O CAMINHO DE CRISTO É O CAMINHO DO AMOR

O dia vai, a noite cai, e com ela o seu mal. Mais um plano é traçado; Mais uma vítima é objetivada; Mais uma atrocidade é cumprida.

As noticias circulam e os males circundam, atônitos nos perguntamos: De onde procede o mal? Até onde vai a maldade do coração humano? Como sanar o coração insano? Abalados nos questionamos e indagamos a Deus e ao mundo sem querermos no entanto acreditar no que observamos.

Jesus afirma: “… é do coração que vem os maus pensamentos, os crimes de morte, os adultérios as imoralidades sexuais, os roubos, as mentiras e as calunias…” (Mateus 15:19), a isto Santo agostinho irá dizer: O mal consiste na “ausência do bem”, ainda Luther king júnior disse: “ Quem aceita o mal sem protestar coopera com ele”.

Torna-se claro que é pelo fato dos seres humanos preferirem o mal ao bem, que o mal se prolifera e se dissipa no mundo. A solução então, está em fazer o sentido oposto em praticar o bem. Simples assim, todavia como é difícil, Porém não é impossível pois temos; um modelo de vivência, um exemplo dado, uma direção a seguir, um caminho a percorrer. A bíblia é esta direção, os profetas são os pergaminhos pelo caminho e Cristo é este caminho e modelo de vivência ou seja a revelação ultima de Deus, a visibilidade do Deus invisível. Assim sendo, a igreja tem uma mensagem face aos problemas observados um pouco por todo mundo: Os maus não prosperarão para sempre, “Deus recompensará a cada um de acordo com o que fez Ele dará a vida eterna as pessoas que perseverarem em fazer o bem e buscam a gloria, a honra e a vida imortal. Mas fará cair a sua ira e o seu castigo sobre os egoístas e sobre os que rejeitam o que é justo a fim de seguir o que é mau” (Romanos 2:6-8). Tal mensagem se requer nos dias de hoje em que a mídia dita a pauta do sucesso, e as múltiplas formas de maquinar o mal.

Nossa missão é: Estar a serviço do Rei, em ser promotores e anunciadores dos valores do Reino, e do bem maior, que é o amor, rejeitando o mal, qualquer que seja a sua aparência e denuncia-lo sobe qualquer preço, afim de que o bem prevaleça.

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Emiliano J.A. João
Emiliano Jamba António João, Filho de António João e de Maria de Lourdes António, nascido na cidade do Huambo, província do Huambo em Angola. Do grupo étnico dos Ovimbundos que pertencem ao povo Bantu. Atualmente reside no Brasil desde 2014, na cidade de Campinas no Estado de São Paulo.
Graduando em Teologia pela Faculdade Nazarena do Brasil (FNB), e em Direito pela Universidade Paulista,(UNIP). Membro do grupo de iniciação cientifica sobre a Ética das Virtudes, coordenado pelo Dr. Sidney de Moraes Sanches.
Membro do grupo de Teologia Negra - FTL, campinas,
Áreas de pesquisa: Religião e política, com ênfase no missionaríssimo cristão na África subsaariana Lusófona, e sua implicação na politica, Ética e filosofia Africana.

OLHARES…

UM OLHAR de amor –
alguém se perdera nas câmaras de si mesmo…

“E Jesus, olhando para ele, o amou e disse:
Falta-te uma coisa: Vai, e vende tudo quanto tens, e dá-os aos pobres, e terás um tesouro no céu” (Marcos 10:21)

UM OLHAR de angústia
diante da incapacidade de abraçar novos valores…

“Mas ele contrariado com essa palavra, retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades” (Marcos 10:22)

UM OLHAR de saudade
ao que poderia ter sido, mas não foi,
numa promessa que não fez parte da vida – tão perto, e tão longe…

“E disse-lhe o Senhor: Esta é a terra de que jurei a Abraão, Isaque e Jacó, dizendo: À tua semente a darei; mostro-ta para a veres com os teus olhos, porém para lá não passarás” (Deut. 34:5)

