explicação. Já teve gente achando que a ressurreição é uma questão psicológica, interna de cada um, depende de quem crê, ou ainda que a ressurreição acontece todos os dias. Outra besteira é colocar a ressurreição apenas do ponto de vista físico: mostrar a impossibilidade de um corpo voltar a ter vida, o cérebro funcionar novamente, etc. A ressurreição não é um problema de estudo da psicologia, nem da medicina. A ressurreição é um problema religioso, teológico, e só a teologia é capaz de lidar com ela.

Isto porque a Bíblia não está preocupada com estas coisas. O milagre da ressurreição não foi o de Jesus voltar da morte física. Isto parece claro porque o próprio texto bíblico diz sobre outras pessoas que ressuscitaram, e não tiveram tanta importância como Jesus. Pode ser dito que os demais, em relação a Jesus, voltaram a morrer. Só que isso não é suficiente, porque seria o mesmo que colocar a ressurreição de Jesus ao lado das outras: igual, mas com um pouco a mais de qualidade. Isso é diminuir a ressurreição.

Ressurreição é outra coisa, e é mais do que um milagre. Seria necessário um esforço de sua parte na tentativa de compreender a expectativa gerada a partir do ministério de Jesus. Foi um ministério singular, resgatou o valor da vida, mostrou a precariedade do sistema religioso da época, a opressão e vida do pobre, a miséria social, econômica e moral. De repente, tudo acabou, Jesus morreu. Não poderia ter morrido, mas morreu. Poderia ter chamado anjos, mas não quis. Poderia ter dado um jeito para não sofrer tanto, ou morrer tanto, mas não fez, não quis, não mudou. Morreu e deixou-se morrer. Vivo poderia continuar a tratar da injustiça social, da fome, do pobre, e reformar a religião decadente. Poderia, mas não quis, morreu e morreu mesmo. Vivo seria um líder, poderia tomar o poder dos romanos, poderia promover uma “guerra santa”. Só que morreu, e morreu mesmo. Se a ressurreição fosse uma questão de dar vida a um corpo físico, Jesus voltaria para continuar a sua reforma social e política, e mostraria que o seu poder seria suficiente para vencer a própria morte.

Nada disso, Jesus ressuscitou e foi embora. Passou um tempo conversando com este ou aquele, grupo pequeno ou grande, e depois foi embora. Não fez mais nada de novo, não reassumiu o que havia deixado, não voltou só por voltar. Aliás, não voltou. Foi embora. Não tinha mais nada para fazer, tudo estava feito, completo. Não resolveu tudo, porque não viveu para resolver tudo. Também não ressuscitou para completar o que não tinha conseguido fazer antes da morte. Antes da morte, fizera tudo o que precisava ser feito, não tinha qualquer necessidade de voltar ao mundo “físico” para continuar nada. Só ressuscitou, e foi embora. Se tivesse continuado teria sido um testemunho e tanto, andando de novo em Jerusalém, depois que a cidade o vira caminhar com a cruz nas costas. Só que isso, por mais milagroso que pudesse ser, ainda seria reduzir o significado da ressurreição.

A ressurreição é mais do que isso. Mais que um milagre é a recriação de um novo princípio. Uma recriação que faz João reescrever o Gênesis: No princípio era o verbo… É a mesma coisa que: No princípio criou Deus os céus e a terra. É a vida de novo, mas uma vida diferente. Antes uma vida que vivia para a morte, agora uma vida que vive para vida. É como se fosse um superlativo de vida, algo sem fim, sem medo, sem destino trágico, sem a angústia do ter que morrer. É vida, simplesmente vida. Vida para além da vida, apenas vida e só vida. Depois da vida, vida que não tem morte. Por isso Jesus não teve o que fazer, apenas ir embora. Tudo estava completo, não porque havia um corpo, mas porque havia vida. A expressão registrada no Evangelho de João de que Jesus veio para termos vida, e vida abundante, deve ser compreendida neste sentido. João relata muitos sinais que Jesus fez, a começar por transformar a água em vinho. Nenhum outro Evangelho registrou tantos milagres, tantos sinais. A ressurreição não foi um sinal a mais, foi a instauração da vida, vida livre, afastando por completo a ameaça da morte.

A pergunta que se faz não é se a ressurreição seria possível ou não. A pergunta deveria ser: o que tanto de vida há na ressurreição? Esta tem como resposta a profundidade da vida. Não se sabe o que é vida, como não se sabe direito o que seja ressurreição. Só a impossibilidade da ressurreição leva ao mistério da vida sobre vida, ou graça sobre graça, como preferiu João. Não tem tamanho, nem ameaça, nem morte, apenas abundante. O que já era imenso, sem medita ou limite, chamado vida ficou ainda maior, ficou abundante. Só a ressurreição pode explicar isso.

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

PERDÃO: INGREDIENTES, DATA DE FABRICAÇÃO E PRAZO DE VALIDADE

Eu sei que você não gosta dessa conversa, mas perdão tem prazo de validade. Você prefere o setenta vezes sete, mas isso não se refere ao tempo, mas à quantidade. E se acontecer de novo, igualzinho, sem tirar nada, como fica? Não fica. Em termos de quantidade o perdão não tem limite. O negócio é munir-se de paciência, agüentar firme, burilar as emoções, cuidar dos sentimentos e perdoar – again, again, again.

