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A VIDA NA ÓTICA DO ECLESIASTES

O Nome “Eclesiastes” é utilizado por nossas bíblias e vem da Septuaginta. Em hebraico o título é Coelet e significa “pregador”, “conferencista”, referindo-se ao ensino ou ação pedagógica de alguém. O livro expressa uma teologia crítica e realista da vida. Não há na obra intensão de romancear os dias sob o sol, mas sim de questionar supostos valores da atualidade do redator e que não são tão diferentes nos dias de hoje. Sua instrução baseava-se na observação metódica das situações da vida, entre elas:

A vida é repetitiva!

Ao afirmar que “tudo é vaidade” (1.2) o pregador adverte sobre as preocupações costumeiras das pessoas, que nem sempre fazem verdadeiro sentido, alegando que tudo é efêmero: o trabalho, a vida humana, a natureza, o conhecimento. Até mesmo a sabedoria é repetitiva. De acordo com ele, as coisas nas quais gastamos tempo e energia, que causam ansiedade, angústia, enfado são todas passageiras, estão em movimento e não possuem originalidade, pois todos fazem ano após ano e geração após geração as mesmas coisas. Há uma rotina na vida humana da qual não podemos nos livrar, mas não devemos nos iludir com elas como se fossem a razão de vivermos. O trabalho é necessário, mas não pode ser o fim para a vida (1.3), pois ele não é o que de mais importante possuímos.

O pregador também adverte que não somos os únicos no mundo e na história, devemos lembrar disso quando acharmos que a construção do mundo depende unicamente de nós (1.4). Ele argumenta que até mesmo a natureza é repetitiva em seus atos (1.6-7), está sempre em movimento, mas sempre em si mesma, todavia, é belamente indescritível. O conhecimento é repetitivo, o que vemos, ouvimos e conhecemos é sempre a mesma coisa (1.8-10). As lembranças são passageiras e não perpetuam ninguém de fato (1.10- 11). Ele vê essa repetição como um “fardo humano” (1.13-14, 16-18), mas, ao mesmo tempo, necessária para a vida. A saída é compreender o funcionamento da vida, para vivê-la bem. Não podemos simplesmente seguir como autômatos, acompanhar a multidão de viventes e deixar os dias e as horas passarem diante de nós sem nos perguntamos por que fazemos o que fazemos. As respostas talvez nos surpreendam com a falta de sentido de muita coisa que ocupa parte importante de nossa rotina e nos deixa exaustos. A vida não é tão reta quanto imaginamos, com nossos ideais de progresso e desenvolvimento, pois os problemas retornam e até mesmo as soluções nas novas gerações e em outros momentos da história. O que fazer então se até o conhecimento em excesso parece ter sua medida de enfado e pode gerar sofrimento? É preciso atentar para a vida e como a conduzimos, essa é a chamada que ele nos faz.

O que de fato tem valor na vida?

O pensador alega ter buscado sentido para a vida nos prazeres e na própria bebida. Depois ele adquiriu e acumulou para si bens e riquezas, o máximo que pode e mais do que a maioria das pessoas de sua época. Montou um harém, teve muitas mulheres e servos à sua volta e tudo que desejava. Teve momentos de alegria, mas quando buscou o sentido real de tudo o que possuía, era como nuvem que se dissipava no ar. Ele queria algo novo, inédito, buscou na própria sabedoria e achou-a valorosa, mas depois pensou bem e percebeu que tanto o sábio quanto o tolo possuem o mesmo destino. Em sua busca o homem sábio então se deprimiu, pois percebeu que não adiantava construir tanta coisa para deixar para outros que não saberiam utilizar (2.18, 20). Ao final, ele conclui que o único proveito do trabalho é o prazer e alegria que se tem, quando se tem, ao fazê-lo (2.24). Ele ainda esclarece que esse prazer de se alegrar com o trabalho e mesmo de alimentar-se vem de Deus, é dom dele.

Aprendemos com o sábio que o trabalho para acumular riquezas e fama, seja para nós ou para outros, é sempre escravizante e sem sentido. Ocupamos nosso tempo, pensamentos e energia tentando acumular bens, conhecimento, títulos e promoções pessoais. Muitos gastam a vida em busca de coisas que serão usufruídas por outros. Deixamos para trás filhos, pais, cônjuges e amigos em busca de tais riquezas. Passam a infância e a juventude e não os vemos por estar correndo atrás de coisas efêmeras, enfim, deixamos a verdadeira riqueza da vida passar por nós para nos dedicarmos a uma riqueza ilusória (2.24). Isso o sábio do Eclesiastes chama de Vaidade!

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Regina Fernandes Sanches
Mestre em Teologia e Práxis, Mestre em Missiologia, Especialista em História e Cultura Afro-brasileira e Indígena, graduada em Teologia, Professora de Teologia Sistemática e Teologia Latino-americana da FNB – Faculdade Nazarena do Brasil, Secretária Executiva da FTL-B Fraternidade Teológica Latino-americana -Setor Brasil. Autora dos livros Êxodo, Série Leitura Bíblica, Teologia da Missão Integral, Teologia Viva e Como Fazer Teologia da Missão Integral.

Uma opinião sobre “A VIDA NA ÓTICA DO ECLESIASTES”

  1. Excelente reflexão! A grande lição do livro de Eclesiastes é a valorização do momento presente, não permitindo que a rotina e os anseios materiais (nunca saciados) nos roubem a alegria de estar junto dos que amamos. Obrigada por compartilhar o texto!

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