UM OLHAR ao insondável…

“E o que estava assentado era, na aparência, semelhante à pedra de jaspe e de sardônica; e o arco celeste estava ao redor do trono e era semelhante à esmeralda” (Apoc. 4:3)

UM OLHAR à grandeza de Deus,
limitação de si mesmo, e o desafio do ministério profético…

“Então disse eu: ai de mim, que vou perecendo! Porque eu sou um homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o rei, o Senhor dos Exércitos!” (Isaías 6:5)

UM OLHAR de esperança –
o retorno de alguém que não necessitaria ter partido…

“E, levantando-se, foi para seu pai; e quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão…” (Lucas 16:20)

UM OLHAR de culpa na ânsia do perdão imerecido…

“E levantou Jacó os olhos e olhou, e eis que vinha Esaú (…). Então, Esaú correu-lhe ao encontro e o abraçou; e lançou-se sobre o seu pescoço e o beijou; e choraram” (Gênesis 33:1-4)

UM OLHAR em busca de um socorro…

“Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro ? (Salmo 121:1)

UM OLHAR penetrante,
– o mundo interior sem segredos…

“E, virando-se o Senhor, olhou para Pedro, e Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, como tinha dito: Antes que o galo cante hoje, me negarás três vezes. E saindo Pedro, par fora, chorou amargamente”
(Lucas 22:61-62)

UM OLHAR ao passado,
e o presente eternizado…

“E a mulher de Ló olhou para trás e ficou convertida numa estátua de sal” (Gênesis 19:26)

UM OLHAR de desespero,
na contínua espera do que jamais será…

“E, no Hades, ergueu os olhos, estando em tormentos e viu ao longe Abraão e Lázaro, no seu seio” (Lucas 16:23)

UM OLHAR de compaixão,
diante do amor rejeitado…

“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste! (Mateus 23:37-39)

UM OLHAR de celebração diante da simplicidade da vida…

“Olhai para os lírios do campo, como eles crescem (…) E eu vos digo que nem mesmo Salomão em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles” (Mateus 6:28)

UM OLHAR e uma lágrima…

“E afirmou a sua vista e fitou os olhos nele, até se envergonhar; e chorou o homem de Deus” (II Reis 8:11)

UM OLHAR às pedras do passado,
testemunhas de um povo que se perdera…

“…e contemplei os muros de Jerusalém, que estavam fendidos, e as suas portas, que tinham sido consumidas pelo fogo” (Neemias 2:13-14)

UM OLHAR de perfeição,
consciência de si mesmo no ato completo da criação…

“E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã: o dia sexto” (Gênesis 1:31)

UM OLHAR de gratidão,
diante do milagre ainda no futuro…

“Tiraram, pois, a pedra. E Jesus, levantando os olhos para o céu, disse: Pai, graças te dou, por me haveres ouvido” (João 11:41)

UM OLHAR e as estrelas –
nelas, o futuro de um povo…

“Então, o levou fora e disse: Olha, agora, para os céus e conta as estrelas, se as pode contar. E disse-lhe: Assim será a sua semente” (Gênesis 15:5)

UM OLHAR num momento único –
o centro da memória cristã…

“E junto à cruz de Jesus estava sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena “ (João 19:25-26)

UM OLHAR em busca do ser humano que se perdera…

“…e escondeu-se Adão e sua mulher da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim. E chamou o Senhor Deus a Adão e disse-lhe: Onde estás ?” (Gênesis 3:9)

UM OLHAR e um mistério…

“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos; E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno”
(Salmo 139: 23,24)

UM OLHAR de perdão…
e foi assim que o ser humano aprendeu a se perdoar…

“E endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais”

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.

O QUÊ AMO QUANDO AMO A DEUS ?

Mais um ano terminado, as coisas que para frente olhavam-se, hoje olhamos-nas de frente para trás. Se assim sucede, será por causa da graça do bom e maravilhoso Deus, pela Sua proteção misericordiosa, e pelo dom da vida, que permitiu que se possa a esta altura dizer: “Ebenézer – até aqui nos ajudou o Senhor”.