O prazo de validade do perdão está no Sermão do Monte. Como sabemos, o Evangelho de Mateus foi escrito em época de perseguição, e quase tudo nele tem esse sentido, e tinha que começar com as bem-aventuranças: a felicidade acima da conta em tempo de morte. Ser bem-aventurado é a condição daquele que suporta todas as adversidades, é perseguido, enfrenta uma guerra, mas promove a paz, dedicando-se à defesa da fé com uma total pureza de coração, e o resultado é ver a Deus. Os bem-aventurados também são os mesmos que esperam a justiça perfeita e que não irá tardar; choram as suas dores, e já podem viver a plenitude da felicidade, porque serão pastoreados pessoalmente pelo Senhor. Ser humilde de espírito e manso de coração são os desafios em meio à tragédia da vida, mas o resultado é a bem-aventurança da conquista de um reino e a herança de uma nova terra. Observada por essa perspectiva, a perseguição é um privilégio de poucos e motivo de regozijo, especialmente se for absolutamente injusta, permeada de mentira: a injusta fica mais injusta, e a alegria fica mais alegre. O ser sal não seria outra coisa senão o viver a plena felicidade: beber e se lambuzar do tempo da bem-aventurança durante a travessia da plena turbulência e perseguição. Não adianta querer se esconder: todo discípulo verdadeiro é luz do mundo, vai ser visto e perseguido, as boas obras irão iluminar até quem os persegue, os quais ficarão se perguntando: qual o significado disso? Não é uma questão de fuga. Trata-se da natureza do próprio Evangelho que é assim e somente assim.

Quem não compreende a contradição entre a perseguição injusta, mais injusta que já poderia ter sido vista, em contraste com a dor mais doída de quem sofre sem precisar sofrer, e a alegria mais alegre de poder superar tudo isso, não entende as bem-aventuranças, talvez nem o Sermão do Monte.

Lindo, né? A matemática é simples:

o supra-sumo da perseguição sofrida,
o supra-sumo da dor vivida,
e o supra-sumo da alegria desfrutada.

A expressão não poderia ser outra: bem-aventurado tá de bom tamanho. Felicíssimo também seria, mas prefiro o bem-aventurado. Fica mais bonito, é uma palavra do meu imaginário sagrado, pura e santa. Símbolo religioso é símbolo religioso, não dá pra mudar, senão perde o brilho.

Pois é, perseguidos dessa maneira, a falta de convivência em amor sem dúvida fragmenta a comunidade e esta praticamente perde o sentido. Uma comunidade dividida volta-se “para dentro”, para resolver os seus problemas. Mateus está muito preocupado com esse assunto, e compara as divergências como caso de vida ou morte. Uns matam tirando a vida, outros mediante a falta de perdão. O perdão não é uma questão de opção, mas necessidade de sobrevivência. Mateus é bastante claro: tente resolver o problema, caminhe com o ofensor, mas resolva logo, enquanto está no trajeto, isto é, enquanto for possível mudar a situação. De que adianta resolver algum problema de relacionamento depois de 10, 15 ou 20 anos? A pessoa ofendida já não poderá ser restaurada, foi marginalizada pela comunidade, não teve a oportunidade de rever os seus conceitos, o tempo passou, o cenário mudou, a vida mudou, a história é outra, e o perdão vira apenas um problema de consciência. Não serve pra nada! Desculpe, estou sendo exagerado. Vamos dizer que serve pra pouca coisa. Pouquíssima! Quase nada, ou nada – pronto, voltei ao ponto de partida, não vale nada mesmo.

A falta de perdão sempre ameaça a comunidade, do mesmo modo como a violência à vida. A sobrevivência da igreja não está no culto ou na celebração, mas no perdão. O fator principal de testemunho não está no discurso de amor, mas no amor aplicado às pessoas. O trabalho mais importante na vida cristã é aprender a amar, e não tem jeito de ser diferente.

Depois das bem-aventuranças, do sal da terra e da luz do mundo, o Sermão do Monte traz a informação da verdadeira lei de Deus, algo parecido com isto: se você quer ser justo, justo, mas justo mesmo, mais justo que qualquer religioso justo, comece com o perdão, uma questão de vida e ou de morte. A vida vive da vida assim como a comunidade vive do perdão. É isso, ou isso mesmo.

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

RECUPERAÇÃO (Saúde espiritual)

A nossa saúde física é muito sensível apesar de termos em nosso corpo praticamente tudo de que precisamos para que ele se mantenha bem. Geralmente são fatores externos que acabam trazendo algum mal para o nosso bem estar.

Quando falamos em saúde espiritual muitas vezes estas primícias também são verdadeiras. Quando temos o Espírito Santo habitando em nós, já temos tudo do que  precisamos para que nossa vida possa estar bem saudável.

Depois de verificarmos os sintomas da nossa doença espiritual, analisarmos o diagnóstico que Jesus nos dá sobre nossa doença, entrar em um tratamento intensivo com Deus, ainda tem este último passo que é da recuperação.

Todo trauma precisa de um tempo para poder ser restaurado. E isto se aplica para o corpo e para a alma. Quando passamos pelo processo de recuperação da nossa saúde espiritual é importante percebermos que houve um esforço nosso para deixar o Espírito Santo agir em nossas vidas. Este esforço muitas vezes esgota a nossa energia que em muitos casos tem limites. Aprender quais são os nossos limites é essencial para uma boa recuperação da nossa saúde espiritual.

Falando sobre a recuperação da saúde espiritual queremos dizer que para nos recuperar da doença espiritual que tivemos, temos que dar um tempo para nós mesmos. Deus não se cansa e não para de trabalhar, mas não somos Deus e por isso precisamos parar algumas coisas em nossa vida para que possamos ter uma boa recuperação.

Alguém que passou por um divórcio recente, por exemplo, deve esperar até se envolver com outra pessoa. Assim como alguém que machucou a perna deve esperar até voltar a jogar futebol. A nossa alma também precisa de descanso. Precisa de tempo e relaxamento para se recuperar.

Trabalhado com moradores de rua há mais de 11 anos conheci muitas pessoas que lidavam com problemas sérios emocionais, psicológicos e espirituais de moradores de rua e não davam um tempo para si mesmo no afã de querer ajudar a todos e todas que encontrasse pelo caminho. Pessoas que acabaram se esgotando espiritualmente porque não deram um tempo para si mesmo e ficaram despreparadas para cuidar de outros.

Tem momentos em que na nossa caminhada como discípulos de Jesus passamos por situações difíceis e por mais que Deus tenha todo o poder para nos restaurar, nós não temos todo este poder e precisamos parar com algumas coisas e deixar Deus nos recuperar.

Se você passou ou está passando por isto, lembre-se que somos seres incompletos, mas que Deus nos completa à medida que vamos nos entregando para ele e nos negando. Deixe Deus ser Deus em sua vida.