No Início do ano de 2016, nossa comunidade da IBBG, propôs-se e desafiou-se a refletir sobre: “amar o que Jesus ama”. Porém, uma outra pergunta poderia ser feita: o que amo quando eu amo a Jesus? Foi então que ao ler um pequeno trecho das confissões de Agostinho citado por Moltmann (p.93, 2002), me fez indagar a mesma pergunta:

o que, afinal, amo eu quando eu te amo? Não é a beleza de um corpo nem o ritmo do tempo acelerado; não é o brilho da luz, tão agradável aos olhos; não são as doces melodias no mundo dos sons de toda espécie; não é o perfume das flores, dos ungüentos e especiarias; não é o maná nem o mel; não são os membros do corpo, deliciosos para o abraço carnal: Nada disso eu amo quando amo a meu Deus. E apesar disso amo uma luz e um som e um perfume e uma comida e um abraço, quando amo ao meu Deus: luz e som e perfume e comida e abraço para o meu ser interior. Ali brilha para a minha alma o que espaço algum capta; ali ressoa o que tempo algum leva  cativo; ali surge o perfume que vento algum dissipa; ali apetece o que saciedade alguma azeda; ali se achega o que desgosto algum separa. É isso que eu amo quando eu amo a meu Deus.  

Ao que respondi:

Quando eu amo a meu Deus, não amo a justiça por mais atrativa que pareça, nem a santidade nem a fraternidade, por mais belo que seja. Não amo o ser humano, nem a criação ecoados nos discursos mais belos dos humanistas, nem a unidade da diversidade, nem a vida e etc, apenas por amar. E contudo, amo a justiça, porque Deus é Justo (salmos 7:11),  a Santidade pois ele é santo, a fraternidade pois o Deus que é amor gera a fraternidade (2 ped 1:7); O ser humano pois é a imagem e semelhança divina (Gn 1:26); a unidade na diversidade uma vez que Deus em si mesmo vive em uma “Pericorese” (unidade ou Inter-habitação perfeita) entre o pai, o filho e o Espirito e do mesmo Jeito fez a sua criação (seres diversos) com a finalidade de viverem em comum-Unidade (Gn 1:26; Jo 1:1-4); a vida pois Ele é a fonte da vida (Jo 1:4). Assim sendo onde estiver comprometida a vida será o campo de atuação daquele que é feito a Imagem e semelhança de Deus.

Quando eu amo a meu Deus meu ser se encontra em um dilema entre o bem e o mal. Pois na maioria das vezes o bem que quero fazer não o faço e o mal que não quero este o faço. Por um lado, transborda de alegria, acha calmaria, paz sossego, por outro, tristeza, inquietude, incomodo perante as atrocidades dos sistemas corruptos que diariamente assolam nosso habitat. Quando amamos o que Deus ama, nos colocamos no lugar do outro, reconhecemos que somos indivíduos dentro de uma coletividade . “A experiência de Deus não reduz as experiências da vida, mas as aprofunda pois desperta o sim incondicional à vida. Quanto mas amo a Deus quanto mais gosto de existir . Quanto mais direita e integralmente existo, tanto mais sinto o Deus vivo , a fonte inesgotável da vida e a vitalidade eterna” p.93,2002.

Pode-se concluir desta forma que quando amamos o que Deus ama nos tornamos aquilo que Paulo diz em Gálatas 2:20 “Assim já não sou eu quem vive, mas Cristo é quem vive em mim. E esta vida que vivo agora, eu a vivo pela fé no filho de Deus que me amou e se deu a si mesmo por mim” Fazendo com que o nosso compromisso não mais seja apenas tendo em visto o Eu mais sim o Tu, em prol de Deus e do seu Reino.

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Emiliano J.A. João
Emiliano Jamba António João, Filho de António João e de Maria de Lourdes António, nascido na cidade do Huambo, província do Huambo em Angola. Do grupo étnico dos Ovimbundos que pertencem ao povo Bantu. Atualmente reside no Brasil desde 2014, na cidade de Campinas no Estado de São Paulo.
Graduando em Teologia pela Faculdade Nazarena do Brasil (FNB), e em Direito pela Universidade Paulista,(UNIP). Membro do grupo de iniciação cientifica sobre a Ética das Virtudes, coordenado pelo Dr. Sidney de Moraes Sanches.
Membro do grupo de Teologia Negra - FTL, campinas,
Áreas de pesquisa: Religião e política, com ênfase no missionaríssimo cristão na África subsaariana Lusófona, e sua implicação na politica, Ética e filosofia Africana.

TEOLOGIA E BÍBLIA: O FIM DA TEOLOGIA LIBERAL (?)

Vez por outra ainda encontro alguém fazendo observações quanto ao liberalismo teológico. Esse foi um movimento europeu, mais precisamente alemão, e que fazia severas críticas aos textos bíblicos, autoria, data, acréscimos e por aí se ia. Pois é, já quase não se fala nisto na academia. Quando se aborda o assunto, já se diz no passado, como algo que não se discute mais. É claro que o tema – teologia liberal – é algo muito abrangente e há até os que colocam entre os liberais, teólogos como Paul Tillich, por exemplo. Isto se dá porque ele, e tantos outros, são incluídos naquele grupo que observava o texto bíblico sob o domínio da suspeita. Isto é, o texto bíblico era, de certo modo, questionado no que diz respeito não necessariamente à sua veracidade, o que de certo modo estava presente, mas principalmente nos seus limites para alcançar a interpretação do sagrado – um sagrado visto pela exclusividade teológica. Em parte essa questão foi o resultado natural da Reforma. Ao declarar que a autoridade estava nas Escrituras, os reformadores focaram toda a problemática religiosa no texto. A pergunta que se levantou, e talvez não pudesse ser outra, foi: que texto?

À época da teologia liberal se discutia a racionalidade, e como esta se aplicaria na leitura do sagrado. Numa linha mais positivista, a preocupação era com a comprovação da verdade. Só seria válido o que pudesse ser comprovado. A ênfase repousava sobre um ser humano que poderia conhecer, desvendar e controlar todas as coisas. Definitivamente passou-se a pensar que o ser humano tinha o mundo em suas mãos. Tudo poderia ser desvendado, do cósmico ao micro, do que o próprio humano é, em termos biológicos, até as suas emoções mais profundas, incluindo a sua espiritualidade e existência. O ser humano seria capaz de controlar a natureza, e o seu futuro. Desse emaranhado de coisas que posteriormente chamaríamos de modernidade, saiu de tudo. Saber de onde viemos passou a ser o assunto científico do momento. Se pudéssemos fazer o traçado de como a humanidade se formou, poderíamos prever os nossos passos rumo ao futuro. Se fosse possível encontrar onde foi que humanidade se perdeu, seria possível corrigir os desvios e racionalmente caminhar para a sociedade perfeita. O que seria mais puro, deveria ser o que estaria mais próximo da verdade. É claro que a esta altura já estou mencionando Darwin (busca do passado), planos qüinqüenais da antiga União Soviética (busca do futuro) e até os totalitarismos de Estado que aconteceram todos juntos em meados do século XX: Hitler, Stalin, Mussolini, Franco, Perón, Getúlio Vargas e Salazar, só para pensar nos mais importantes. O Estado tinha que ser organizado e purificado (nacionalismo econômico-racial), portanto forte. O ser humano seria capaz disso: o mundo estava em suas mãos.

Mais que lembrá-lo da história, quero lhe dizer que a teologia bíblica também sofreu desse mal. Pensava-se mais ou menos assim: se o que é mais antigo está mais próximo da verdade, então devemos procurar o mais antigo nos textos bíblicos. Isto levava ao seguinte problema: o texto bíblico nunca poderia ser considerado como unidade, mas teria sido a elaboração de muitos anos, muitas gerações, em meio a tantos espaços históricos. Se fosse possível chegar ao texto que está atrás do texto, chegaríamos à pureza da verdade religiosa. Não é preciso mencionar aqui que Durkheim foi até aos aborígines, Austrália, considerada a raça mais pura do planeta, e a partir deles, estudar religião. Por tabela, a da contaminação das raças e culturas, o estudiosos da Bíblia passaram a considerar que o texto que temos é resultado de muitos acréscimos; que a Igreja, em sua caminhada, teria acrescentado coisas e tirado outras. Harnack, por exemplo, afirma claramente que o Novo Testamento fora influenciado pelo helenismo, o que o tornava praticamente impossível de ser recuperado. Seria necessário fazer com a Bíblia, o que Darwin havia feito com o ser humano. Havia um texto, por detrás do texto, que não conhecíamos. O protestantismo biblicista foi tomado pela insegurança.