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Mateus Feliciano
Seguidor de Jesus Cristo desde 1991; marido da Carol Lourenço desde 2010 e pai da Clara desde 2016; nascido em Santo André-SP desde 1982 e morando em Campinas desde 2003. Formado em administração, teologia e pós graduado em exposição bíblica. Coordenador da Seara Urbana ONG de recuperação de moradores de rua desde 2006; Pastor na IBBG, da REDE (IBBG Jovem) e do HELP (Ação Social); Professor na Faculdade Teológica Betesda nas áreas de teologia, missiologia e eclesiologia; Professor de missões urbanas e discipulado na JOCUM; Membro da FTL-Fraternidade Teológica Latino Americana.

CIMENTO COM CANETA

Vez por outra sinto saudades dos grandes corais. Não, não estou falando de biologia marinha, porque em tempo de cuidado do meio ambiente, só restou esse. O outro, aquele que havia nas igrejas, está cada vez mais raro. A ausência deles, porém, não é de todo ruim. Os corais faziam os participantes dos cultos se tornarem meros espectadores. A popularização da música empobreceu as letras (sou burguês, tenho que pensar assim!), mas facilitou o canto de rimas populares e músicas com arranjos, embora duvidosos, tornando o cantar uma coisa do povo. Discute-se se isso é bom ou ruim, e acho que isso funciona com tudo o que diz respeito à vida, lado bom, lado ruim, e tantos outros lados intermediários entre um e outro que não se podem contar, pois a vida não é quadrada, nem cúbica, sequer tem forma.

Dias desses, satisfiz a minha saudade. Lá estava um grupo de pessoas formado por donas de casa, pedreiros, funcionários públicos, gerentes, fotógrafos e não sei mais quem. São pessoas que durante a semana assentam tijolos, lidam com alunos, passam as longas tardes enfrentando a jornada de uma faxina, ou a burocracia de um sistema público emperrado e que esbarram na boa, ou má vontade, desse ou daquele, mas no fim de semana se tornam cantores. Arrumam tempo, não sei de onde, e passam horas tentando o afastamento da aridez da vida para sorver um pouco da sensibilidade musical. Tá certo que é uma sensibilidade misturada com cimento, sabão, hora do almoço, crianças correndo pelo pátio, sistema político e suas contradições. Não é uma sensibilidade pura, vem na esteira do serviço bruto, mãos grossas, vida grossa, de um mundo que a gente não compreende, cheio de filhos sem pais, adolescentes viciados, gente sofrida que enfrenta essa vida e no fim de semana vira cantor e faz poesia. Bebe a letra e flutua ao som de um piano que pouca gente tem em casa, instrumento fino, clássico, para privilegiados. Como se trata de gente que trabalha em fábrica e não tem tempo de ficar cultivando sensibilidade, o canto não vem puro. Não é tão afinado como se poderia esperar. São vozes comuns, de pessoas comuns, o agudo não é tão agudo, e o grave não é tão grave, mas são suficientes para dar o salto por sobre a realidade onde vivem, verdadeiras vozes de fim de semana. Isso é inclusão.

Você pode achar que estou fazendo um discurso típico de alienado, isto é, alguém que não conhece direito onde pisa. Isso porque a igreja sempre foi vista como sendo uma comunidade que, ao invés de incluir, exclui, é preconceituosa, estabelece limites muito definidos entre o que pode ser chamado de “mundo”, o que está lá fora, e o grupo de pessoas que a ela pertence, o lado de dentro. Igreja que luta pouco ou quase nada pela vida e está mais preocupada em se abastecer de pessoas como se fosse um grande depósito, que disputa com outras cada palmo de gente como quem pechincha banana na feira – comprar mais, por muito menos. É claro que essa é uma briga política, pode ser compreendida como o milenar conflito entre a teologia e a filosofia, e que nunca será resolvido: apesar da suspeita, a religião vai sobrevivendo no dia-a-dia das pessoas e sempre fica a indagação: o que é a vida? Será que o sistema educacional algum dia irá produzir pessoas humildes, simples, conscientes de seus limites, ou em alguns casos terá como resultado apenas a fabricação de semi-deuses do saber? Quando se caminha por determinados lugares, a sensação é a de passear na ilha de Páscoa: cheio de gigantes de pedra – ninguém sabe de onde vieram, nem pra que servem – aparentemente só assustam, e ficam lá como se o mundo os reverenciasse.

Eu não fiquei assustado, fiquei impressionado. Mais que isso, comovido. Vozes roucas, pouco treinadas, ora desafinadas, ora uns entrando antes de outros, ou sequer entrando, estavam ali me fazendo cheirar o perfume da solidariedade. Havia ali colheres de pedreiro, carrinhos carregados durante a semana, cheios de entulho, aventais, muitos aventais – de serviços gerais, domésticos, possivelmente de serralheiros, mecânicos e carpinteiros. Havia ali chaves de fenda, panelas, canetas e lápis, pessoas pensando na cinco horas da manhã da segunda, o dia seguinte, ônibus lotado, gente suada, agarrada e dependurada nos tetos, trânsito, conta corrente no vermelho, marido desempregado, crianças na creche, filas de consulta médica no sistema público, calçadas a serem varridas, tanques abarrotados de roupa da criançada que o fim de semana juntou, quando o momento da arte suspendeu a vida para dar passagem ao sonho de poder fazer parte de um grupo que canta, se encontra e se encanta. Amigos da vida, chefes, patrões, diretores, gerentes e seus subordinados, empregados, funcionários, condôminos e porteiros, todos juntos, iguais, desocupados das suas obrigações e da vida dura, igualmente desafinados, descompassados, tentando juntar cimento com caneta, avental com farda, tanque de roupa com livros, becas com macacões, ternos com bermudas, sapatos com chinelos, Audi com Fusca, cujo tempero é o doce sabor de saber pertencer e ser pertencido. Você chama isso de desigualdade social? Pois é, a gente pensa diferente mesmo. Pra mim isso é inclusão. Por conta dessas coisas sou perdidamente apaixonado pela igreja.