De lá para cá o texto ficou no centro do debate. Isto não foi de todo ruim, pois o estudo da teologia cristã necessitava passar pela Bíblia. É claro que você pode pensar diferente e dizer que a teologia européia, onde se desencadeou tudo isto, trouxe um prejuízo enorme para a fé. Hoje, ao que parece, o espaço geográfico europeu é o centro mundial de ausência de crença na teologia. Só que dizer isto, é jogar fora de uma só vez, as duas guerras mundiais, as diferenças étnicas desde a queda do Império Romano, o domínio norte-americano no pós-guerra, a derrocada dos sistemas políticos – tanto de burgueses como de proletários, sem contar a inquisição da Idade Média, e temos que parar por aqui por causa do nosso espaço. É muita coisa para se jogar fora e dizer que a teologia é a única responsável pela ausência de fé no velho mundo.

O texto bíblico em debate gerou muita discussão. Primeiro procurou-se os tais documentos antigos e quando possivelmente teriam sido escritos (Wellhausen, por exemplo). Depois descobriu-se que a oralidade e a poesia, que mantém uma métrica que não poderia ser mudada na passagem da oralidade para a escrita, seriam textos mais antigos ainda (Günkel). Outros acharam que a religião era mais importante que o texto (Alt), e que o Antigo Testamento, por exemplo, mantinha pelo menos duas tradições diferentes, como se o povo de Israel tivesse sido culturalmente duas tribos (Not). Já G. von Rad compreendeu que o que estava por detrás do texto eram as tradições religiosas, manifestadas nas festas e que num dado momento foram transformadas em texto. Isto é, os autores dos textos, que começaram a escrevê-lo no século IX a. C., seriam narradores da fé comunitária praticada nos ritos. Num destes grandes últimos sistemas, vislumbra-se a construção social das tribos de Israel, com base na luta entre oprimidos e opressores e a busca da liberdade (Gottwald). Surgiu até a teoria do documento “Q” (Bultmann), como uma fonte perdida e que representaria, na sua pureza, as verdadeiras palavras de Jesus, antes da Igreja corromper o texto com a fé. Depois surgiu o “Q1”, “Q2” e “Q3”. Bem, não é possível prosseguir na lista, em razão do espaço, até porque não faria diferença.

Contra tudo isto a teologia conservadora também se posicionava. Talvez o nome mais importante na leitura do Antigo Testamento tenha sido o de Bright, que associou a arqueologia à história das narrativas bíblicas. Por essa escola, a validade das Escrituras passava a depender de determinadas evidências físicas, o que ajudava a tentar comprovar os fatos, mas transferia a autoridade para algo fora do texto. Isto é, quando o leitor depende de uma comprovação arqueológica para demonstrar que o Mar Vermelho se abriu, em última instância está transferindo a autoridade do texto para uma possível comprovação científica, como se essa fosse melhor. Caso faça isso, no fundo a sua fonte de autoridade não são as Escrituras, por mais que afirme isso, mas tal fonte passa a ser a capacidade da pesquisa humana. Se a arqueologia não confirmar o evento, o texto bíblico também não o poderia. A âncora foi boa, mas frágil. Também não é preciso trazer aqui as dificuldades e credibilidade das chamadas das “provas” arqueológicas, praticamente abandonadas hoje pela historiografia, religiosa ou não.

A forma encontrada pelo pragmatismo norte-americano foi de tornar a teologia científica pelo viés da sistematização. Do mesmo mo que a dogmática havia se tornado na possibilidade do controle eclesiástico sobre o sistema teológico católico, o mesmo se daria com a teologia protestante na América do Norte. A teologia sistematizada define a forma de funcionamento de uma determinada instituição, seu credo e forma de expressão. Por conta disso, seja a dogmática católica, ou a sistemática protestante na América do Norte, os resultados se tornam os mesmos: são expressões de fé que dão sustentação para um sistema. A dogmática teria a sua origem na hierarquia, suspeita de autoritária. A sistemática teria a sua origem na comunidade e no texto, suspeita de secularização, como toda a teologia protestante. Por conta disso, a chave hermenêutica de uma teologia fundamentalista é o partir da sistemática, pois esta se constitui na dimensão científica da teologia. Para isso, a ferramenta que se tornou a possibilidade legitimadora foi a exegese, pois apenas essa seria capaz de se alcançar o que realmente o escritor estaria pensando. Tal recurso, dispensando pela historiografia na atualidade, e que também coloca sob suspeita a arqueologia como ciência, tem permanecido quase que exclusivamente no âmbito da teologia fundamentalista. É também uma fonte de autoritarismo, já que é dado ao especialista em grego ou em hebraico, a exclusividade interpretativa do texto, e a estrutura funcional se confirma como modo de opressão. Trata-se de um profundo humanismo, pois concebe à razão a possibilidade de conter e explicar o sagrado, exclusivamente.

O fato é que, uma coisa e outra, fizeram com que a teologia liberal praticamente se despedisse do cenário teológico. Teólogos existenciais, como Paul Tillich, a rejeitaram por conta da crise histórica da teologia liberal diante da cristologia: a suspeita liberal sobre a pessoa de Cristo criava problemas com o logos do cristianismo, que é Cristo – não é possível um cristianismo sem Cristo. Por incrível que pareça, tanto a teologia conservadora quanto a liberal acabaram sendo uma discussão apenas de um “antes” ou um “depois”. A teologia conservadora tentou mostrar que a verdade poderia ser alcançada mediante a razão no bem “antes”. Isto é, os textos no fim das contas são antigos e não há quase nada que possa provar o contrário. Já a teologia liberal tentou mostrar que este “antes”, embora fosse “antes”, deveria ser considerado como sendo bem “depois”, e a verdade deveria ser procurada e encontrada num outro momento, ou quase seria impossível de ser recuperada, até mesmo a possibilidade ou não de Jesus, de fato, ter existido. Foi quase uma discussão sobre o tempo.

Já faz algum tempo quando alguém me questionou se por acaso seria um teólogo liberal. Não sei se a pessoa estaria querendo dizer que não acredito na Bíblia, o que não é verdade, ou se sou retrógrado, o que é quase uma ofensa. Estudamos o texto, como nos é dado, porque é o texto que temos. A teologia não está apenas em determinados textos que possam ser entrecortados para uma melhor compreensão. Nisto, tanto a teologia liberal, como a conservadora, também padecem do mesmo mal. Talvez você não tenha tido acesso a teólogos liberais, mas com certeza já teve contato com algum comentário bíblico. Praticamente, qualquer comentário, faz a análise dos textos de forma tão recortada que um estudo em Romanos, por exemplo, poderia estar em I Coríntios, que não faria qualquer diferença. Hoje estamos tentando descobrir uma nova linguagem na interpretação bíblica. A hermenêutica que desponta na atualidade se preocupa em estudar o texto bíblico como exagero de significado, compreensão do imaginário religioso, e a construção desta memória religiosa. Não é necessário ser especialista em línguas originais para se tentar compreender o imaginário que está presente no texto, até porque a exegese não é suficiente para dar conta disso. Diz apenas o que é a palavra, mas será preciso entender de religião para uma observação mais adequada sobre o que tal palavra alcança no universo do sagrado. Só que, para isto, teremos que iniciar uma nova conversa, numa outra ocasião.

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Natanael Gabriel da Silva
Doutor em Ciências da Religião e atualmente Diretor Adjunto para a Pós graduação e Investigação do Instituto Metropolitano de Angola, Luanda.