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

O teste da segunda-feira

No mundo pós-moderno do qual fazemos parte, é fácil perceber que a religiosidade está em alta. Isso contraria as profecias feitas por filósofos e estudiosos no final do século XIX e início do século XX de que a religião com o desenvolvimento científico e tecnológico haveria de minguar até se reduzir a nada. Hoje a religiosidade está mais forte do que nunca, basta ligar a TV, ou ir a uma livraria, bancas de jornal ou mesmo navegar na internet. Só para exemplificar: há cerca de dois anos atrás uma revista de grande circulação em nosso país publicou como reportagem de capa a seguinte temática: “Deus é pop”.  Realmente, Deus é popular em nosso tempo.

Todavia esse tipo de fenômeno não traz nenhum motivo de comemoração, pois como o próprio Senhor Jesus ensinou – uma coisa é Deus estar nos lábios, outra coisa bem diferente é Deus estar no coração.

Nesta era de pós-modernidade, acontece entre os religiosos – me atento especificamente aos cristãos – um fenômeno que podemos chamar de privatização da vida, ou privatização da espiritualidade.  Isso significa que é muito comum, em nossos dias, alguém ser profundamente religioso na esfera particular da sua vida, mas não na esfera da vida pública. Dentro dessa lógica uma pessoa pode ser extremamente ortodoxa na fé e mesmo assim ser um chefe injusto, ganancioso e tratar seus funcionários como capacho. Pode ser uma pessoa que conhece a Bíblia de capa a capa e mesmo assim ser uma pessoa que passa os outros para trás e é corrupta nos negócios etc. É isso que acontece na privatização: Deus é empurrado exclusivamente para um dia da semana, geralmente o domingo e é encaixotado num prédio – feito por mãos humanas – o tão famoso templo que de casa de Deus não tem nada.

A privatização da espiritualidade cria a falsa sensação de agradar a Deus simplesmente por conhecer um corpo de doutrinas, frequentar assiduamente um espaço considerado sagrado e participar de alguns ritos, tais como cultos, ceias e outras celebrações.

Biblicamente falando o culto verdadeiro não é o que acontece simplesmente no domingo no espaço do templo. Não. Nada disso! O culto verdadeiro é o que acontece na vida, no cotidiano, na rotina, na labuta, nas salas de reuniões, no trânsito, na sala de aula etc. É o culto que se manifesta no caráter, nas ações, nas palavras, nos pensamentos, nas prioridades. Veja o que diz Romanos 12.1 e 2 na Bíblia Viva: “E ASSIM, queridos irmãos, eu apelo que vocês dêem seus corpos a Deus. Que eles sejam um sacrifício vivo, santo – o tipo de sacrifício que Ele pode aceitar. Quando vocês pensam naquilo que Ele fez por vocês, isto será pedir muita coisa? Não imitem a conduta e os costumes deste mundo, mas seja, cada um, uma pessoa nova e diferente, mostrando uma sadia renovação em tudo quanto faz e pensa. E assim vocês aprenderão de experiência própria, como os caminhos de Deus realmente satisfazem a vocês”.

Algo que deve ficar claro para todos nós é que não pode haver disjunção entre o secular e o espiritual. Pois nossa vida na sua totalidade pertence a Deus. E como já disse um teólogo reformado: “Não há um centímetro quadrado se quer de nossa existência que Cristo não queira dizer: é meu!”.

Frequentar cultos que são realizados por uma comunidade de fé e se envolver em momentos inspiradores são coisas importantes a se fazer, mas não é tudo. Mesmo porque não importa quão bom foi o domingo, a manhã de segunda-feira vai testar sua devoção. Por isso lhe faço uma pergunta: será que a sua espiritualidade passa no teste da segunda-feira? Ou será que você empurrou Deus para o domingo? Para o templo?!

Oro para que você compreenda em profundidade que Jesus Cristo é o Senhor da vida. Portanto, que a vida, na sua integralidade, possa ser consagrada a Ele. Que o nome dEle seja exaltado no seu e no meu caminhar. Amém!

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Laurencie Salles
Sou uma simples pessoa que encontrou a vida por meio da graça de Deus, e esta magnífica graça tem um nome: Jesus Cristo. A partir de Jesus de Nazaré minha identidade é construída, meus papéis de marido, pai e filho, professor e cidadão são exercidos, e minha vocação pastoral é cumprida. Sou alguém amado graciosamente por Jesus e fora Dele não existe nada em mim que tenha valor ou sentido.
Minha formação é na área de Matemática, pela UFSCar (graduação e mestrado) e em Teologia, pela Faculdade Batista de Campinas, convalidado pelo Centro Universitário Clarentiano, com especialização pela FLAM/UNIFIL e especialização em Ética e cidadania pela USP/UNIVESP.

LÁ ESTAVA O PEIXE!

Não há dúvidas de que o livro de Jonas está sentenciado a ser o livro do peixe. São dois extremos, um exagero de peixe que ameaça a razão, e o mesmo exagero que é uma resposta de fé. Nisso Jonas se dá como o exagero de Deus, tanto de um lado, quanto de outro. A beleza tá nisso. Sempre quando se falar de Jonas deve-se falar do peixe. A discussão mais simples, e sem sentido, é se o peixe existiu ou não. Quem faz essa pergunta está fora de foco. Precisa de uma confirmação categórica: o peixe existiu, e se a Bíblia dissesse que Jonas é que teria engolido uma baleia, eu também acreditaria. Discussão inútil. Um diz que é impossível e outro diz que não importa a impossibilidade, pois acredita do mesmo jeito. E fica nisso.

É claro que o peixe é, de certo modo, secundário no texto. Se não tivesse havido o peixe, ainda assim teria havido a mensagem a ser proclamada à cidade de Nínive, com as suas carências, e Deus sendo levado a outras nações. O livro é do profeta Jonas, não do peixe. Peixe não escreve profecia. Depois, o peixe não pode ser mais importante que a mensagem de Jonas. Ou será que é? De fato, enquanto você fica se perguntando se o peixe existiu ou não, quero tentar responder sobre a necessidade de ter havido um peixe. Como você viu, vou sair por outra porta, e vou me dar bem, você vai ver.

Limitar os exageros do texto de Jonas ao peixe é ser cruel. Tudo no livro de Jonas é colossal. Começa com uma tempestade que ninguém dá jeito, e Jonas sendo jogado na água. Passa pelo peixe, que daqui a pouco a gente conversa sobre ele. Chega a pregação e Jonas percorre a cidade d’uma vez, e uma vez só. O resultado é melhor que em qualquer outra parte do profetismo em Israel. Elias, Isaías, Amós, Oséias, e qualquer outro profeta, juntos ou separados, perdem de goleada diante dos resultados de Jonas. Jeremias então, nem se fala. Se fôssemos atualizar o ministério de Jeremias, seria como se ele tivesse encerrado as atividades da igreja por falta de membros. Ninguém gostava de seus sermões, sequer acreditou neles. Jeremias falou muito e não deu em nada. Iria tirar tantos “zeros” na aula de homilética que o professor ficaria sem “zeros” pra dar a outra pessoa. Hoje seria um pastor desempregado. O seu planejamento estratégico era pregar, só isso, e não conseguiu convencer ninguém.

Jonas, ao contrário, pregou rápido e convenceu todo mundo. E depois? Ficou exageradamente inconformado, dormiu de raiva e, enquanto isso, uma planta cresceu para fazer-lhe sombra. Planta que cresce sem respeitar a biologia, só pode ser exagerada. Nisso tudo há exagero: num dado momento Jonas dorme no navio, noutro é jogado no mar e vai até o fundo, no limite entre a vida e a morte. Depois faz uma oração na barriga de um peixe, que nunca mais iria tomar conhecimento outra vez, e possivelmente sequer utilizou a tal experiência como conteúdo da pregação. Finalmente descansa sob o tal arbusto que nasceu de uma hora pra outra. Da viagem de Jonas ao arbusto, demorou quanto tempo? Cinco dias, dez? Observe só o ciclo: vocação, tempestade, fundo do mar, barriga do peixe, pregação, e o misterioso arbusto. Não é um exagero?

Deus, no livro de Jonas, exagera. Mostra-se como o Senhor da natureza e dos mares. Mostra-se Senhor de quem nunca ouviu falar dele. Mostra-se como perdoador extremado – ao invés de permitir que Jonas morresse, na imensidão profunda de ondas que o envolviam, na solidão sem fim de quem está definitivamente rompido com o que há de mais sagrado, com a cabeça roçando e enroscando em algas, no lugar que não é lugar de tão fundo, no mistério do mar que seria mais misterioso do qualquer outro mistério – o assustador mar da Antigüidade que desembocava num abismo sem fim – para salvá-lo, do que não tem salvação, Deus fez até o que não poderá ser jamais compreendido: um peixe.

Agora, o que é o mais importante no texto? O peixe? Se existiu ou não? A possibilidade de uma planta crescer do dia pra noite? A disposição dos Ninivitas na aceitação da mensagem? A capacidade de Jonas em se comunicar? (essa doeu!) Ou o exagerado Deus? Que busca o que não pode ser buscado, seja aquele que nunca ouviu falar dele, seja aquele que se encontra no fundo do que há de mais fundo, na solidão da solidão, no medo do medo, na angustia do angustiante, onde não se respira e não há possibilidade de vida. De repente, a solução que ninguém acreditaria se alguém contasse, e tinha que ser história de pescador pra ser mais real que o acontecido: um peixe exagerado que engole, mas não digere, monstruoso, mas que protege e é capaz de chegar à praia, apesar de tão grande, e devolver o profeta que nem precisou de cuidados médicos. O peixe é grande, mas não encalha e ainda volta por onde tinha vindo, o que nunca jamais se soube ou saberá – sumiu como se nunca tivesse sido.

Acreditar que Deus acalma a tempestade, não assustou Jonas. Crer no peixe, já é difícil, mas vamos ver no que dá. Uma planta que cresce de uma hora pra outra, desafiando a vida, não sei não. Agora, conceber Deus como perdoador? Ah! Isso é pedir muito, é muito pra minha cabeça. Melhor me é morrer do que viver! (4:8) – disse Jonas. O Senhor é exagerado. Faz algo monstruoso, mas que não assusta, um exagero que não pode ser compreendido só para buscar quem não merece, e devolver a vida, mesmo quando quem a recebeu de volta não sabe o que isso significa. Isso é que é sobra de misericórdia, pra Jonas nenhum botar defeito!

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

QUANDO EU TIVER SETENTA E CINCO ANOS

Ainda não cheguei lá. Também não sou garoto. Tive aulas com o pastor Soren. Não com o Francisco Fulgêncio, o pai, que seria um abuso, mas com o João Filson, o filho, que pastoreou uma única Igreja durante os mais de cinqüenta anos de ministério. Pastor Soren dava aulas de Teologia Sistemática. Aquela aula indispensável para os concílios. Os concílios são uma espécie de entrevista com um grupo de pastores que avaliam se a pessoa pode ou não ser um deles. Os quase cinqüenta alunos da classe queríamos ser um deles. Só que o pastor Soren já não dava aulas respondendo perguntas importantes de concílios. Contava as suas histórias, depositava parte da vida em quem pudesse não esquecer as suas memórias. Certa vez um dos colegas, inconformado, diante de um problema crucial, que deveria ser solucionado por quem conhecia e que provavelmente poderia mudar o rumo da nossa história e da teologia, perguntou: Afinal, o ser humano é corpo-alma-espírito, ou é só corpo-alma, sendo o espírito e a alma as mesmas coisas? Esta é a típica pergunta que só faz quem é aluno de teologia, e só vai pensar nela uma vez, quando passar pelo tal concílio. Pastor Soren respondeu: Já foi o tempo em que eu me preocupei com isso! Não é preciso dizer que saímos aborrecidos. Quem quer ser um deles, precisa saber como eles pensam, e dizer que pensa a mesma coisa, do mesmo modo. Matemática simples.

Tive que passar os meus últimos vinte e cinco anos tentando me despreocupar com algumas coisas e substituí-las por outras que realmente possam valer a pena. Hoje estou sendo motivado a pensar nos meus setenta e cinco anos. Tenho como exemplo uma pessoa, com quem tenho aprendido a fazer perguntas cujas respostas podem, de fato, fazer diferença.

Definitivamente, quando tiver setenta e cinco anos, vou querer me arrepender de muitas coisas que fiz de um modo, e que deveria ter feito de outro. Não terei medo de me reavaliar. Não gosto do discurso de quem diz: se pudesse viver outra vez, faria tudo do mesmo modo. Primeiro porque eu já vivi o bastante pra saber que isto é besteira. Depois porque só a idade nos ensina o que é a vida, e mesmo assim a gente nunca aprende. Aos setenta e cinco anos, quero me arrepender do tempo tão curto do casamento, da vida que passou rápida demais, do que ainda não deu tempo de conversar, dos inesquecíveis castelos e do depois de conto. Vou me arrepender do tempo que deixei de pescar. Do tempo que deixei de brincar com os meus filhos. Vou achar que o tempo que eles passaram comigo foi muito curto, logo se casaram, seguiram suas vidas e saíram para aprender a fazer as próprias perguntas importantes. Vou me lembrar das viagens, mas só por causa das pessoas queridas que estavam comigo. Não daquelas feitas às pressas, cheias de compromissos. Assembléias convencionais e debates que sempre voltaram para o mesmo lugar, discutiram as mesmas coisas, com os mesmos pressupostos, com as mesmas pessoas brigando, para se chegar às mesmas conclusões que não resolveram nada e nunca irão resolver qualquer coisa. Quanto tempo perdi ouvindo leituras de atas! Documentos, verdadeiros livros com gráficos, mapas de crescimento, números, extratos bancários, estatutos, muitos estatutos, perspectivas e projetos que nunca foram concluídos, nem o serão, porque o futuro sempre vem navegando e flutuando, meio à deriva, num negócio incerto chamado vida, e os relatórios passam a ser relatórios do que não foi, mas agora será. Será nada! Isto é conversa fiada.

Vou querer rir muito. Ah! Vou mesmo!Quero chegar ao culto sorrindo, desde a entrada, como aquela pessoa que conheço. Depois de uma longa viagem, ter a sensação de que estou voltando para casa. Vou dar muita risada. Não dos outros, mas de mim. Rir do tempo quando eu não sabia fazer perguntas. Da época quando desejava saber se o ser humano é corpo-alma-espírito, da época quando pensava no milênio e nos malabarismos bíblicos em busca da resposta. Vou me lembrar mais das festas, que das reuniões. Da conversa desprovida de defesa no serão depois do culto. Abraçar mais, muito mais. Vou querer ficar impaciente, contando uma história da vida para cada coisa que acontece, como se as experiências não tivessem fim. Quero tirar do armário, não os objetos que ganhei e que já não servem, seja por causa do tamanho, seja por causa da moda, seja por terem se tornado obsoletos – quero ver fotos, muitas fotos. Imagens da minha história. Gente rindo, família na praia, filhos pequenos, adolescentes, casados e já velhos. Quero ver fotos dos meus amigos, pessoas que conheci nas igrejas por onde passei; ovelhas quando eu pensava no milênio e que se tornaram amigos quando aprendi a fazer as perguntas importantes. Vou jogar fora os ternos. Jogar os velhos sermões quando as perguntas eram outras. Vou querer ser acompanhado pelos livros. Continuar lendo dois ou três ao mesmo tempo, sem terminar nenhum. Vou aprender a dizer “não sei”, e isto não fará qualquer diferença. Vou continuar gostando da chuva e pensarei na vida enquanto os pingos nas poças vão trazendo as histórias da infância, pelo vidro, pela janela disputada por muitas cabeças, narizes achatados no fascínio da imagem e as pequenas mãos tirando o embaço. Uma única janela na rua M 1, lá na vila Martins, que dava para uma estrada cheia de lama e pingos que pulavam. E a gente dizia: olha o pai pulando! Terá passado apenas, e tão somente, um período de setenta e cinco anos.

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

CONSUMISMO: OBESIDADE E ANEMIA

Sempre fui apaixonado por música. Num certo dia trabalhei toda uma manhã limpando quintal à enxada, pisando em olheiro de formiga e juntando tudo com rastelo, só para comprar um compact, que não era CD, mas o simples, com uma música de cada lado. Fui para a cidade a pé, com os meus cinco não sei o quê de dinheiro, sem direito a ônibus para não faltar nada dos cinco, seis ou sete quilômetros de ida e de volta, debaixo do sol de meio-dia, só pra trazer o compact debaixo do braço. Era um sábado, e passei aquela tarde inteira ouvindo música no rádio-vitrola, com três faixas de onda, envernizado e à válvula.Chegava rápido no final da música e lá vinha o plus, plus-plus, plus-plus, plus-plus e o disco ficaria eternamente rodando se não houvesse intervenção. Fiquei sonhando com aquela época: as ouvíamos também debaixo de uma árvore, lá na vila Martins, num grupo de adolescentes cuja metade já deve ter morrido, a árvore já virou palito ou lenha e a rua, asfaltada. Não sobrou nem a poeira. Por conta disso, arrumei um aparelho que toca o bolachão, mas não deu certo. A gente ficava ali, em roda do disco que também rodava, cantava, mudava de uma para a outra faixa com toda a cautela – e colocar a agulha entre faixas num LP sem riscar era como engatar a marcha de um carro em movimento no tempo certo sem precisar da embreagem. Coisa fina! Os discos e as faixas iam sendo escolhidos, colocados, cantados, dançados e repetidos, mas tinha que ter a gente por perto fazendo isso. A gente participava da música, ela não ficava lá tocando como se não tivesse ninguém para ouvir, só para fazer barulho. Pelo contrário, era curtida e todo o mundo tinha que ouvir, o que não impedia que vez por outra se colocasse uma porcaria.

Hoje sou um consumidor de música. Não um consumidor como aquele que se apaixona por ouvir e deslizar no ritmo da poesia. Sou um consumidor da pior espécie possível. Posso colocar quase mil e quinhentas músicas num único disquinho, que fica virando sem a minha intervenção e tocando por uma semana. Toca tanto que até esqueço que está lá. E fica lá, competindo com a gente que conversa, totalmente à disposição.

Estou deixando você meio zonzo, rodando como um disco sobre o próprio eixo, mas o bolachão é apenas o ponto de partida para uma conversa sobre a multiplicação geométrica do consumo sem gosto. Tudo fica à disposição, infinitamente logo ali. Quer uma informação sobre alguma coisa? Está disponível na internet, não precisa baixar e é só acessar quando se quer, não há a necessidade de se ter qualquer coisa na cabeça, basta saber o endereço. A gente não experimenta, e já muda. Muda de novo sem saber porque mudou, até porque mudar é fácil, não depende de perícia, nem cuidado. A gente não participa das coisas, as consome, sem ver, ouvir ou sentir o gosto. Não cuida, dispensa. Manda embora ou simplesmente se muda. Não vê cor, engole de uma vez só. Não importa se é coisa, música, pessoa, igreja, comunidade, trabalho, ou até mesmo sonhos. Sonhamos uma coisa pela manhã, outra ao meio-dia, outra à tarde, sonhar também cansa, jogamos tudo fora, achamos que vamos encontrar isso ou aquilo de volta no mesmo lugar onde estava antes, e a vida fica dando voltas sem a nossa própria participação. Consumimos informática, viagens, livros, e principalmente pessoas, relacionamentos ou grupos. Que mundo terrível! Cheio de apelo na mídia pra você consumir mais. Compre logo, compre rápido, vai acabar, o momento é agora, ligue, fale, gaste, mude a sua vida comprando uma panela pra arroz que faz tudo sozinha – escolhe, lava, salga, tempera com cebola, alho e óleo e ainda deixa tudo pronto e quentinho e, no momento exato quando você abrir a porta e entrar em casa, lá estará o cheiro de coisa pronta. Depois, ela se lava sozinha.

Não participamos, nem do que produzimos, nem do que consumimos. Será que isso tem a ver com a religião? Será que não estamos transformando a fé em mercado de bens e serviços como meros expectadores, como consumidores de símbolos religiosos? Será que a idéia de comunidade, participação, coletividade, fraternidade, companheirismo, os “dois ou três reunidos em meu nome”, céu como cidade, vivência em comum, e qualquer coisa que se refira à participação e envolvimento, consegue sobreviver a esse consumismo sem gosto? Acho que a vida cristã está virando produto de consumo e a religião objeto de mercado. Tem muita gente consumindo isso, mas não sabe o que é. Não está buscando um lugar onde possa participar, se dar e fazer diferença. Apenas consumir fé. Há uma espécie de obesidade, mas com muita anemia. Não é à toa que isso não mata a fome. Ao invés de saúde, doença. Não é uma boa engolir a igreja e o cristianismo como produtos de consumo: pode-se engasgar.

Mire e veja: tem gente que ainda vai me perguntar onde se compra a panela.

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

Sintomas de uma enfermidade espiritual

Se dissermos que não temos pecado algum, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. (I João 1.8)

Quando trilhamos pelo Caminho de Jesus, pelo Caminho do discipulado, algo se faz necessário de maneira constante em nossa jornada: a autoavaliação, a autocrítica. É preciso com ousadia e coragem, pela luminosidade do Espírito Santo, olhar para si mesmo para ver se estamos de fato vivendo uma vida que agrade ao Senhor integralmente.

Davi demonstrou essa compreensão e humildade quando orou: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno” (Salmo 139.23 e 24).

Talvez, quando pensamos em nós, especialmente em nossa espiritualidade, seja difícil admitirmos que temos algum problema, é difícil assumirmos que fazemos coisas, até de forma crônica, que estão longe de honrar o bom nome de Jesus. Vou usar uma metáfora para ajudar: pensando no corpo humano, se alguém está bem do coração e não está bem do fígado, pode-se dizer que tal pessoa é saudável?! E se está bem do figado, mas não está bem do estômago, tal pessoa é saudável?! Veja que o conceito de saudável só tem sentido quando se pensa no todo da pessoa, o mesmo vale para a nossa caminhada cristã.

Talvez você seja frequente e bastante participante na sua comunidade de fé, mas talvez ignore seus irmãos quando os encontra na rua, isso demonstra saúde espiritual?! Talvez você tenha um cargo importante na igreja que participa, mas despreza a prática da oração. Isso é bom?! Talvez tenha o dom do evangelismo e é muito abençoado nessa prática, mas se relaciona mal com quem já é cristão. Talvez tenha aceitado a Cristo em seu coração há bastante tempo e recebeu, por graça, a salvação eterna, mas ainda carrega emoções e práticas bastante negativas dentro de si como a falta de perdão ou a necessidade de aprovação crônica dos outros, isso demonstra maturidade cristã?! Talvez adore frequentar cultos, mas não suporte receber irmãos de fé em sua casa, tem lógica isso?! Talvez domine as doutrinas cristãs, mas é tremendamente intolerante com quem pensa diferente. Talvez leia com frequência a Bíblia e ainda assim coloque sua ideologia na frente de sua fé. Talvez tenha necessidade de aprovação! Talvez goste de ser aplaudido. Talvez tenha o vício de falar mal de alguém. Talvez seja especialista em desanimar os outros. Talvez seja muito rude nas palavras…As possibilidades para a falta de maturidade são muitas, infelizmente.

Veja: é preciso reconhecer humildemente que muitas pessoas que fazem parte da igreja de Jesus estão doentes, espiritualmente falando. Não significa que não sejam salvas, não significa que Deus não as ama. Significa simplesmente que precisam ser curadas na totalidade de seu ser. E é só no Caminho que a gente aprende isso. Aliás, se formos bastante sinceros devemos admitir que todos nós, em algum ponto, carregamos idiossincracias que ferem os princípios do Evangelho de Cristo.

É bom saber que Jesus veio para os que estão doentes e não para os sãos (Mateus 9.12). Talvez alguém possa pensar: “mas isso é óbvio, pois ninguém é perfeito”, sim, com certeza, ninguém é perfeito, mas existe a maneira cristã de lidar com nossa imperfeição e a maneira não cristã. A maneira não cristã afirma que os problemas são sempre culpa dos outros, e assim, não reconhece as próprias falhas. Já a maneira cristã é bem diferente, pois reconhece a sua imperfeição e incompletude com humildade e busca força em Deus para ser melhor a cada dia.

Estar no Caminho do discipulado, é estar matriculado na escola de Jesus; todo o currículo dessa escola e todas as lições ministradas pelo Mestre estão voltadas para a transformação do nosso ser de maneira integral. Andar no Caminho é se permitir ser transformado a cada dia para a glória de Deus e para o bem do nosso próximo, para a máxima potencialização do nosso ser e para a sinalização do Reino. Que o Caminho de Jesus encontre a cada dia guarida em nosso coração. Amém.

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Laurencie Salles
Sou uma simples pessoa que encontrou a vida por meio da graça de Deus, e esta magnífica graça tem um nome: Jesus Cristo. A partir de Jesus de Nazaré minha identidade é construída, meus papéis de marido, pai e filho, professor e cidadão são exercidos, e minha vocação pastoral é cumprida. Sou alguém amado graciosamente por Jesus e fora Dele não existe nada em mim que tenha valor ou sentido.
Minha formação é na área de Matemática, pela UFSCar (graduação e mestrado) e em Teologia, pela Faculdade Batista de Campinas, convalidado pelo Centro Universitário Clarentiano, com especialização pela FLAM/UNIFIL e especialização em Ética e cidadania pela USP/UNIVESP.

TEMPO DE AMAR

Qualquer tempo é tempo de amar. Já dizia o poeta que amar é verbo intransitivo. Não precisa de um complemento. Isso tem um lado bonito, porque é como se dissesse que o amor é uma impulsão. Uma pessoa, quem quer que seja, de uma ou de outra forma, tem que amar de qualquer jeito. Não pode escolher não amar, simplesmente porque o amor é inevitável. É como respirar, falar, pensar, soltar a gargalhada inesperada que dá até eco. O eco responde, sem ser gente, sem pensar, como se fosse um nada, dizendo-nos que não estamos sozinhos, mesmo quando não há ninguém. O amor, pensado como verbo intransitivo, é esta fala sem destino, que responde sem causa, e que responde pra gente o que a gente diz pro mundo.

Ora, isto parece ser bom, e é. Imagine então quando o amor não é respondido por um eco, mas por uma outra pessoa. Aí sim, não é uma resposta do mesmo modo, mas é a resposta reprocessada, refletida, respondida, retrabalhada, sentida, tornada gente. É um eco, só que muito diferente. Isto porque o amor (agora substantivo) que a gente movimenta, entra no outro que o absorve como se fosse esponja. A superfície de gente, o corpo revestido de pele, e o coração agasalhado por sentimento também dão eco. Só que não é um repeteco no mesmo tom. É um eco-resposta, passa por emoções, ora desconfia, ora se entrega, ora não diz nada como quem se esqueceu de responder. Fica a expectativa de um eco, que pode voltar mais redondo, ou repentinamente quadrado, pode ainda não voltar, como se o outro não tivesse entendido, ou não se desse conta de que tivesse havido um amor em movimento.

E o amor saiu, porque não podia ser evitado. De qualquer modo irá voltar, pois mesmo quando não volta é uma forma de retorno. Diz muito quando não diz nada. Diz tudo sem precisar dizer coisa alguma. Diz mais que tudo quando volta redondinho, burilado, lapidado, cheio de brilho, com cheiro, cor e sem prazo de validade. Êta coisa boa quando o amor volta para casa! Volta diferente, porque já vem filtrado, temperado, adoçado, encorpado, denso, pesado, cheio de outros caminhos que se mostram válidos pra gente amar mais. O outro se tornou pronto para ser amado! Forneceu o nome do bairro, rua e número. É o endereço do amor escondido no coração. Este será um segredo só revelado pra você. O outro deu pistas dos atalhos, só que não contou dos mistérios. Não falou dos caminhos onde há flores. Não disse que há um outro caminho que passa por picos de montanhas onde há neve. Nem de um outro cortado pelo rio, que desemboca no mar, com quebrada de ondas nas pedras. Naquele canto, há uma choupana, que você jamais conhecerá. É o abrigo das memórias do outro. Se por acaso passar por lá, e acabar entrando nela, e tentar vasculhar o que não lhe foi permitido, não vai encontrar nada. As memórias são histórias mudas.

Há outros caminhos, esqueça a choupana e permita o segredo da individualidade de quem não deseja ser totalmente descoberto. Tente o caminho das árvores, que o outro omitiu. Também não disse nada das noites escuras e das pedras, troncos caídos, e subidas que não acabam mais. Há um abismo no coração, que fica logo ali depois daquela pedra, que você achava que subiria nela para ver tudo o que pode ser visto no reino do coração, até onde a vista alcança – parece tão perto, e tão longe. Tudo isto fica por conta do mistério de quem vai ter que entrar sozinho no coração do outro. Num dado momento vai ter que colocar o pé, e escolher um rumo cheio de mistério. E precisa colocar o pé, não tem outro modo, não dá pra ficar do lado de fora, e não dá pra esperar muito. O amor é apressado. Correria irresistível, doida e doída.

E daí? Daí você passa a vida caminhando no coração do outro. Nem este nunca saberá, e nunca poderá saber, e se souber também não vai entender, as tantas coisas que você irá encontrar perambulando naqueles segredos. O amor, irresistível e imprevisível, se movimentou. O tempo arrasta a gente para dentro do coração do outro, e não existe nada que possa impedir isso.

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.